terça-feira, 25 de abril de 2017

Adivinhações

Diz-me o facebook, tratando-me pelo primeiro nome e convertido em cartomante de esquina, que aproveite o sol; que as nuvens estão a dissipar-se.

Sonos

A estância balnear que habito acordou da sua triste hibernação. Levou uma inteira quinzena no estremecimento do fim do sono, em pestanejos indecisos, no espreguiçar lento dos músculos entorpecidos e, por fim, veio a manhã em que o verão já se instalara cansado. Parece de sempre o cheiro dos bronzeadores na espuma das ondas; são velhas as bolas encarnadas nas mãos das crianças; estão exaustos os vendedores e cestas que arrastam consigo; comidas do sol as ementas dos gelados. De repente, é verão há muito tempo na estância balnear que habito.
Também eu sinto ter sido arrancada ao sono.
Um sono profundo, vazio, antigo, milenar.
Daqueles em que se acorda com rugas nas mãos e cabelos soltos até aos pés.

domingo, 23 de abril de 2017


morrer

Quando a asa do pássaro metálico se inclinou sobre a minha ilha e do alto das nuvens eu vi a praia, esse estalido involuntário da língua, foi o quebrar de uma das juntas do coração.
E eu morri, morri assim devagar e para sempre e pela última vez.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Regressos

Errada, cuidei que não saberia regressar.
Errada, esqueci-me que aquilo que não sei é partir.

domingo, 9 de abril de 2017

Rastas

Dentro de uma das mangas de renda branca, escondo a alma rastafari. Durante o jantar, escorrega pelo pulso uma madeixa de cabelos enrolados que desce até aos dedos. Sacudo a mão com um único gesto firme, da esquerda para a direita, como quem afasta um mosquito imaginário.
Olho disfarçadamente para o pulso reentregue à decência das rendas brancas.
E quando ele me pergunta qual é meu superpoder, não lhe digo, é claro que não lhe digo, que é a minha ilimitada capacidade de desprezo.

Tortuga


sábado, 8 de abril de 2017

As estórias têm de ser bonitas todos os dias

Na penumbra do céu carregado, ao som de um violino ou de um saxofone solitário, com poemas pousados nos joelhos, a estória, no plano do pensamento, até pode parecer bonita. Mas à luz do sol, com o rio ali por trás, a voz mansa dos amigos, o patético esforço da busca de um sinónimo que poupe a palavra cobarde, a mesma estória, não consegue contar-se de uma maneira que não a faça parecer-se terrivelmente feia.
As estórias, percebi-o finalmente, são aquilo que soam à luz do dia e com ruído ambiente.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Promessa

ofereço-te esta tarde de desvento.
as flores agarradas aos ramos das árvores
e os ramos seguros à seiva do tempo.

o pátio lá fora num silêncio de sesta,
o gato que se estende sobre o calor das pedras
e a imobilidade mágica do sol que resta.

a luz que se aninha nos meus pés descalços,
o lençol; cada um dos eivos do seu vasto deserto
e os espelhos onde se desfazem medos falsos.

nuances de sombra azul que me habitam
um ou outro grito arrancado à carne
penas que compõem as asas ou as imitam.

Ofereço-te o que não pode perdurar:
o olhar líquido que inventa a tarde,
a insídia de um veneno que não arde,
a abstrata, vã, promessa de te amar.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Salvação

Hoje salvou o meu dia o poema que um poeta desinteressadamente partilhou.
Os poetas não sabem que, às vezes, salvam os nossos dias.
Devíamos dizer-lhes mais vezes. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Universo paralelo

Num qualquer outro universo paralelo, nas respetivas salas de cortinas arredadas, um homem e uma mulher espiam-se mutuamente.
Poderiam ter sido Adão e Eva antes do paraíso; dois amantes num final de tarde de inusitada chuva; os noivos que trocam votos que desconhecem não saber cumprir; selvagens na densa floresta onde jamais entrou a luz de deus; velhos que esperam a dócil morte de mãos juntas num banco do alpendre.
Conhecem-se as vozes que nunca antes ouviram e sabem que dentro do outro há um compartimento secreto onde se estende o Sahara.
Quando a noite cair, sonharão um corpo que descansa ao seu lado e com ele partilharão a solidão que foi o dia.
Nunca serão nada.

