sábado, 10 de fevereiro de 2018

Anymore

Tenho enterrado no fundo do mar, em lugar ignoto, um baú de chaves perdidas. Não fiz mapa do sítio nem guardei cópias das chaves. Nunca ninguém o encontrará, jamais o seu conteúdo verá a luz do dia. Segui esse critério ancestral que ordena que se enterre o que é indestrutível mas incómodo.
Na maioria das vezes o meu tesouro, que é também o meu crime, castigo e vergonha, é uma dor surda que o ruído dos dias disfarça. Uma manhã por outra, porém, liberta-se do baú o espírito do seu conteúdo e espera-me aos pés da cama, para me surpreender logo que abro os olhos, atacando-me, à traição, antes que tenha tempo de desviar o olhar. 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

meias

As botas eram novas e tingiram-me as meias. 
A condição humana é de uma fragilidade insuportável. 
Não interessam os poemas que sabemos com o coração, os livros que lemos ou as músicas que conhecemos ao terceiro acorde, quando se está dentro de uma máquina, numa sala gelada e tudo o que reconhecemos como próprio é um par de meias tingidas que nos rouba a última réstia de dignidade.
Felizmente, tendemos a esquecer-nos disso. 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Esta noite africana

O dia pariu uma noite instantânea, africana.
Não sei de onde veio a pedra que atingiu a lâmpada.
Vi os cambiantes do dourado enegrecerem na sombra das minhas próprias mãos.
Não há dor mais inoportuna do que aquela que é de causa ignota. Essa dor traiçoeira que é uma traça de asas abertas pousada no vison que nos cobre o peito.
Quando abri os olhos havia, sob a noite densa, um buraco de malhas roídas.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Destoriada

Tagik, o berbere contador de estórias, dormia a sono alto à entrada da tenda. 
Fizemos a longa viagem pelas areias do deserto em busca de uma estória. Não há na vida coisa mais valiosa do que uma boa estória. Teria de bom grado percorrido duas vezes a distância desta areia infinita e suportado as feridas que o sol do meio dia deixa na boca e as pontas dos dedos queimadas pelo frio da noite de estrelas, se, ao menos, tivesse encontrado Tagik acordado na sua tenda, de mão estendida para a minha moeda e olhos fixos para lá de onde nasce o vento, que é também o sítio de onde vêm as  boas histórias. 
Mas Tagik, o berbere contador de estórias, não acordou.
E eu regressei desta viagem, um pouco mais ferida, um pouco mais cansada, um pouco mais velha, com o bolso pesado pela moeda que, desta vez, a mão de Tagik não quis receber. 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Espelhos

Quando, por fim, puxei a ponta do lençol e descobri o espelho, enfrentei-me sem medo, esperança ou rancor numa moldura dourada. Nevegámos tantas milhas, passaram por nós tantas estações, foram tantas as albas que o espelho revelou-se incapaz de me reconhecer. 
É uma forma de liberdade.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Moon-blue

Dir-se-ia que falhar a lua azul passou a ser um traço de personalidade.
A quinta lua veio. Foi azul e falhei-a.
Vi-a hoje, já alta, branca, desdenhosa.
Uma lua que nos lembra que não esperou, que não espera, que nunca esperará por nós.
Aprendi a minha lição:
Se houver uma lua sexta, azul, branca ou rosa, estarei sentada, junto ao rio, à espera que, para que eu tenha o privilégio de a viver, se deixe nascer do fim dos dias.

Elektra

Diz Clitemnestra à filha, Elektra, que não há demónios internos que não se libertem. É indispensável  é o sacrifício do sangue certo. Eu, que sei algumas coisas sobre demónios internos e sobre altares sacrificiais, digo-vos que assim é.
Uma alma liberta de demónios internos, espelha, sobretudo, o sangue que certeiramente sacrificou.
Do sangue inocente que no processo escorreu, é claro, não reza a história.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

sábado, 13 de janeiro de 2018

Idioma


antes de ti,
gastei todas as palavras.
pródiga,
revirei os bolsos.
vivi a crédito.
dei em penhor.
pedi aos poetas.
roubei nas esquinas.

não sobrou 
metáfora 
palavra 
letra
com que fazer 
um só verso.

para ti,
invento um idioma. 
um que seja comum
às árvores
e às pedras antigas
a à areia do deserto
e à água das fontes 
e ao rumor das mãos, 
quando se encontram
depois de se faltarem. 

um idioma
sem signos,
feito da matéria
das coisas
que são.

do silêncio,
das células,
do acaso. 






sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Anjos

– Os pés são de barro, senhor, é preciso levar-me ao colo. 

