quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Inocência

Cuidámos, durante um minuto, que seria possível, apesar do mundo. Nunca é possível quando se trata de sê-lo apesar do mundo. Descobrimo-lo um minuto depois. Mas durante sessenta segundos cósmicos fomos os deuses de um Olimpo esquecido; Adão e Eva antes do Éden; aves, ou anjos, de asas abertas no azul do céu de um domingo de verão. 
E um único minuto contado do cimo do mundo, digo-vos, é quanto basta para validar uma vida inteira. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Pactos

No mercado das almas não encontro diabo que ofereça preço pela minha. Vale pouco, bem sei. É uma alma negligenciada pela sua proprietária. Trato todos os meus bens, sem distinção, de acordo com o princípio de que a sua existência se justifica pelo serviço que me prestam. Poderia ter investido na minha alma; mandá-la estudar espiritualidade para um colégio privado na Europa desenvolvida ou, pelo menos, financiar-lhe uma pós graduação em teoria da teologia. Ao invés, à falta de qualquer préstimo imediato, deixei-a por sua conta e risco na divisão menos frequentada da casa. Cresceu desregrada e voluntariosa, esquiva às visitas, desobediente, despenteada e deseducada. Arrastei-a a custo por todas as casas onde vivi. Por vezes, chegou depois de mim, demorando-se onde não a quis deixar. Suponho que em tempos haja sido uma alma de bom trato, mas não posso jurá-lo pois essa memória não me foi concedida. 
A minha alma estorva-me tanto como os caixotes cheios de tralha inútil que carrego atrás de mim pela vida fora. 
A solução evidente é desfazer-me dela prescindindo do lucro e preservando-me do prejuízo. 
Enganar um diabo que a faça sua. Estabelecer um pacto sem cláusula de reversão. 
Em suma, ver-me livre dela. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Boleros de sábado à tarde


Black Moon

No instante em que sintonizei a rádio, a voz masculina anunciou a lua negra. 
Foi o que restou: uma lua enlutada sobre a montanha; uma qualquer voz masculina. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Metáforas sobre o apego

Deixei em Lisboa, propositadamente, os meus maravilhosos seis volumes das Mil e Uma Noites. A separação era para ser breve, mas a realidade arranja sempre uma forma de me destruir os sonhos. Agora sofro com saudades deles. Abro e fecho outros livros, mas é-me impossível o apego a algum. Imagino-os, sozinhos e infelizes, no canto escuro onde os larguei. As livrarias estão cheias de livros igualmente bons e bem assim a estante, ali, ao alcance da minha mão esquerda. Mas qualquer hipotético prazer na leitura desses bons livros é imediatamente ensombrado pela consciência de que o contexto, injusto, faria deles fracos substitutos. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Depósitos

Esse conceito de tempo que, enquanto estamos a dormir ou distraídos no espaço em branco entre dois versos, nos rasga os forros dos bolsos dos casacos, desintegrou-te do meu acordar.
Não consegui cumprir a promessa de guardar o teu coração. O problema é que ele era demasiado etéreo e eu nunca sabia onde o tinha pousado. É possível que o tenha deixado na mesa de um restaurante, à saída de um jantar. Talvez até lá estivesses.
O meu, ainda não consegui perdê-lo. Pesa-me demasiado para que o largue, esquecido. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Morrer de falta de futilidade

Salva-nos, sobretudo, a futilidade. Aquele homem não teria morrido se tivesse sabido encher de futilidade cada uma das suas células. 
Salva-nos o feng shui das salas brancas, a induzir falsa pureza. A sensação que fica entre os dedos que passam na camisa de seda fina. O peso do ouro velho rente ao pescoço distraído. O design perfeito dos sapatos que vemos quando a tristeza nos faz olhar a ponta dos pés. Salvam-nos as tardes de sol em que nos deitamos na areia branca do ócio coletivo. Os ruidosos brindes à vida em mesas sorridentes. O som da boa música executada em espaços esmagados pelo peso da beleza. Uma história perfeita; uma metáfora nova; um quadro que nos traga azul. 
Salva-nos o processo de futilização. A disponibilidade da mente ao serviço da obtenção da pequena beleza. Aquela que, ao menos, sabemos existir e nos acena de perto com a sua redentora tangibilidade. 
Há pessoas que morrem de falta de futilidade. Sufocadas num poço profundo, escuro e demasiado feio para que até uma avenca escolha habitá-lo. E há outras que o mobilam com brilhos fazendo dele o mais bizarro dos lares. 