avariada

Esse resto de estórias incompletas é um depósito de brinquedos avariados. Falta a cabeça àquele poema; um guiador a um conto; os braços a um outro texto. Vivo estórias incompletas, sentada num balouço defeituoso, que se move ao ritmo de um coração, também ele, avariado.

domingo, 2 de abril de 2017

Diário de bordo

Com o vento a dançar na tumba fresca da tarde, regressei da guerra, sentada na tábua que sobrou. Apesar de rasgadas e sujas, estas ainda são as vestes de Pirata. Na guerra, perdi quase tudo. Salvei, por ordem de importância, o chapéu, a vida e a dignidade. Enfrentei a a baleia branca que jaz agora no fundo dos tempos e é como se a vida me pertencesse uma vez mais.
A minha ociosa tripulação recebeu-me em festa, de navio engalanado, sunset party e rum à descrição, não por me esperar mas, precisamente, por já não me esperar.
À chegada, comuniquei-lhes a minha irrevogável decisão:
Regressaremos ao nosso porto de origem. Afinal, até os Piratas, mais tarde ou mais cedo, precisam de voltar para casa. 

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sábado, 1 de abril de 2017

Ontem

Deitada na  nuvem apanhei uma gota de água e montei, na palma da mão, o meu próprio Aleph. Vi uns pés que conheço melhor do que os meus deambularem descalços pela penumbra derramada  no chão frio da cozinha; vi as cordas de uma guitarra esquecida atrás da porta; vi o espaço vazio da estante onde viveu o livro que ocupa o espaço antes vazio numa outra estante; vi uma orquídea que desistiu de florir; vi o búzio partido dentro de uma caixa, dentro de outra caixa, dentro de outra casa de penumbra derramada; vi um quadro em tons de cinzento deixado num cavalete; vi num espelho antigo o reflexo de um rosto triste; vi a estrada que vai da montanha até à lua e estava vazia. E então soprei a gota de água e fiquei a vê-la escorrer através dos dedos até ser apenas a chuva dos homens. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Duas viagens e um destino

A Sata oferece-me "uma viagem e dois destinos".
Ocorre-me que a Sata cumpriu a sua promessa comigo vários anos antes de a campanha ser inventada. A última vez que me ofereceu uma viagem, abriram-se imediatamente, no universo, dois destinos.
Compro duas viagens à Sata.

É isto

Tenho umas flores artificiais vagamente parecidas com camélias. Se baixar as luzes e olhar à distância são iguais às camélias. Houve um tempo em que as camélias eram verdadeiras e chegavam à terça-feira. Era o tempo em que o futuro ficava à distância de dois aviões. Depois o futuro chegou. As  camélias são falsificadas. A jarra, pelo menos, é sólida.

*

Substituí com considerável êxito a obsessão com a confeção de muffins pela aprendizagem do piano. Sou péssima em ambas e os progressos são igualmente miseráveis. Mas, de uma forma algo incompreensível, tocar piano para afastar a infelicidade faz-me parecer menos louca.

*

Abandonei a leitura da Ilíada. Abandonar a leitura da Ilíada é a atividade mais consistente que desempenho nos últimos vinte anos. Já o fiz em dez casas diferentes. Também abandonei a leitura da Ilíada em diversos hotéis e até em casas onde não vivia. Essas não contei. Abandonar a leitura da Ilíada passou a ser um traço de personalidade.

*
Enquanto a senhora da farmácia me entregava o troco, percebi, da forma como se percebem as coisas que são, que nunca conseguirei escolher ir-me embora. O exílio é a oitava costela do Pirata. Esse local mágico onde não esteve o passado, não estará o futuro e o presente está quase a terminar. Até os bêbados, diz-se, sabem sempre o caminho de casa. Mas eu preciso desesperadamente de um GPS.

domingo, 26 de março de 2017

Borboletas

No mar não há borboletas.

Faz-me falta uma asa colorida,
de patas pousadas no interior do pulso
a medir-me o ritmo da vida.

É assim que as fadas sabem 
se ainda temos coração.