Uma manhã não mais se cabe num verso e estendem-se os ossos dos pés e das mãos para fora da capa do livro. Não é algo que se planeie ou a que se aspire. Num instante espreguiçava-me entre duas metáforas e no seguinte estava estendida no chão do quarto. Saí para a rua a tempo de assistir à chegada do outono. Vi a cidade sob a chuva de folhas amarelas das árvores que até então só conhecia de cima. Veio a noite e senti as luzes tão perto que nelas poderia ter aquecido os dedos. Depois fez-se inverno e conheci a força do vento e soube o que é o frio. 
Visto daqui, o rio não é um espelho de prata que serve de cama à lua. É o fio de água onde lavo os pés. A música deixou de ser um conjunto de etéreos acordes enleados. É a expressão na testa do baixo e o balancear das ancas da cantora e os dedos calejados do guitarrista. As casas não são o longínquo suporte dos telhados por onde se passeiam gatos. São as conchas dessa estranha raça de humanos que, aos magotes, evitam cruzar olhares nas ruas. 
No princípio, tive medo. Depois, tive fome e tive sede. Agora, tenho apego.
Não sou ingrata. Viver dentro de um livro de poemas é habitar-se um jardim de inesgotável fonte de beleza. É ser-se anjo, ou musa, ou um Deus. Mas todos esses são, sem o saberem, o produto do sonho de outrem. 
Cair na terra é ser-se livre. E sonhar os anjos e as musas e os deuses. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Comunicações intergalácticas

Desde o dia em que dela te foste, a terra deu mais uma volta ao sol. Uma vez por ano suspendo a minha descrença na imortalidade da alma, acendo-te uma vela e vejo-a arder ao som da tua canção. Deixei de suportá-la à força de ouvir-te aprendê-la nas cordas da guitarra. Tocavas pessimamente e se acaso te acomodaram no inferno, por certo, o hospedeiro terá contratado o serviço para aumentar a agonia dos teus vizinhos.
Precisei de nada menos que vinte anos e da tua obtusa morte para perceber uma música sobre a imortalidade e a angústia do envelhecimento quando não a vida não se faz em função de causa alguma. Continuo, porém, a confiar mais nas coisas do que nas causas. A felicidade simples que existe numa escova de cabo de prata, ou num livro que esperámos para ter, ou na cadeira que alojas na sala, ou mesmo na mais bizarra garrafa de vinho, é a aprendizagem metafísica dos espíritos livres. Livres do insuportável peso da existência. Creio, mesmo, que é a única forma de liberdade que importa. Aprendi com a tua morte que as mais perigosas correntes são as que nos agrilhoam à nossa escuridão interior. Na falta de uma causa que se compre, só a futilidade liberta.
Seja como for, dizia, desde o dia em que dela te foste, a terra deu mais uma volta ao sol. E foi a sexta.  Finalmente, a sensação da realidade voltou a cruzar-se comigo no espelho e assim me desfantasmizei. Encarnei no corpo que me sobejou e ele aceitou-me de volta com a alegria do cão que nunca soube culpar o dono pelo abandono. Alguém terá dito um dia que voltamos sempre ao sítio onde nos esperam. O sítio onde nos esperam, porém, pode ser tão próximo como a pele que nos acolhe e não haverá regresso mais íntimo e poético do que aquele que se define pela identificação no espelho.
Só o poderá saber quem um dia se enlutou da sua própria sombra.





segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

iemanjá

Veio do leito do rio, a escassos minutos da meia noite, para pendurar no meu peito a chave do  ano que haveria de nascer.
Não lhe levei flores, pois nada ofereço aos deuses, mas retruibuí com o riso. Mantive-o no fundo da garganta quando nos céus rebentaram estrelas de luz e fogo e a deusa partiu, deixando-me entregue à imensidão da terceira lua e a essa mão que é o negativo da minha.
Ainda aqui estava, hoje, no sítio onde o guardei. Ainda aqui está, agora, o riso, mesmo depois de abertas as portas do tempo.

