sábado, 25 de fevereiro de 2017

Amarras


As amarras que nos desenlaçam

Nós, os que temos sempre a palavra pronta; os que não acreditamos na dúvida; os que desconhecemos as cambiantes da indecisão; nós, os que não sabemos o que é a indiferença; os que aprendemos a dividir o mundo entre fortes e fracos; os que não suportamos a nossa autolamúria; os que vetamos à mofa as nossas angústias; os que descremos das dores que não se resolvam com analgésicos, podemos, um dia, distraídos com o processo de sobrevivência, sofrer os terrores noturnos de uma escolha e acordar num pântano de indecisão. Nós, os que não contávamos com o golpe de estado das nossas emoções, só daremos por ele diante da falência orgânica do corpo. 
Então, seguiremos as migalhas de angústia deixadas ao longo de um corredor estreito, faremos o percurso inverso e descobriremos, entre o terror, o espanto e a autodeceção, que o que nos está a matar é aquela indecisão que lá atrás ignorámos. Descobriremos, também, que, pura e simplesmente, não sabemos o que escolher.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Pó do deserto

A nostalgia que antecedeu a areia foi, afinal, as primeiras partículas de pó do deserto a instalarem-se na alma. 
O dia amanheceu longínquo e indistinto, com um sol mascarado de lua e o mundo à distância de um véu opaco que não nos deixa ver as próprias mãos. Há areia por todo o lado: debaixo das unhas, dentro das pálperas, imiscuída nas veias. Agora o dia cai sem que sequer dele se possa dizer que se chegou a erguer. Arrumo a corda de funambulista onde dancei durante as últimas horas e dela sacudo o deserto. 
O nosso equilíbrio é tão precário que basta um grão de pó de areia para nos precipitar na queda livre do abismo que nos aprisiona. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Trama

Para que o horror seja perfeito, César, acossado ao pé de uma estátua pelos impacientes punhais dos seus amigos, descobre entre as caras e as lâminas a de Marco Júnio Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e deixa de se defender, exclamando: «Também tu, meu filho!» Shakespeare e Quevedo recolhem o patético grito.
Ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias: dezanove séculos depois, no Sul da província de Buenos Aires, um gaúcho é agredido por outros gaúchos e, ao cair, reconhece um afilhado seu e diz-lhe com mansa reconvenção e lenta surpresa (estás palavras têm de ser ouvidas, não lidas): «Pero, che!» Matam-no e não sabe que morre para que se repita uma cena.

Jorge Luis Borges, Obras Completas, II, O fazedor.

With all my love


Ilimitadamente

Há um verso de Borges que me colonizou a memória,
Há uma praça longínqua que percorro todas as noites,
Há um retrato meu que não voltarei a ver,
Há uma porta que manterei aberta até ao último dos dias,
E entre as músicas que tocaram na minha sala, há uma que não voltarei a ouvir.
Já perdi a conta às madrugadas,
A vida usa-me, inclemente.

Em resposta ao poema de Borges, Limites, O Fazedor, Obras Completas, II, Teorema, pg. 225

Lições da montanha

Tentou, sem nunca suceder, ensinar-me a felicidade. Revi a lição em cada um dos ocasos a que assisti, sozinha, sentada no cume da montanha. E nessa última tarde em que a baía foi encolhendo até se transformar numa noz que me coube na palma da mão fechada. Depois disso, desisti de aprender e, com o tempo, sobreveio o alívio do esquecimento. 
Uma manhã de febre, enquanto contemplava a palma da mão vazia na penumbra do quarto, resolvi a equação:
A felicidade dele era a felicidade dos imbecis e de alguns animais. A que apenas é possível nas criaturas que só têm existência metafísica no instante presente. Desprovidas da agonia do ontem ou da angústia do amanhã. 
É o tipo de felicidade que deliberadamente queremos desaprender.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Flores

Não me lembro, já, de ter a cabeça cheia de flores. Às vezes colho-as, da beira da estrada, das jarras dos outros ou de uma campa bem enfeitada. Trago-as comigo e construo grinaldas, fazendo-as passar pelo fio de prata oferecido pelo velho mago que me aprisionou a esta caixa de música. Dispo-me, coloco as grinaldas de flores sobre os cabelos e danço descalça até que a aurora venha deitar-me. Mas é tudo inútil. Acordarei sem uma única pétala dentro da cabeça e com quilómetros de areia estéril diante do olhar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Siri

- Are you a Robot?
- "Let's just say i'm made of silicon, memory and the courage of my convictions".