Espaços vazios

Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana, são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e subparticulas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas. A natureza enche chouriços, não há espaço vazio nas suas tripas. Um homem olha à sua volta e não encontra nada que não esteja já ocupado. Assim pensam os homens com a razão e a lógica que se passeia nos interstícios dos seus cérebros cinzentos, nessas dobras confusas que se assemelham a um intestino redondo ou a uma noz. Mas os homens que pensam com os sentimentos, têm outra lógica a nadar-lhes nas veias e artérias. Esses acreditam no vazio porque o vêem a toda a hora dentro de si. 

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, Alfaguara. 

Um verso

Ele disse: 
—"A noite é mais quente à luz do teu olhar".
Havia uma borboleta pousada no parapeito da varanda que se aproximou para ouvi-lo. Era laranja e castanha. Fotografei-a de asas estendidas. 
Mas foi apenas o verso de uma música. E a fotografia, revelada a preto a branco, exibe uma traça de asas assustadas. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Corte de energia

Uma noite, falhou a luz e a sala ficou subitamente escura e silenciosa. Quedaram-se no sofá, envoltos em escuridão, silêncio e consciência do outro. E uma hora depois, quando a luz foi reposta, era já demasiado tarde. Tinham-se, entretanto, olhado de uma forma como nunca antes se haviam visto. 

Quando uma manhã

Quando finalmente chega o dia pelo qual tanto esperaste e numa manhã igual a todas as outras olhas para a pessoa que o espelho te mostra e só vês a pessoa que o espelho te mostra e depois sais para a rua e o céu é azul e cinzento e só vês aquilo que o céu é e entras no carro e ouves uma música mas só ouves as notas de que a música é feita e chegas ao destino e ligas-te à terra e recebes palavras que foram escritas para ti mas só lês as palavras que lá estão escritas, quando finalmente chega o dia pelo qual tanto esperaste e acordas numa manhã igual a todas as outras e vês o mundo da janela que fica fora de ti e sabes que àquela hora há alguém que navega dentro de um barco que é apenas alguém que navega dentro de um barco e tem o rosto tisnado pelo sol e rugas nos olhos pousados num qualquer pensamento comezinho e não é melhor nem pior nem diferente de todas as outras pessoas, quando finalmente acordas no dia pelo qual tanto esperaste e vês e ouves o que há para ver e ouvir, dizia, percebes que te fizeste livre.
Então, sentirás, por um breve mas inesquecível instante, a infinita tristeza do eco nihilista; a sombra escura do profundo desapego; o coração conservado em vácuo esterilizado. Em suma, o acre sabor da mais pura liberdade. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Ensinamentos póstumos

A morte é a melhor lição de vida:
Ensina-nos a não deixar nada por fazer.

1826 dias


ACIDENTE I 
(helderiana virulenta)     

eu às vezes apetece-me que vocês sejam felizes hoje, 
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto, 
rebentando nas asas. 
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer 
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar. 
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados 
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos 
todas a dar olhos. 
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre. 
E quando sou eterno, comendo folhas sentado. 
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos 
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente 
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo 
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e 
tremendo. 

Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes 
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe, 
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos, 
dizes, 
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto. 
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força. 
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado 
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora. 
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras. 
Neste extremo lugar dos homens, 
                                                            coroado de tudo.

Rui Costa, In As Limitações do Amor são Infinitas- Sombra do Amor - Edições


J C, esse sádico

Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o e atira-o para longe de ti. Pois é-te benéfico que pereça um dos teus membros e que não seja o teu corpo inteiro atirado para a geena. E se a tua mão direita te escandaliza, corta-a e atira-a para longe de ti. Pois é-te benéfico que pereça um dos teus membros e que não vá o teu corpo inteiro para a geena.

O Sermão na Montanha, Evangelho Segundo Mateus, Bíblia, Volume I, tradução de Frederico Lourenço. 