domingo, 31 de dezembro de 2017

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Cartografia do coração

Pode viver-se em paz com um coração homogeneamente escuro. Mas quando nele entra a luz,  formam-se poças de sombra negra que alastram e comprimem consoante o posicionamento dos astros. É nessas lagoas de negrume que se afoga qualquer princípio de tranquilidade.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Da quietude

Não o percebi imediatamente. Quando o cosmos salta da esfera armilar faz-se acompanhar por um ruído impossível de ignorar. Mas quando os astros o devolvem ao seu lugar, há o rumor da folhagem a recolocar-se na direção da luz, que é uma forma extrema de silêncio, e nada mais. 
Um final de tarde em que nenhum facto relevante ocorreu, o corpo e a mente reuniram-se, por fim, no mesmo espaço físico. Então, o tempo verbal presente preencheu todo o cenário, as luzes da cidade reconciliaram-se com o desenho das constelações e eu apreendi a noção da quietude:
É o mais perfeito sinónimo da felicidade.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Bolerinho

Vem miúdo,
desce a rua à esquerda do outono
no passo firme da árvore da vida 
e enlaça-me nesse instante do sono
em que a dois corações uma batida.

Dança comigo de pés torcidos
diz-me a essência dos dias 
dá-me a violência dos tecidos 
conta-me das estórias vadias.

Vem miúdo,
sobe a rua à direita da primavera 
lava-me dos cabelos todo o sal 
manda fechar as portas da guerra
desenha-me um mundo sem mal.

Dança comigo de pés unidos 
alimenta-me a baclava 
faz todos os espaços banidos 
adormece uma rosa brava.

E, miúdo,
Corta do trapézio as cordas.
Ata-as às asas do vento norte,
que, dizem,
– nunca
voar
foi
má-sorte.

Calar o medo

Quis calar o medo com um gesto firme. Dizer-lhe que regressasse ao chão de onde veio. Pisá-lo com as solas de seda dos sapatos de bailarina. Quis levantar o pescoço à altura do arco-íris; habitá-lo por dentro e estender os braços até ao vermelho.
O medo é a neblina que sobe até aos joelhos e submerge o caminho. Tão denso que não nos deixa ver as poças por entre os pés.
Não sei quanto tempo fiquei ali, emudecida, fascinada pelos desenhos que o medo forma quando se levanta do chão.
Ou sei. O tempo que demoram as raízes a chegar ao outro extremo do mundo.

O sentido destas palavras


sábado, 9 de dezembro de 2017

Colonizadores

Enquanto o Chet Baker se estendia ao mais escondido canto da casa e a câmara do tempo filmava em modo lento e a luz da rua morria num amarelo ouro-velho, com as células do coração colonizadas por um olhar oblíquo, tive a esmagadora visão de todas as coisas que sempre deveriam ter sido.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Duas luas

A segunda lua nasceu do asfalto e esperou-me, emboscada, na curva da estrada. Imensa; definitiva; resiliente como as árvores que nascem das sementes caídas dos bicos das aves e fazem o seu caminho nos beirais das casas.
Foi uma lua rosa.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Inveja

De imediato, a deusa vai à mansão da Inveja, imunda 
de negro pus. A casa feia estava escondida no fundo 
de um vale, sempre sem sol, que jamais o vento tocara, 
uma casa triste, toda a abarrotar de um frio entorpecedor, 
onde o lume falta sempre e sempre abunda a escuridão. 
Quando a virgem viril, temível na guerra, ali chegou,
parou diante da casa (nem lhe era permitido na morada 
entrar), e bate à porta com a ponta da lança.
Ao bater, as portas escancaram-se. Lá dentro vê a Inveja,
banqueteando-se com carne de víbora, com que alimenta 
a sua maldade; ao vê-la, desvia o olhar. Esta, por seu lado, 
levanta-se da terra infértil, deixando pelo chão bocados 
de víboras meio-comidas, e avança com passo indolente.
Ao ver a deusa, deslumbrante pela beleza e as armas,
lançou um gemido e contraiu a face, soltando suspiros.
A lividez cobre-lhe o rosto, todo o corpo é escanzelado;
o olhar nunca é frontal, os dentes amarelados de sarro, 
o peito esverdeado de fel, a língua encharcada em veneno.
Jamais um riso, a não ser quando vê alguém sofrendo,
jamais dorme, agitada por angústias que a fazem desperta.
Com desagrado vê os sucessos dos homens, e, ao vê-los, 
definha; e rói os outros e também a si própria se rói,
e este é o seu tormento.