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Casa-na-árvore

Porque haverias de construir essa sólida casa na árvore; limpar a floresta de tragédias e dores; rodeá-la de muros de mármore do chão até às nuvens; ser o afincado porteiro do mal; forçar-me a crescer na assética atmosfera da felicidade fabril; porque haverias de construir essa sólida casa na árvore se estava escrito que, um dia, acabarias por atear fogo à floresta, trancar os portões e partir? 

Naufrágios

Navegámos 
uma noite escura 
de faróis cegos.
A realidade é escarpa 
assassina 
que se esconde
atrás da sétima onda; 
– A maior.
Naufragámos o medo. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O amor tem as unhas dos pés sujas



Eurídice, a quem não salvou a incompetência de Orfeu; Orfeu, que não se salvou nem com a clemência de Hades; Inês, morta pelo amor de Pedro; Layla, assassinada de desgosto às mãos do louco Majnun; Sherazade, vítima de violência doméstica de Shariar; Ofélia, afogada pelo desprezo de Hamlet; Teresa e Mariana, que se perderam por Simão; Romeu, tombado por Julieta e Julieta, vítima do equívoco de Romeu; Anna Karenine, que por Vronsky ofereceu o pescoço ao peso do comboio; Medeia, a quem o abandono de Jasão transformou em assassina; Madame Butterfly, forçada ao haraquiri depois de ter sido atraiçoada por um americano da marinha cuja indignidade é condenada com o constante olvido do seu nome; Páris, duas gerações de guerreiros destruídos por uma rameira chamada Helena.
Em cima: Eros, de Caravaggio, onde se comprova, como se a literatura não nos ensinasse quanto baste, que são sujas as unhas do pés do amor.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Serviço Público

Frederico Lourenço traduziu a Odisseia de Homero para a Cotovia. E traduziu-a de uma forma tão divina que qualquer pessoa que consiga perceber a bula da aspirina poderá compreender e, pasme-se, divertir-se, com a leitura da Odisseia. Nós, plural majestático destinado a acentuar o snobismo intelectual de que nunca seremos demasias vezes injustamente acusadas, suspendemos por escassos segundos o habitual revirar de olhos diante do cheiro que antecede a expressão "democratização da cultura" e recomendamos, sem medos, a leitura. 

P.s. Só nos responsabilizamos até ao primeiro terço.
P.s.1 metade.

O lamento de Calipso

Estremeceu Calipso, divina entre as deusas.
E falando dirigiu-lhe palavras apetrechadas de asas:
"Sois cruéis, ó deuses, e os mais invejosos de todos!
Vós que às deusas levais a mal que com homens mortais 
partilhem o leito, quando algum a escolhe por amante! (...)
E assim sucede agora comigo: sentis rancor, ó deuses,
porque me deito com um homem mortal.
Mas fui eu que o salvei, quando ele aqui chegou sozinho,
montado numa quilha, pois Zeus estilhaçara a nau
com um relâmpago candente no meio do mar cor de vinho.
Tinham perecido todos os outros valentes companheiros;
mas ele foi para aqui trazido pelas ondas e pelo vento.
Amei e alimentei Ulisses: prometi-lhe que o faria imortal
e que ele viveria todos os seus dias isento de velhice.
Mas não é possível a outro deus ultrapassar ou frustrar 
o pensamento de Zeus, detentor da égide.
Que Ulisses parta —se é isso que Zeus quer e exige — 
pelo mar nunca vindimado. Mas não serei eu a dar-lhe transporte: não tenho naus providas de remos nem tripulação 
que o possa levar sobre o vasto dorso do mar. 
Mas de boa vontade dar-lhe-ei conselhos: nada ocultarei para que inteiramente ileso ele regresse à terra pátria.

Canto V, Odisseia, Homero, Cotovia

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A chuva de ontem

Chove e chove e chove. O cão cola-se às vidraças entre o tédio da nova cortina de intermitentes fios prateados que passou a haver do lado exterior e a inveja conformada das gaivotas que se vieram abrigar na varanda. 
A manhã, a tarde e a noite, o dia de hoje e o de ontem, têm todos a mesma indestrinçável cor opaca.
Não vejo um único ser humano há demasiadas horas. Saio para as ruas que estão aguadas e desertas.
Compro um peixe e um livro de Vinicius de Moraes. 
No regresso, o cão continua sentado a ver cair a chuva de ontem. 

