segunda-feira, 23 de abril de 2018

Doomed from the start


A esperança é a trela da submissão

E tu, Pandora, que tão bom serviço prestaste à humanidade ao abrir esse baú de onde se soltaram todos os bens e todos os males, não saberias tu, desgraçada Pandora, dar um pontapé na caixa para que também a esperança se perdesse entre os homens e deixasse de ser património divino? Penhor, chantagem, açaime e trela administrado por deuses? De que nos serve, Pandora, sermos senhores do bem e do mal, possuidores do amor e do ódio, se é dos deuses a esperança e se a usam para nos acorrentar?

(O título pertence a Raoul Vaneigem)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

voar

Quando me perguntou se era feliz, por vergonha, embaraço ou piedade, menti muito e sem culpa.
Trago as asas enfaixadas sob a camisa de seda de alta costura e doem-me nas articulações da cobardia. Às vezes, uma ou outra pena escorrega-me pela manga e assoma à linha dos pulsos. Já fui obrigada a engoli-las, entre duas colheradas de sopa fria, para não incomodar os comensais dos restaurantes de luxo onde ele me senta à força. Os porteiros fingem não ver a corcunda de asas dobradas e à saída, grata, pago-lhes em lágrimas de prata a discrição profissional. 
Quando os dias têm mais horas e a noite me parece mais escura, solto as fitas das costelas e passeio-me na sala, nua, de asas abertas. Ele desvia o olhar e comenta a deformidade da sombra na parede como se de uma ilusão de ótica se tratasse. Finjo que sim. Os espelhos, voltei-os ao contrário para que não me traíssem. 
Mas hoje, por descuido, alguém deixou aberta a porta da varanda. 
As minhas mãos já alisam o frio da noite e os pés procuram o ponto de equilíbrio do salto. As asas, soltas, soltas, soltas, fizeram-se para voar. 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Piratas mortos não contam estórias


Pesos

Ao esquecimento que Borges dizia ser a meta, também eu cheguei antes.
Não vi a marca que creio não ter sido desenhada no chão, nem fita vermelha que se rompa de encontro ao peito. Não ouvi fanfarras, nem isoladas palmas. Passei por esse portal de olhos fixos numa distração qualquer, gesto que sempre foi a minha maior desgraça e a minha maior sorte. Uma manhã igual a todas as outras, o esquecimento, de boas contas, levou o que tinha a levar e restituiu-me a liberdade. 
Pesa tanto quanto a memória que a resgatou.



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Quando a chuva se for embora

Contei sete luas pelos dedos dos pés.
Era uma noite quente num dos telhados de Lisboa
mas depois vieram o vento e o frio e a chuva, por esta ordem.
Os telhados ficaram desertos, a escorregar sozinhos,
e nós não chegámos a deitar-nos sob a luz da lareira acesa.
Quando a chuva se for embora, irás com ela.
Para que nada distraia a primavera.

Diário de Bordo

Querida tripulação:

Não é que a bravura, a intrepidez, as calças justas debaixo dos casacos de missangas bordadas e o lenço encarnado a cobrir-me os cabelos não me fiquem bem. É que oito anos capitanear um navio Pirata, oito anos à cabeça de uma tripulação de delinquentes, criminosos e poetas, que é tudo a mesma coisa, oito anos a planear e a praticar o saque e a espada, oito anos a comer a comida de Andrimnir, o cozinheiro Pirata, a acordar com os uivos de Polly, o papagaio, a driblar os desamores de Giulliano, o Pirata Italiano, a conter os motins dos ex-presidiários, a tentar manter sóbrio Álvaro de Campos, ele mesmo, oito anos neste navio, dizia, sem secador de cabelo, sem vestidos de seda, sem sandálias de solas vermelhas, sem uma boa maquilhadora e, por último e não menos importante, sem sequer poder namorar, fizeram com que, em suma, me tenha farto de todos vós.
Foi imbuída desse bom espírito que aceitei o convite de Jack Sparrow para passar uns regeneradores tempos num estúdio da Disney e é lá que tenho estado desde então. Não vos escrevi antes porque tenho estado demasiado ocupada a contemplar perfeitos ocasos pintados em papel crepe, com uma mão num cocktail lilás e a outra na mão do Jack.
Não sei quando volto, mas deixei os comandos do Aleph entregues à grande Pirata Palmier Encoberto e tenho a certeza que está tudo bem. Vi que escreveu um diário de bordo, certamente a contar as glórias da última campanha, mas aqui, nos estúdios da Disney, há links que se se recusam a abrir.
Obedeçam-lhe como me obedeceriam a mim.
Muaaaahhhhhh