Tilt

Enquanto desabava a matéria da nuvem, sempre a mesma, que até as nuvens são previsivelmente aborrecidas, parei o carro numa estação de serviço e fiquei lá dentro, imóvel e silenciosa, à espera que tudo aquilo acabasse. É uma filosofia de vida tão válida como outra qualquer: ficar dentro de uma redoma de vidro, artificialmente temperada, imóvel e silenciosa, à espera que tudo isto acabe. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

A Prova

Tenho irreversivelmente tatuada na retina a fotografia do homem que chora. Não a vejo há vários anos mas conheço de cor cada detalhe. A ruga funda da testa. Uma única lágrima amparada na lente dos óculos. Os cantos dos olhos vermelhos. A pele do rosto manchada. Os cabelos desalinhados pelo vento. O mar ao fundo. A fotografia do homem que chora está guardada dentro de uma pasta, dentro de outra pasta, dentro de uma terceira pasta. Nenhuma tem nome e foram atiradas ao acaso para o interior de um labirinto de memórias inúteis. Mesmo que quisesse, dificilmente a conseguiria encontrar. É a expressão congelada do sofrimento. Um sofrimento que se devolve, como quem estica o braço, abre a palma da mão e diz "Toma. Aqui tens a essência do mal. Agora pertence-te a ti e não mais a mim."
Às vezes sei que essa única imagem que não posso esquecer é a última  que verei na vida. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Eternidade

Daqui, de onde me quis trazer o mar, de costas unidas ao chão do barco que me serve de leito, embalada pelas ondas e pelo som do vento norte, é mais real a noite e são mais próximas as estrelas. Um homem comum, numa noite igual a esta, inventou deus. Outro homem, na mesma noite do futuro, destruirá o tempo. Talvez então um terceiro homem possa encontrar a eternidade. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Delete

Não é necessário morrer para ver o passado desfilar em passo apressado, diante dos nossos olhos, rumo ao vazio cósmico. Uma alternativa igualmente definitiva mas menos dramática é carregar no botão delete e ficar-se sentado a ver desaparecer coleções inteiras de sorrisos que já ninguém sabe nem quer saber se foram, ou não, felizes. Algures a meio do processo, a exterminadora que há em mim passou pela sala e decidiu apagar também todas as músicas, todos os vídeos e todos os textos. No final, julgo não ter deixado uma única prova digital de que tive mais passado do que as últimas duas horas. 
Paradoxalmente, ou talvez nem tanto, o computador continuou a avisar que o disco rígido está cheio. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Da Noite

Ah, o alívio de uma noite grave e pesada a abater-se sobre a ligeireza da luz:
"Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite", disse Herberto, sem saber, certamente, que é na página do crepúsculo que os deuses esboçam as linhas esquecidas do teu rosto. 

sábado, 11 de março de 2017

Diário de Bordo



Mandei que me aprontassem um escaler, mantimentos para alguns dias e a última edição de bolso da Ilíada, pois, constatei que, entretanto, num dos quatro continentes que lhe dei a conhecer, perdi a minha.
Parto esta noite, sozinha, como deve fazer-se quando se usa com seriedade o verbo partir.
Tal como Ahab, o louco, também eu naveguei os mares à procura da minha baleia branca, decidida a assassiná-la. 
Mas, ao contrário do capitão louco, não apenas não conduzi a minha tripulação à tragédia, como guardo o escrúpulo de travar a solo as batalhas que só a mim estão destinadas.
Encontrei a Moby Dick dos meus pesadelos e é dentro da memória que a aniquilarei. As memórias são o produto do esquartejamento do destino que escolhemos guardar. 
Despedi-me desta intrépida tripulação Pirata com a solenidade daqueles que sabem que nem sempre se regressa a casa. Creio ter visto nos olhos do meu selvagem cozinheiro viking um, tão frágil quanto inusitado, laivo de humanidade. 
Guardo-o. Um resto de humanidade é bússola que sempre nos poderá fazer falta quando se navegam as ondas dos deuses em frágeis botes construídos por homens.




(Fotografia retirada de monoimages.com)

Adivinhação

Perguntei a Homero, 
que tudo sabe, 
mas o oráculo despediu-me,
reencaminhando-me para o mar.

– "Todas as coisa ele sabia:
as que são, 
as que serão 
e as que já foram."

Pela manhã, ajoelhei-me 
na areia pura. 
Limpa de viúvas de pescadores, 
gaivotas desorientadas, 
búzios que carregam sons 
de outros mundos, 
mensagens desesperadas 
dentro de garrafas antigas. 
Conheci o conforto dos crentes 
nesse gesto mudo 
de perguntar a direção 
dos próprios passos.
Mas o mar declarou-se incompetente;
inconstante na fúria; 
escravo dos humores da lua. 