Ecos

Não nasci pirata. Antes disso, veio o dia em que estendi os meus bens sobre as pedras do pátio circular e usando todos os livros técnicos como combustível deitei-lhes o fogo para me aquecer nas chamas.
Uma vez por outra, o meu passado burguês cruza-se comigo. Quase sempre nas páginas amarelecidas dos jornais de há muitos meses que as pessoas deixam largados nos portos. É assim, involuntariamente e com significativo atraso, que vou tomando conhecimento  da morte de uns e da vida dos outros. São ecos longínquos das notas de uma gasta canção que se sabe de cor. Ouço-os como se estas pessoas, que conheci por dentro, fossem enjoativas personagens de uma peça de Ibsen.

Não tenho nenhuma saudade do vasto espólio que incinerei. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Morfina

Aqui deitada, enquanto finjo ignorar a dor que se veio instalar no fundo das costas, ocorre-me que o fingimento é, na sua potencialidade aditiva, a morfina das dores da alma. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Breve memorando de inutilidades quotidianas

Acordei trinta segundos antes do despertador. Aluguei o cérebro durante as horas da manhã. Não me lembro o que sucedeu depois do almoço. Ouvi mentiras durante a segunda metade da tarde. Cortei no papel o terço médio do indicador. No regresso a casa Joe Dassin perguntou-me por que existiria se eu não existisse, pá. Comi sem culpa meio pacote de bolinhos de areia. 
Detesto os dias em que a poesia não me encontra. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Como gesto de boa vontade

Aceito partilhar a guarda da Milu...

Profecias

Haveria de se cumprir a Nitzscheana profecia do enlouquecimento do assassino de deus. 
Nasci uma vez mais, numa manhã de inverno, nas areias desertas de uma maré maior do que as outras. Nua e adulta. É a única forma digna de se nascer. Vi as nuvens. Ouvi a música. Conheci o cheiro das rochas. Aprendi as letras e descobri as estórias. Tudo, com o espanto da primeira vez. 
Não tenho memória mais antiga do que esse suave desadormecer por entre limos, conchas vazias de búzios e areia molhada. A linguagem das gaivotas é a minha pátria e do amor sei apenas o que dele se quis contar nos livros.
Porém, aos domingos, instala-se no fundo das costelas o peso de tudo aquilo que não recordo. E ainda esta terrível  compulsão para depositar num altar vazio as flores dos cardos que me enfeitam os cabelos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Onde deixei o Natal

Eu e o meu cão dormimos uma sesta mansa à chegada a casa. Os restos do Natal ainda pelos cantos da sala e as minhas Mil e Uma Noites, que tanta falta me fizeram, a servirem-nos de almofada. 
Lá fora, há a noite precoce e uma triste ameaça de chuva que se cola aos ossos. As vozes cansadas das pessoas que passam por baixo das minhas janelas tomaram o lugar dos gritos das gaivotas.
A casa voltou a acusar-me e às vezes penso que é pelo crime de abandono que me castiga o sono. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Oásis

Das areias vermelhas do deserto longínquo chegou-me a música que precisava para a tarde. Os amigos têm no coração a sabedoria ancestral das pedras, do rumor do vento nas copas das árvores, das penas que os pássaros deixam cair à nossa passagem. Os amigos sempre sentem e sabem aquilo que precisamos que sintam e conheçam.
Mesmo, e creio que sobretudo, quando são vastos e variados os oceanos que nos separam o sangue. 
Retribuo a areia do deserto que faltava, entregando o mar que me sobra. 