  

quarta-feira, 28 de março de 2018

Notebook

O meu amigo chegou e trouxe-me um notebook. Pensei que seria um objeto útil para depositar a saudade. Há pessoas que nos faltam tão por dentro que temos de esquecer a ausência. Um assassino ensinou-me, um dia, que é um ato de inútil masoquismo fixarmos o pensamento no que de antemão sabemos que nos trará tristeza. É por isso que prefiro só pensar no meu amigo nas duas horas que antecedem um nosso encontro. Não lhe disse que as páginas do notebook serão insuficientes para que, até à próxima vez, nelas caibam os caracteres da falta. Seria redundante. 
Um dia partiu para um país cujo nome me recusei a aprender, convencida que recusando os signos da sua nova vida renegaria a ausência. O nosso mundo encolhe quando nos separamos dos amigos. Naquele ano o meu encolheu demasiadas vezes. Disse-me que pensa em mim sempre que está em Istambul, cidade onde nunca estivemos juntos, mas onde me consegue ver a comprar quinquilharias no bazar ou a beber chá de menta sentada numa almofada. Percebi que o meu amigo segue um método mais evoluído do que o do assassino que me ensinou a não sofrer. Descontextualizar as pessoas é a melhor forma de as levarmos connosco. E, assim, fazer com que as saudade caibam todas dentro das páginas de um notebook. 

terça-feira, 27 de março de 2018

A noite que nunca acaba

Dizem que correr liberta o espírito. Não há nada que não faça para me ver livre do meu. Depois do quinto quilómetro, o rio, que no início era uma língua de prata a encomiar o céu, transformou-se no fio de lama que o estrangula. As pernas revoltaram-se contra o processo de liberação do espírito e o próprio perdeu-se, fixado, insistente, na tormenta de um pensamento mau. O corpo dobrou-se ao peso. 
Foi então que, pela manhã, entraram os primeiros acordes da música. E o espírito regressou a casa e a boca, involuntariamente, abriu-se num sorriso que eu queria pintar em mim para sempre, e as pernas correram ligeiras por cima do rio que foi o mar que nos separa. 
Foi assim, bem o sei, que mil vezes me arrancaste das profundezas do Hades. Aqueronte nada pode contra a força da música que é como se fosse o meu nome nos teus lábios. Mil vezes morri e, imortal, mil vezes me trouxeste à tona da caverna que é o inferno dos que amaram. Mil vezes me esqueci e mil vezes me lembraste. Deste-me a história e deste-me a canção. E esta é a noite que nunca acaba. 



segunda-feira, 26 de março de 2018

Achados

O remoto rei dos corvos 
Edgar Allen Poe,
deixa cair do seu bico, 
no centro de uma biblioteca, 
os restos de uma musa.
Cansados de tanta melancolia, 
os ratos montam à sua volta um circo.

«Annabel Lee», «Annabel Lee», 
guincham os bichos,
repartindo os ossos entre si.

Mostram os dentes,
esticam-lhe a pele.
Sabem que o poema 
não tem outro precursor 
a não ser a fome;
nem outro seguidor 
a não ser o crime.


Golgona Anghel, Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho, Assírio & Alvim

Jet lag emocional

Tantos foram os estados que atravessei e a tão grande velocidade se sucederam que passsei a sofrer de jat lag lag emocional.

domingo, 25 de março de 2018

Mas no céu não conhecemos ninguém...



“That’s a long way to go just to eat.

evito os evangelizadores, os bajuladores, os ególatras e os medíocres.”

A Flor, aqui, a explicar porque não tem amigos. 

sexta-feira, 23 de março de 2018

Sonhos

Sonhei, ou quis sonhar, que Alah é quem mais sabe, com essa encosta de vinhas que se estende até ao mar. Vi uma vez mais a enorme lua refletida nas águas negras do mar-chão e as mesmas estrelas que guardei tatuadas na íris. Às vezes, num segredo que guardo de mim própria, quando o sono distrai o porteiro deste mundo, regresso à noite que pariu todas as noites que se lhe seguiram. À tarde que a antecedeu, bem sei, nem em sonhos poderei regressar. No instante em que a culpa se forma, perde-se, para todo o sempre, a capacidade de recordar a inocência.