Ovídio, Metamorfoses, Livros Cotovia

O amor é um cão do inferno

Há uma solidão neste mundo tão vasto
que consegues vê-la nos lentos movimentos 
do ponteiro do relógio 

pessoas tão cansadas
mutiladas 
tanto pelo amor como pelo desamor 
as pessoas não são boas umas para as outras 
o próprio para o próprio 

o rico não é bom para o rico
o pobre não é bom para o pobre
nós temos medo

o nosso sistema educativo diz-nos 
que todos podemos ser 
alarves vencedores 

não nos contou 
sobre as sarjetas 
ou sobre os suicídios.

ou sobre o terror de uma pessoa 
agonizando algures
sozinha

intocada
silente 
a regar uma planta. 

Charles Bukovski, in Love is a Dog from Hell
(Tradução minha)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Eros

Uma vez a cada cinco anos, nem mais nem menos, deixo sair o deus menor da muito subterrânea cave onde o mantenho aprisionado. Liberto-o das correntes, retiro-lhe a mordaça, escovo-lhe as penas das asas e, desarmado de arco ou flecha, permito-lhe que se passeie pela sala, assome à janela e se sente num canto do sofá. Nåo autorizo que me olhe nos olhos; não o deixo tocar a sua música; não o perco de vista por um inteiro segundo.
As razões pelas quais lhe aligeiro o cárcere não são humanitárias. Eros é um deus, ainda que menor, é culpado e não se lhe aplica a comiseração que é devida aos homens. O ritual é um ato de fé. Se preferirem, de desesperançada esperança na reabilitação do prisioneiro.
Invariavelmente, durante um mais longo pestanejar, o deus menor, sem arma nem munições, ensaia uma tentativa de rebelião e acaba por me destruir a sala inteira.

domingo, 26 de novembro de 2017

Domingo

Depois, afundou-se o dia no rio, sobreveio o cansaço das coisas imóveis e uma réstia de frio dentro do casaco abotoado.

sábado, 25 de novembro de 2017

Música no coração

Noutra noite de fiapo de lua, haverá de trilhar o mesmo caminho com idêntica chuva nos olhos. 
A memória que mora nas células faz dos grãos de areia da ampulheta o mais requintado dos cristais. Ninguém sabe se foi há vinte anos ou se foi ontem. Dizem que, em certas noites, quando desce a tampa do piano, quando o salão se esvazia, quando a porta se fecha, a escuridão liberta a sombra de um homem que procura nas janelas de uma casa há muito vazia o contorno de uma mulher.
Dizem que, nessas noites, por toda a vila, faz-se ouvir uma música de cordas tão tristes, que os gatos vão esconder-se dentro do mar, as gaivotas enterram-se na areia e os homens roem as mãos.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O aleph