Milu

Foi quando me preparava para a mandar enfiar numa caixa de sapatos e remeter à dona que reparei nas semelhanças que existem entre mim e essa aranha que dá pelo nome Milu e veio de um blog chamado o fogo não queima a faca ou qualquer coisa assim com utensílios de cozinha.  Essa alma partilha do meu fascínio por me pendurar em coisas e ficar lá a balouçar-me em silêncio, até que me doam os pés ou o telemóvel toque, o que vier primeiro, com a vantagem que, enquanto eu tenho de procurar um bom telhado ou varanda para o efeito e sujeitar-me à localização e vista disponíveis, Milu constrói o seu próprio balouço onde bem lhe aprouver. 
A pequena aranha, na sua habilidade de ficar imóvel à espera da presa que há de cair na sua teia, manifesta uma inata vocação para a pirataria que, até agora, tem andado a ser desperdiçada em blogues sobre facas de cozinha, onde leva uma vida desgraçada a ouvir versos de poetas que estão para a poesia como, nos anos oitenta do século passado, o Vasco Granja esteve para os desenhos animados. 
Esta simpática criatura, enquanto foi refém no meu navio, entreteve-se a bordar uma laboriosa teia sobre a minha cama que suplanta em maravilha e eficiência qualquer rede mosquiteira. 
Entretanto, conquistou o coração de Andhriminir, o cozinheiro Viking, e tornaram-se de tal forma inseparáveis que Milu passou a viver nas melenas ruivas e compridas do viking, onde está, para todo o sempre, a salvo de qualquer gota de água.
Milu, a aranha Pirata, que recolhi à porta de um blog sobre facas, numa altura em que esteve encerrado sob ameaça de falência, sofreu um upgrade no seu estatuto de refém e é agora o mais recente membro desta intrépida tripulação que, estou certa, tudo fará para a manter entre nós.

(Ao que acresce que ainda este ano não tinha roubado nada às pessoas dos blogs. Assim que me lembre, pelo menos.)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Cuca também escreve sobre isso de morrer de amor

É um inútil dispêndio de energia. 
Mais inteligente seria matar o amor.
Eros, esse inimputável perigoso, merece viver aprisionado numa cave recôndita, na companhia das traças e dos corvos, que são o reverso das borboletas e das pombas (já de si criaturas que me inspiram pouca confiança, lacaios de palhaços pobres e mágicos de província) 

sábado, 28 de janeiro de 2017

Epitáfio

E também aquilo que não vivi, pertence-me inteiramente. 

On repeat

Bastaram três minutos.
É como se o mundo tivesse parado naquela noite de março. Esqueci-me do dia e do ano. Um grão de areia de contornos irregulares parou o mecanismo da ampulheta e é inútil medir o tempo que teria corrido se algum tempo ainda corresse. 
É sempre a mesma mulher negra, no palco, a cantar a mesma música. O mesmo copo de gin esquecido na mesa redonda coberta por uma toalha de pano verde. Cinco dedos. O teu olhar preso nos meus lábios. As pessoas a desvanecerem-se pelos cantos da sala. O som da voz da cantora a diminuir lentamente. Foi assim que soube.
Bastaram três minutos. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O pescador

Vesti a camisa de dormir branca, comprida, de louca, e segui, descalça, por dentro da chuva, até à praia. A lua não veio e o mar engoliu toda a areia. Aninhei-me na escuridão da última rocha, de costas voltadas para as luzes da cidade e pensei que ali, finalmente, poderia dormir.
Mas o velho pescador veio roubar-me o sono, tocando-me no ombro e recitando a sua oração de conjuro de fantasmas.
Amanhã, bem sei, acordarei na minha cama. Limos  enrolados nos fios de cabelo. Areia entre os dedos dos pés feridos. Unhas gastas pelo esforço de me manter presa a esta rocha. 
Hoje, só quero adormecer de olhos postos na noite funda que pertence ao mar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

À atenção da Flor

Era uma vez uma aranha que vivia feliz dentro de um blogue. Aranhava de manhã à noite num canto escuro, balouçando-se na sua antiga teia. 
Num dia igual aos outros, mas mais frio, a autora do blog onde vivia, decidiu partir de férias para parte incerta, fechando o blog e condenando a pobre aranha a uma cruel existência de sem-abrigo. A aranha aranhou perdida por campos e asfaltos, largada à inclemência do frio e da chuva... 



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Basalto negro



Ocasionalmente, quando é sexta-feira, ou quando os níveis de humidade estão elevados, ou acontece a faixa 11 ser a melhor de um álbum, ou uma gaivota atravessar a estrada na passadeira, ou o arco-íris ser duplo, ou acordar de noite com a zanga do vento e não saber onde estou, ou ouvir muito ao longe os sinos de uma igreja, ocasionalmente, mesmo quando ainda não é seja sexta-feira, abro as veias e, do sangue, depuro os resíduos do basalto.
Tenho, aos pés da cama, uma taça de prata cheia de basalto negro. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Escapar da mente