Radialistas


quinta-feira, 22 de março de 2018

Oferecem-se Haikus


Achei que era um bom dia para voltar a oferece haikus do Bashô (e outros que talvez nem tanto)
Diga um número de 55 a 296 e receba um haiku.

terça-feira, 20 de março de 2018

raízes

Passei incontáveis minutos a observar o processo de crescimento das raízes no vaso de vidro da planta suspensa em água. A resiliência é o meu milagre preferido. Se fecharmos os olhos e o dia não tiver sido péssimo e tiver feito um pouco de sol e alguém nos tiver oferecido uma música nova ou se tivermos encontrado uma metáfora aceitável num poema, ou num cartaz publicitário, ou mesmo entre duas pedras junto ao rio, se o dia não tiver sido péssimo e fecharmos o olhos, dizia, podemos acreditar na resiliência, essa, que a natureza jura que, estatisticamente, também há em nós.
E então saberemos que as raízes continuarão a crescer mesmo quando ninguém as observa.
E tudo estará bem.

Equinócios

Às 16:15 horas de hoje, mais segundo, menos segundo, decidiram os Homens, chegou a primavera.
Não espanta, por isso, que ainda traga os restos do inverno colados aos ossos.
É preciso fechar as janelas ao vento norte, ajeitar os pés ao raio de sol, sacudir um resto de gelo do coração, deixar secar as gotas de chuva das pestanas, abrir as asas à clepsidra e aceitar a renovação.
Valha-nos as estações para nos lembrarem que o tempo, qualquer forma de tempo, ainda corre.

terça-feira, 6 de março de 2018

Biografia




Como dizer-te dessa estrada secundária por onde só passa quem procura alguma coisa que não sabe o quê; do seu asfalto gasto pelo pó do deserto que vai da berma até ao meio da faixa de direção unívoca; como dizer-te desse café de portas empenadas, por onde já só entra um pouco de vento que se anuncia no abraço do cristal das velhas estrelas penduradas no tecto; do salão vazio onde não se dança ao som da caixa de música avariada. Como dizer-te das cinco da tarde e das janelas de vidros sujos onde a luz dourada assoma à despedida. Das coisas que eram minhas e que foram, uma por uma, abandonadas. Como dizer-te de mim?

Diamond rings and Chevrolets

A Saga 

Pela Palmier Encoberto 

segunda-feira, 5 de março de 2018

sexta-feira, 2 de março de 2018

Diamond rings and chevrolets

Escorreguei uma vez mais pela toca do coelho. Foi difícil encontrá-la na cidade. Entre dois prédios, escondida no chão, disfarçada de conduta de esgoto. Aqui, as portas são todas iguais e umas levam à miséria e outras à maravilha. Só descobres depois de teres descido muitos metros, de costas, com os pés no ar e os cabelos em desalinho. 
Caí diretamente na sala grande. A minha pouco discreta chegada não interrompeu a festa. Havia uma harpa que se tocava a si própria. O coelho das pressas dançava um tango melancólico com a lagarta azul e nenhum dos dois olhou na minha direção. O gato que ri mostrou-me os dentes de cima e apontou-me a sombra escondida atrás do reposteiro. Vi-lhe a forma do chapéu alto e lamentei a ausência da matéria. Um dos gémeos gordos veio dizer-me que também no wonderland há sombras vazias. E o outro ecoou vazias vazias vazias até que a palavra ganhou a consistência do gelo e as letras subiram desordenadas e fizeram um looping junto ao lustre de cristal pingado.
Fingi não me importar com o acidente do chapeleiro louco. Perguntei ao vazio onde estava a rainha branca e o gato, rindo-se, disse-me que estava dentro da rainha de copas.
- Nunca saberei se sou Alice ou a rainha de copas e quando ouço o "corteeeem-lhe a cabeça", tanto pode ser uma ordem dada contra mim como por mim. 
Então, a lagarta libertou-se das patas do coelho das pressas e instalou-se no meu ombro com o seu cachimbo de ópio.
- Aqui ninguém quer saber quem és; Depois apontou a sombra do chapeleiro louco escondida por trás do reposteiro e disse com um gesto dramático: - A verdade enlouqueceu aquele..
A harpa chorou um novo tango e eu estendi os braços na direção do reposteiro vazio. Ergueu-se a sombra do chapeleiro e enlaçou-me numa dança que durou um tempo que o relógio do coelho apressado se esqueceu de medir.
Mas depois, ouviu-se aquela frase, terrível, cujo som nunca sei se vem de dentro ou de fora e que esvazia o ar e arrefece os dedos e deixa um rasto de dor na garganta.
- corteeeem-lhe a cabeça.