Sei de um Aleph. Vive numa certa página de um certo exemplar de “As Metamorfoses”, de Ovídio. Encontrei-o num sítio que não revelarei, quando, entre paredes forradas a livros e sussurros, esperava, sentada numa pesada cadeira antiga, por um homem que sabia que viria. 
Quando cheguei à décima primeira linha da página, por baixo do nome de Júpiter, surgiu-me a inusitada janela para o universo. Vi um minúsculo olho desenhado a carvão e, com o livro pousado nos joelhos, foi através dele que espreitei. Então foi-me dado ver o universo. Vi cada uma das cores do arco-íris, por ordem inversa à sua. Vi os olhos vermelhos de uma criança albina e a mão despigmentada com que colheu a rosa branca. Vi uma crisálida estremecer lenta na transformação. Vi Hera, sentada à comprida mesa do Olimpo, exercer o arbítrio e a maldade que são a massa dos deuses. Vi homens iguais de distintas fardas matarem-se por razão ignota do alto dos seus cavalos assustados. Vi a escuridão da gruta onde o primeiro homem, a sangue, desenhou o primeiro animal pelo prazer de o rememorar. Vi o mar imenso, cada uma das suas criaturas, e tive saudade e medo. Vi os canhões apontados à praia e depois os mísseis que um dia alcançarão a lua. Vi Homero guiar Dante pelos círculos do Inferno e Beatriz, que estava irremediavelmente morta. Vi Eurídice maldizer Orfeu que não a libertou e o meu próprio Orfeu, para sempre preso no Hades pela minha resolução de não olhar para trás. Vi um diamante no dedo anelar de uma mulher vestida de vermelho e a sua vaga expressão de felicidade. Vi uma criança que fui eu própria e a sua saia de índia. Vi o Ganges, cada um dos seus mortos e todas as viúvas. Vi num teatro desconhecido dois amantes partilharem o mesmo veneno e tornarem-se imortais. Vi a mão de Borges escrever o seu Aleph, de onde este haveria de nascer. Vi o riso dançar dentro dos olhos do homem que esperei sabendo que viria.
Depois fechei o livro e, ao acaso, devolvi-o a uma imensa estante. 
Nem sempre o universo é moeda para um riso que dança dentro dos olhos.



domingo, 12 de novembro de 2017

Diário de Bordo

Esta intrépida tripulação Pirata e a sua imodesta capitã, enquanto passavam férias estirados nas cadeiras das tabernas de Tortuga, ouviram falar de um tal de Triângulo das Bermudas e da quantidade de navios que para lá estão acompanhados dos respetivos cofres. Fartos de assaltar navios de cruzeiro carregados de velhinhos nórdicos, decidimos imediatamente, por unanimidade menos um voto, rumar ao tal do Triângulo das Bermudas, mergulhar no ouro, na prata e nas pedrarias desaparecidas e retornar, ricos e gloriosos, do fundo dos mares. Os velhos piratas de Tortuga, quando souberam do empreendimento, fizeram umas estranhas expressões com os olhos e gritaram-nos qualquer coisa que se assemelhou vagamente a palavras de aviso. Porém, decididos como somos, por essa altura, já estávamos demasiado longe para ouvir outro som que não o doce chamamento da aventura. É, pois, possível que nada saibam de nós por uns tempos.
O voto contra, é claro, foi o meu.

Enquanto o frio não vem...

... podia ficar aqui, imóvel, debaixo da árvore da vida, durante mais estações do aquelas que soubesse contar.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Bolerinhos

Arrastava na voz a quentura de um lamento apaixonado que foi enchendo a sala.
O sofrimento, quando é fingido, é doce e as suas notas douradas têm a força que aproxima os corpos. As cabeças juntam-se, os corações sincronizam-se.
Tivessem os amantes, como os músicos e os poetas, a capacidade de manter a paixão no plano do fingimento e o mundo seria um sítio perfeito para se viver.


domingo, 5 de novembro de 2017

Asas

Lá no alto,
com o silêncio dentro dos carros a fazer-me cócegas nos pés,
a solidez do ferro e a ponte ao alcance dos meus dedos,
a cabeça dentro de uma nuvem sem forma,
Vi esse anjo de papelão que,
no fim do dia,
espera-me, quieto, à entrada de casa.
E soube, então,
da urgência de lhe consertar as asas.



Recados

Blind Pew

Longe do mar e da formosa guerra,
Que, como o amor, o que perdeu glória,
O bucaneiro cego percorria
Os terrosos caminhos de Inglaterra

Ladrado pelos cães de tantas quintas,
Chacota dos rapazes do povoado, 
Dormia um combalido e tão gretado
Sono em valas de pó negro, retintas.

Sabia que remotas praias de ouro
Era seu recôndito tesouro
Aliviando-lhe a contrária sorte;

Também a ti, mas noutras praias de ouro, 
Te aguarda incorruptível teu tesouro:
A vasta e vaga e necessária morte.

Jorge Luis Borges, in Obras Completas, II, Teorema