Ligeiras nuances de significância

A felicidade não sei o que seja. Tenho perante o conceito a mesma reação emocional que me provocam as pessoas difíceis: um profundo desinteresse.
Já a alegria, essa, disponível, tangível, colorida, ali a chamar por nós, é estado que me parece muito conservável.
A alegria é um rafeiro que, à mínima interação, corre na nossa direção, a abanar a cauda. Encontro-a nos sítios mais insuspeitos, como as gargalhadas dos outros; um poema de Pavese; dentro de uma frase de Borges; a fotografia de um sítio que nunca vi; um desenho a carvão; uma decente tarte de maçã com gelado de baunilha, ou o formato de uma nuvem.
Este final de tarde, encontrei-a, dentro do piano, enquanto me esforçava por aprender esta música:


sábado, 21 de janeiro de 2017

Diário de Bordo

A tripulação reuniu-se no convés para o motim anual e, por respeito à revolução, retirei-me para os meus aposentos. Trouxe comigo a bíblia, não por razões de fé, que é semente que não medra neste tipo de solo, mas por ter muitas páginas e não saber quanto tempo terei de ficar aqui enclausurada, fingindo ignorar um pequeno motim com vista à minha destituição. 
O exercício do poder faz-se de subtilezas e ignorar as transgressões é infinitamente menos trabalhoso e pelo menos tão inútil como puni-las. 
Uma vez por ano esta intrépida tripulação Pirata rebela-se contra mim. O pretexto é irrelevante. Tanto pode ser um assalto mal sucedido, como a fraca qualidade de um barril de rum, a desastrosa ementa de Andrhiminiir, o cozinheiro viking, ou mesmo o inexplicável e injustíssimo facto de já não conseguirem suportar os meus estudos de piano. Disse-me o papagaio Polly que, desta vez, foi o piano.
- noturnos, noturnos, noturnos. Grunhiu.
- bem, se é só isso diga-lhes que posso tocar apenas de dia.
- os de Chopin! Chopin! Chopin! 

O método tem poucas variantes: durante dois dias seguidos andam pelo navio a soltar imprecações contra a minha pessoa e a dizer alto frases como "isto tem de mudar"; "assim não pode ser", "ai se nós mandássemos" e por aí em diante. Ao terceiro dia abandonam as suas rotineiras atividade ociosas, anunciando que deixaram de trabalhar, munem-se de umas bandeirinhas negras que agitam nas minhas costas enquanto gritam, quando pensam que já os não ouço, "liberdade ou morte", "o povo unido jamais será vencido" e "há sol e há lua, capitã cuca para a rua". 
Por fim, há sempre um deles que tem a inovadora ideia de organizar um comício clandestino. Juntam-se num canto do convés e fazem uma coisa semelhante ao que julgo ser uma reunião dos alcoólicos anónimos (mas em que servem muito rum) levantando-se à vez e dizendo mal de mim. É bonito de se ver já que é a única ocasião em que se comportam de forma ordeira e entre todos reina a concórdia e a harmonia.
No final da reunião, depois de muitas palmas e grandoladas decidem destituir-me do poder. É nessa altura que é conveniente fazer a minha aparição. 
Não há revolução que resista à pergunta: 
"O que é que se está aqui a passar?"





Um resto de frio

Deitada no cesto da gávea estendo a mão para colher um resto de frio. Fecho-a para que não se escape por entre os dedos. Guardo-o, com cuidado, dentro de um dos bolsos do vestido. É um frio bom. Do azul infinito que antecede as estrelas. Da leveza da caxemira enrolada ao pescoço. Do cheiro do lume nas lareiras. Deitada no cesto da gávea antecipo o calor dos telhados de Lisboa. E guardo, para então, este resto de frio azul.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Inocência

Cuidámos, durante um minuto, que seria possível, apesar do mundo. Nunca é possível quando se trata de sê-lo apesar do mundo. Descobrimo-lo um minuto depois. Mas durante sessenta segundos cósmicos fomos os deuses de um Olimpo esquecido; Adão e Eva antes do Éden; aves, ou anjos, de asas abertas no azul do céu de um domingo de verão. 
E um único minuto contado do cimo do mundo, digo-vos, é quanto basta para validar uma vida inteira. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Pactos