quinta-feira, 1 de março de 2018

My love

Babe don't try to call
My heart is ticking and the show, just won't wait

It's strange, you couldn't see it my way, hey now go
I pray for you to fall
The spark, has died and now you're just too late 

A shame, you're knocking at the wrong gate, hey go home
Come what may, I won't give away

My love, diamond rings and Chevrolets
My love, aces high and cigarettes
My love, faking all like Hollywood
My love, love, love

No way you'll see me crawl
Like a shark I'll be ripping you apart, and celebrate
With lots of champagne, you caught me on the wrong day, now you know

Come what may, I won't give away

My love, see me dancing in the rain
My love, no more whiskey and cocaine
My love, ending all forbidden fruit 
My love, love, love

Ashes to ashes, dust to dust 
No you can't amuse me, so leave you must
Ashes to ashes, dust to dust
If the spell won't kill you, your ego does

My love, diamond rings and Chevrolets
My love, no more tears and no regrets
My love, time to lay the man to rest

My love, love, love

Amon Ra

Sonhei que atravessava o deserto sob o sol do meio dia. É a hora em que o inferno engole as sombras e regurgita o desespero. Do horizonte, não veio miragem que aliviasse a sede. Éramos o sol, a areia e os meus pés nus.
A chuva da madrugada e da manhã e da tarde e do anoitecer não chegou para me salvar do destino.
Há um deserto intransponível que todas as noites me espera. Tem a languidez do cão que sabe que o dono virá.




quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Cioran2

Cioran disse que esperar é desmentir o futuro.
Também poderia ter dito que é confirmá-lo.
Continuaria a ser verdade.

Cioran

Cioran disse que o limite de cada dor é uma dor maior.
Não é verdade. Só se sente uma grande dor. Todas as outras são tristes revisitações da primeira. É sempre a mesma, uma dor única, passada, revivida em réplicas imperfeitas.
Depois da primeira dor, todas as outras são mera candonga.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Sem nome

Por fim, fui alcançada pela tristeza do dia.
Ainda icei as pernas e trepei pelas cordas o mais depressa que soube.
O trapézio é muito alto e eu sento-me para lá das nuvens.
Onde o dia é sempre azul e a noite estrelada.
E essa felicidade, que só existe no que antecede e no que precede todas as coisas, é o meu superpoder.
Mas desta vez trouxe nos bolsos um resto de nuvem escura.
Deles se formou uma chuva estrangeira, alienígena.
Essa tristeza sem nome que agora me chove no colo.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Diário de Bordo

Zarpámos, eu e esta intrépida tripulação Pirata, há vários meses atrás, na direção do triângulo das Bermudas. Por lá navegámos durante muitos dias à procura dos tesouros que os outros perderam quando cruzaram esse espaço maldito onde o nada reina e nenhum homem sobrevive. (Houve quem aventasse que procurávamos o amor, mas não nos pronunciamos sobre o sentido das metáforas).
Não nos perdemos em nihil. Não ouvimos cantos mágicos de sereias assassinas. Não fomos arrastados para as profundezas do mar pelos ávidos braços de Kraken. Não conhecemos, tão pouco, a fúria de um Eolo insultado pela nossa presença.
Atravessámos o triângulo das Bermudas - várias e vezes e em diferentes direções - e concluímos que não há lá nada.
Não o nada que promete o início de todas as coisas; não o nada que atemoriza pela eternidade do vazio. Nem sequer o nada que é o desolo das nuas paredes na alma. Apenas o nada, o velho nada que é dos pragmáticos e entedia até aos ossos. Nihil ao espelho.
Um vazio tão profundo e concreto como o das nossas barricas de rum.