Esperei a lua, 
pendurada na noite.
Perguntei-lhe ao ouvido 
a direção dos meus pés.
A lua, iluminou-os 
mas, fazendo jus à fama
nem se dignou responder-me.

Sobram-me os pés descalços
E o esboço de mil caminhos.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Kele


Síntese

Alugo o corpo aos dias entre gestos repetidos e a ligeira nostalgia da liberdade. Nenhuma música embala a pressa. Nenhum poema prenuncia a manhã. Afogo na chávena de café o sono, o cansaço, o tédio. Há um relógio em cima da ampulheta e por baixo desta há uma clepsidra. Medem a escravidão. Das janelas vê-se o azul do céu. Sonho, às vezes, que um dia será meu. 
Ensinaram-me que é do chão que vem o medo. Esta forma de coragem, porém, é de oriente ignoto.

quarta-feira, 8 de março de 2017

domingo, 5 de março de 2017

Labirinto

Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho 
Que obstinado se bifurca noutro, 
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juiz. Não esperes a investida 
Do touro que é um homem, cuja estranha 
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.

Jorge Luis Borges, Elogio da Sombra, Obras Completas, Vol. II, Teorema.

Cinzento

Todas as tardes cinzentas, de chuva miúda, são a mesma tarde em que o vi partir pela primeira vez. Pouco importam os céus de cada regresso, a ave que os cruza ou o avião que os desfaz. Uma promessa, sobretudo quando incumprida, é um grito que ecoa na eternidade. 

Canção da Lua


sábado, 4 de março de 2017

Forgiveness

Não chegou a prometida paz. Ninguém escapou ao tempo mas também ninguém esqueceu. O perdão acenou-nos lá do fundo do seu horizonte sem jamais ser tangido. 
São indispensáveis milhões de anos para limar a aresta de uma rocha. Os homens contam o tempo numa medida menos desesperada: Em crepúsculos, auroras, solstícios, equinócios. É a resiliência das rochas que nos força a encontrar um sentido para tão inútil curta existência. 
Escolhemos o erro e o arrependimento com a displicência com que poderíamos ter escolhido o acerto e a glória. 
Agora a moeda caiu no mar profundo e sobreviver-nos-á. Pertence aos deuses o segredo do rosto da vitória.
Os dias que nos sobram serão de frio ou calor, de nuvens ou de céu, da tristeza que é a nossa pena ou da felicidade que é a nossa evasão à pena. 
Mas não virá nenhuma paz, nenhum perdão. Como o previu o poeta, nenhum outro céu, nenhum outro inferno. 

Rico

Rico,
é o que rouba ao esquecimento 
três ou quatro instantes,
e deles faz a sua enxerga
para dormir,
inteiro,
a noite dos animais.


sexta-feira, 3 de março de 2017

Milongas

A milonga continuou a ressoar, cega e incansável, nas ruínas do velho palácio, muito depois de teres partido.  
Às sextas-feiras, quando a noite corria a sua cortina sobre o mundo, se houvesse lua, os lobos podiam sentir a guitarra solitária mover a sombra de uma dança de facas e rosas. 
Deslizávamos por um resto de soalho emoldurado pelas frinchas das paredes onde as gaivotas fizeram ninho. Pele contra o aço, partilhávamos o sangue e o sal, entre passos sincronizados e veias rasgadas. 
E os lobos puderam, muito tempo depois de teres partido, sentir o desespero da milonga que, nas ruínas do velho palácio, dancávamos, eu e essa adaga antiga, que guardaste dentro do meu peito. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sohlepse

Desinteressadamente, vamos coabitando  o mesmo espaço. Por vezes, cruzamo-nos no hall de entrada, à saída do quarto, ou dentro de um elevador. Nada lhe pergunto sobre a expressão de louca que, quando julga que a não a vejo, repousa no fundo do seu olhar. Retribui-me o favor fingindo ignorar a minha existência. Em casa, dividimos os livros, os filmes, o piano, as roupas, o cão. Na rua, existimos à vez. Creio que ambas sabemos que nascerá o dia em que teremos de nos sentar na mesma cadeira e negociar os traços de um futuro comum. Enquanto essa madrugada não vier, somos uma organização empresarial, em contínua gestão administrativa, paralisada pela falta de quórum. 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Amarras