No mercado das almas não encontro diabo que ofereça preço pela minha. Vale pouco, bem sei. É uma alma negligenciada pela sua proprietária. Trato todos os meus bens, sem distinção, de acordo com o princípio de que a sua existência se justifica pelo serviço que me prestam. Poderia ter investido na minha alma; mandá-la estudar espiritualidade para um colégio privado na Europa desenvolvida ou, pelo menos, financiar-lhe uma pós graduação em teoria da teologia. Ao invés, à falta de qualquer préstimo imediato, deixei-a por sua conta e risco na divisão menos frequentada da casa. Cresceu desregrada e voluntariosa, esquiva às visitas, desobediente, despenteada e deseducada. Arrastei-a a custo por todas as casas onde vivi. Por vezes, chegou depois de mim, demorando-se onde não a quis deixar. Suponho que em tempos haja sido uma alma de bom trato, mas não posso jurá-lo pois essa memória não me foi concedida. 
A minha alma estorva-me tanto como os caixotes cheios de tralha inútil que carrego atrás de mim pela vida fora. 
A solução evidente é desfazer-me dela prescindindo do lucro e preservando-me do prejuízo. 
Enganar um diabo que a faça sua. Estabelecer um pacto sem cláusula de reversão. 
Em suma, ver-me livre dela. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Boleros de sábado à tarde


Black Moon

No instante em que sintonizei a rádio, a voz masculina anunciou a lua negra. 
Foi o que restou: uma lua enlutada sobre a montanha; uma qualquer voz masculina. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Metáforas sobre o apego

Deixei em Lisboa, propositadamente, os meus maravilhosos seis volumes das Mil e Uma Noites. A separação era para ser breve, mas a realidade arranja sempre uma forma de me destruir os sonhos. Agora sofro com saudades deles. Abro e fecho outros livros, mas é-me impossível o apego a algum. Imagino-os, sozinhos e infelizes, no canto escuro onde os larguei. As livrarias estão cheias de livros igualmente bons e bem assim a estante, ali, ao alcance da minha mão esquerda. Mas qualquer hipotético prazer na leitura desses bons livros é imediatamente ensombrado pela consciência de que o contexto, injusto, faria deles fracos substitutos. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Depósitos

Esse conceito de tempo que, enquanto estamos a dormir ou distraídos no espaço em branco entre dois versos, nos rasga os forros dos bolsos dos casacos, desintegrou-te do meu acordar.
Não consegui cumprir a promessa de guardar o teu coração. O problema é que ele era demasiado etéreo e eu nunca sabia onde o tinha pousado. É possível que o tenha deixado na mesa de um restaurante, à saída de um jantar. Talvez até lá estivesses.
O meu, ainda não consegui perdê-lo. Pesa-me demasiado para que o largue, esquecido. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Morrer de falta de futilidade

Salva-nos, sobretudo, a futilidade. Aquele homem não teria morrido se tivesse sabido encher de futilidade cada uma das suas células. 
Salva-nos o feng shui das salas brancas, a induzir falsa pureza. A sensação que fica entre os dedos que passam na camisa de seda fina. O peso do ouro velho rente ao pescoço distraído. O design perfeito dos sapatos que vemos quando a tristeza nos faz olhar a ponta dos pés. Salvam-nos as tardes de sol em que nos deitamos na areia branca do ócio coletivo. Os ruidosos brindes à vida em mesas sorridentes. O som da boa música executada em espaços esmagados pelo peso da beleza. Uma história perfeita; uma metáfora nova; um quadro que nos traga azul. 
Salva-nos o processo de futilização. A disponibilidade da mente ao serviço da obtenção da pequena beleza. Aquela que, ao menos, sabemos existir e nos acena de perto com a sua redentora tangibilidade. 
Há pessoas que morrem de falta de futilidade. Sufocadas num poço profundo, escuro e demasiado feio para que até uma avenca escolha habitá-lo. E há outras que o mobilam com brilhos fazendo dele o mais bizarro dos lares. 

Espaços vazios

Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana, são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e subparticulas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas. A natureza enche chouriços, não há espaço vazio nas suas tripas. Um homem olha à sua volta e não encontra nada que não esteja já ocupado. Assim pensam os homens com a razão e a lógica que se passeia nos interstícios dos seus cérebros cinzentos, nessas dobras confusas que se assemelham a um intestino redondo ou a uma noz. Mas os homens que pensam com os sentimentos, têm outra lógica a nadar-lhes nas veias e artérias. Esses acreditam no vazio porque o vêem a toda a hora dentro de si. 

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, Alfaguara. 

Um verso

Ele disse: 
—"A noite é mais quente à luz do teu olhar".
Havia uma borboleta pousada no parapeito da varanda que se aproximou para ouvi-lo. Era laranja e castanha. Fotografei-a de asas estendidas. 
Mas foi apenas o verso de uma música. E a fotografia, revelada a preto a branco, exibe uma traça de asas assustadas.