Seis meses

Seis luas novas vieram desde que deixei o exílio.
O que mais me faz falta é o vento dos loucos. De tempos a tempos acordava com areia nos dentes, feridas nas plantas dos pés e a camisa de dormir salgada. Sabia, então, que, enquanto dormia, tinha chegado o sueste, o vento dos loucos. Durante três dias enlouquecíamos todos e o remoínho de lixo plástico que se arrastava nas ruas era o reflexo da reciclagem das nossas memórias. Durante três dias levantávamo-nos e adormecíamos com a alma a gritar em sintonia com os uivos do vento, de tal forma que, na sua partida, já não sabíamos o que era uma e outra coisa.
Aqui não há vento. A temperatura, o ar e até as horas de luz, são rigorosamente controladas pelos burocratas que há muito descobriram que a melhor forma de nos controlar é eliminar a sensação do tempo. Aqui a loucura não é trazida pelo vento. Existe no asfalto e cola-se-nos às solas dos sapatos. Quando damos conta já se agarrou às nossas pernas. As pessoas sacodem-na com força porque, aqui, ninguém aceita a loucura, ainda que temporária, como uma inevitabilidade da natureza. Aqui não há natureza. Há um ecosistema definido por decreto-lei. E um dia, também eu deixarei de contar o tempo. E de enlouquecer.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Anymore

Tenho enterrado no fundo do mar, em lugar ignoto, um baú de chaves perdidas. Não fiz mapa do sítio nem guardei cópias das chaves. Nunca ninguém o encontrará, jamais o seu conteúdo verá a luz do dia. Segui esse critério ancestral que ordena que se enterre o que é indestrutível mas incómodo.
Na maioria das vezes o meu tesouro, que é também o meu crime, castigo e vergonha, é uma dor surda que o ruído dos dias disfarça. Uma manhã por outra, porém, liberta-se do baú o espírito do seu conteúdo e espera-me aos pés da cama, para me surpreender logo que abro os olhos, atacando-me, à traição, antes que tenha tempo de desviar o olhar. 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

meias

As botas eram novas e tingiram-me as meias. 
A condição humana é de uma fragilidade insuportável. 
Não interessam os poemas que sabemos com o coração, os livros que lemos ou as músicas que conhecemos ao terceiro acorde, quando se está dentro de uma máquina, numa sala gelada e tudo o que reconhecemos como próprio é um par de meias tingidas que nos rouba a última réstia de dignidade.
Felizmente, tendemos a esquecer-nos disso. 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Esta noite africana

O dia pariu uma noite instantânea, africana.
Não sei de onde veio a pedra que atingiu a lâmpada.
Vi os cambiantes do dourado enegrecerem na sombra das minhas próprias mãos.
Não há dor mais inoportuna do que aquela que é de causa ignota. Essa dor traiçoeira que é uma traça de asas abertas pousada no vison que nos cobre o peito.
Quando abri os olhos havia, sob a noite densa, um buraco de malhas roídas.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Destoriada

Tagik, o berbere contador de estórias, dormia a sono alto à entrada da tenda. 
Fizemos a longa viagem pelas areias do deserto em busca de uma estória. Não há na vida coisa mais valiosa do que uma boa estória. Teria de bom grado percorrido duas vezes a distância desta areia infinita e suportado as feridas que o sol do meio dia deixa na boca e as pontas dos dedos queimadas pelo frio da noite de estrelas, se, ao menos, tivesse encontrado Tagik acordado na sua tenda, de mão estendida para a minha moeda e olhos fixos para lá de onde nasce o vento, que é também o sítio de onde vêm as  boas histórias. 
Mas Tagik, o berbere contador de estórias, não acordou.
E eu regressei desta viagem, um pouco mais ferida, um pouco mais cansada, um pouco mais velha, com o bolso pesado pela moeda que, desta vez, a mão de Tagik não quis receber. 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Espelhos

Quando, por fim, puxei a ponta do lençol e descobri o espelho, enfrentei-me sem medo, esperança ou rancor numa moldura dourada. Nevegámos tantas milhas, passaram por nós tantas estações, foram tantas as albas que o espelho revelou-se incapaz de me reconhecer. 
É uma forma de liberdade.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Moon-blue

Dir-se-ia que falhar a lua azul passou a ser um traço de personalidade.
A quinta lua veio. Foi azul e falhei-a.
Vi-a hoje, já alta, branca, desdenhosa.
Uma lua que nos lembra que não esperou, que não espera, que nunca esperará por nós.
Aprendi a minha lição:
Se houver uma lua sexta, azul, branca ou rosa, estarei sentada, junto ao rio, à espera que, para que eu tenha o privilégio de a viver, se deixe nascer do fim dos dias.