As amarras que nos desenlaçam

Nós, os que temos sempre a palavra pronta; os que não acreditamos na dúvida; os que desconhecemos as cambiantes da indecisão; nós, os que não sabemos o que é a indiferença; os que aprendemos a dividir o mundo entre fortes e fracos; os que não suportamos a nossa autolamúria; os que vetamos à mofa as nossas angústias; os que descremos das dores que não se resolvam com analgésicos, podemos, um dia, distraídos com o processo de sobrevivência, sofrer os terrores noturnos de uma escolha e acordar num pântano de indecisão. Nós, os que não contávamos com o golpe de estado das nossas emoções, só daremos por ele diante da falência orgânica do corpo. 
Então, seguiremos as migalhas de angústia deixadas ao longo de um corredor estreito, faremos o percurso inverso e descobriremos, entre o terror, o espanto e a autodeceção, que o que nos está a matar é aquela indecisão que lá atrás ignorámos. Descobriremos, também, que, pura e simplesmente, não sabemos o que escolher.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Pó do deserto

A nostalgia que antecedeu a areia foi, afinal, as primeiras partículas de pó do deserto a instalarem-se na alma. 
O dia amanheceu longínquo e indistinto, com um sol mascarado de lua e o mundo à distância de um véu opaco que não nos deixa ver as próprias mãos. Há areia por todo o lado: debaixo das unhas, dentro das pálperas, imiscuída nas veias. Agora o dia cai sem que sequer dele se possa dizer que se chegou a erguer. Arrumo a corda de funambulista onde dancei durante as últimas horas e dela sacudo o deserto. 
O nosso equilíbrio é tão precário que basta um grão de pó de areia para nos precipitar na queda livre do abismo que nos aprisiona. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Trama

Para que o horror seja perfeito, César, acossado ao pé de uma estátua pelos impacientes punhais dos seus amigos, descobre entre as caras e as lâminas a de Marco Júnio Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e deixa de se defender, exclamando: «Também tu, meu filho!» Shakespeare e Quevedo recolhem o patético grito.
Ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias: dezanove séculos depois, no Sul da província de Buenos Aires, um gaúcho é agredido por outros gaúchos e, ao cair, reconhece um afilhado seu e diz-lhe com mansa reconvenção e lenta surpresa (estás palavras têm de ser ouvidas, não lidas): «Pero, che!» Matam-no e não sabe que morre para que se repita uma cena.

Jorge Luis Borges, Obras Completas, II, O fazedor.

With all my love


Ilimitadamente

Há um verso de Borges que me colonizou a memória,
Há uma praça longínqua que percorro todas as noites,
Há um retrato meu que não voltarei a ver,
Há uma porta que manterei aberta até ao último dos dias,
E entre as músicas que tocaram na minha sala, há uma que não voltarei a ouvir.
Já perdi a conta às madrugadas,
A vida usa-me, inclemente.

Em resposta ao poema de Borges, Limites, O Fazedor, Obras Completas, II, Teorema, pg. 225

Lições da montanha

Tentou, sem nunca suceder, ensinar-me a felicidade. Revi a lição em cada um dos ocasos a que assisti, sozinha, sentada no cume da montanha. E nessa última tarde em que a baía foi encolhendo até se transformar numa noz que me coube na palma da mão fechada. Depois disso, desisti de aprender e, com o tempo, sobreveio o alívio do esquecimento. 
Uma manhã de febre, enquanto contemplava a palma da mão vazia na penumbra do quarto, resolvi a equação:
A felicidade dele era a felicidade dos imbecis e de alguns animais. A que apenas é possível nas criaturas que só têm existência metafísica no instante presente. Desprovidas da agonia do ontem ou da angústia do amanhã. 
É o tipo de felicidade que deliberadamente queremos desaprender.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Flores

Não me lembro, já, de ter a cabeça cheia de flores. Às vezes colho-as, da beira da estrada, das jarras dos outros ou de uma campa bem enfeitada. Trago-as comigo e construo grinaldas, fazendo-as passar pelo fio de prata oferecido pelo velho mago que me aprisionou a esta caixa de música. Dispo-me, coloco as grinaldas de flores sobre os cabelos e danço descalça até que a aurora venha deitar-me. Mas é tudo inútil. Acordarei sem uma única pétala dentro da cabeça e com quilómetros de areia estéril diante do olhar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Siri

- Are you a Robot?
- "Let's just say i'm made of silicon, memory and the courage of my convictions".