Elektra

Diz Clitemnestra à filha, Elektra, que não há demónios internos que não se libertem. É indispensável  é o sacrifício do sangue certo. Eu, que sei algumas coisas sobre demónios internos e sobre altares sacrificiais, digo-vos que assim é.
Uma alma liberta de demónios internos, espelha, sobretudo, o sangue que certeiramente sacrificou.
Do sangue inocente que no processo escorreu, é claro, não reza a história.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

sábado, 13 de janeiro de 2018

Idioma


antes de ti,
gastei todas as palavras.
pródiga,
revirei os bolsos.
vivi a crédito.
dei em penhor.
pedi aos poetas.
roubei nas esquinas.

não sobrou 
metáfora 
palavra 
letra
com que fazer 
um só verso.

para ti,
invento um idioma. 
um que seja comum
às árvores
e às pedras antigas
a à areia do deserto
e à água das fontes 
e ao rumor das mãos, 
quando se encontram
depois de se faltarem. 

um idioma
sem signos,
feito da matéria
das coisas
que são.

do silêncio,
das células,
do acaso. 






sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Anjos

– Os pés são de barro, senhor, é preciso levar-me ao colo. 

Uma manhã não mais se cabe num verso e estendem-se os ossos dos pés e das mãos para fora da capa do livro. Não é algo que se planeie ou a que se aspire. Num instante espreguiçava-me entre duas metáforas e no seguinte estava estendida no chão do quarto. Saí para a rua a tempo de assistir à chegada do outono. Vi a cidade sob a chuva de folhas amarelas das árvores que até então só conhecia de cima. Veio a noite e senti as luzes tão perto que nelas poderia ter aquecido os dedos. Depois fez-se inverno e conheci a força do vento e soube o que é o frio. 
Visto daqui, o rio não é um espelho de prata que serve de cama à lua. É o fio de água onde lavo os pés. A música deixou de ser um conjunto de etéreos acordes enleados. É a expressão na testa do baixo e o balancear das ancas da cantora e os dedos calejados do guitarrista. As casas não são o longínquo suporte dos telhados por onde se passeiam gatos. São as conchas dessa estranha raça de humanos que, aos magotes, evitam cruzar olhares nas ruas. 
No princípio, tive medo. Depois, tive fome e tive sede. Agora, tenho apego.
Não sou ingrata. Viver dentro de um livro de poemas é habitar-se um jardim de inesgotável fonte de beleza. É ser-se anjo, ou musa, ou um Deus. Mas todos esses são, sem o saberem, o produto do sonho de outrem. 
Cair na terra é ser-se livre. E sonhar os anjos e as musas e os deuses. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Comunicações intergalácticas

Desde o dia em que dela te foste, a terra deu mais uma volta ao sol. Uma vez por ano suspendo a minha descrença na imortalidade da alma, acendo-te uma vela e vejo-a arder ao som da tua canção. Deixei de suportá-la à força de ouvir-te aprendê-la nas cordas da guitarra. Tocavas pessimamente e se acaso te acomodaram no inferno, por certo, o hospedeiro terá contratado o serviço para aumentar a agonia dos teus vizinhos.
Precisei de nada menos que vinte anos e da tua obtusa morte para perceber uma música sobre a imortalidade e a angústia do envelhecimento quando não a vida não se faz em função de causa alguma. Continuo, porém, a confiar mais nas coisas do que nas causas. A felicidade simples que existe numa escova de cabo de prata, ou num livro que esperámos para ter, ou na cadeira que alojas na sala, ou mesmo na mais bizarra garrafa de vinho, é a aprendizagem metafísica dos espíritos livres. Livres do insuportável peso da existência. Creio, mesmo, que é a única forma de liberdade que importa. Aprendi com a tua morte que as mais perigosas correntes são as que nos agrilhoam à nossa escuridão interior. Na falta de uma causa que se compre, só a futilidade liberta.
Seja como for, dizia, desde o dia em que dela te foste, a terra deu mais uma volta ao sol. E foi a sexta.  Finalmente, a sensação da realidade voltou a cruzar-se comigo no espelho e assim me desfantasmizei. Encarnei no corpo que me sobejou e ele aceitou-me de volta com a alegria do cão que nunca soube culpar o dono pelo abandono. Alguém terá dito um dia que voltamos sempre ao sítio onde nos esperam. O sítio onde nos esperam, porém, pode ser tão próximo como a pele que nos acolhe e não haverá regresso mais íntimo e poético do que aquele que se define pela identificação no espelho.
Só o poderá saber quem um dia se enlutou da sua própria sombra.