Dos canhotos, presumo, é o reino dos céus.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Feliz 2018

O Manel Mau-Tempo roubou, só para ele, 365 dias.

Da ordem das coisas

Entre as três e as cinco da manhã partilhamos o exíguo espaço de um pesadelo revisto. Sempre que me deixo deslizar para a beira da cama caio no precipício de uma praia, velha conhecida. Nada mudou no banco de madeira que plantaram em frente ao mar, promontório de gaivotas aterradas. Ainda lá está a farpa que enterrei no dedo anelar direito. Posso senti-la quando escondo as mãos debaixo das pernas, como me disseram  que fazem as pessoas ansiosas. Esperamos um por do sol que já veio, sentados, lado a lado, com o olhar fixo na linha do horizonte que, a esta hora, é uma lâmina prateada a oscilar ao ritmo do vento norte. 
Tenho a vida suspensa pela desesperança que digas uma frase capaz de mudar a minha vida. Ouço o mar, o vento, os gritos das gaivotas, vejo a areia que dança em nosso redor, a sombra de um barco lá muito longe, a tua expressão de enigmática felicidade e, como sempre, a tua boca pronunciando palavras que não consigo ouvir. 
Mas depois, no pesadelo, passo o polegar pelo anelar e sinto a cicatriz de uma farpa que já o habitou e dele já foi extraída e percebo que aquele banco, aquela praia, aquela espera, pertencem a uma dimensão que já se fechou. 
E então reposiciono-me no colchão, no sentido do centro, e tu desvaneces-te no caminho do mar e é noite escura, sem lua nem estrelas, e é a minha cama, esterilizada de areia e de sal. 
E, assim, regressada, lembro-me que não há frase que te coubesse capaz de mudar a minha vida. 

Urgências

Há um silêncio que circula nas veias, que se concentra na garganta, que se faz ouvir por trás dos olhos. 
É um silêncio que só pode ser quebrado pela poesia. Uma nuvem inesperada sobre um azul matutino, a sombra de uma mão projetada na parede da sala, o vermelho de uma papoila extemporânea, o desenho da linha perfeita das costas de uma bailarina, ou, até, um verso. Qualquer forma de poesia. Tanto faz. 
É um silêncio que pesa dentro dos ossos, que queima as palmas das mãos, que escurece o olhar. Um silêncio que é urgente quebrar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Cópia de segurança

Há pessoas que fazem cópia de segurança do amor, reinstalando-o num aparelho novo após falha técnica do antigo. 
Outras, menos eficientes, perdem todos dados e nunca mais conseguem encontrá-los.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Ano novo

Ainda os restos do peru jazem em caixas no frigorífico e as luzinhas não se começaram a fundir já o blogger desinspirado se debate com a angústia das listagens de resoluções de ano novo.  E mesmo que o pudor que nos controlou a língua lá pelo Natal não nos impeça agora de declarar oficialmente o nosso ódio absoluto pelos imbecis festejos da passagem de ano, não há como evitar o malfadado tema das listagens ou dos balanços. Por aqui, este ano, decidimos entregar-nos de alma e coração a tudo quando é cliché da época. 
Dispensamos o balanço para não deprimir o leitor e nos desobrigamos da apresentação à insolvência emocional. 
Aqui ficam as resoluções, por ordem de relevância:
- Fechar a boca durante o tempo necessário para perder os três quilos que  me ofereceram pelo Natal;
- Reler as Mil e Uma Noites;
- Ler a bíblia (resolução reincidente de vários natais passados); 
- Começar a correr (resolução fantasiosa em que nem sequer nós próprios conseguimos acreditar); 
- Fotografar mais e melhor;
- Começar a aprender a teatro; 
- Voltar a escrever peças de teatro; 
- Aprender o Claire de Lune no Piano, ainda que em versão aldrabada para iniciados;
- Trabalhar ainda menos (resolução indispensável à realização de qualquer uma das anteriores com exceção da primeira); 
- Conhecer a Escócia;
- Passar a fumar cinco cigarros por dia (resolução de nível de irrealidade equiparado àquela de começar a correr);
- Irritar-me ainda menos do que já me irritei este ano (o que, creio, fará de mim uma criatura para-budista); 
- Sobreviver.

Comunicações intergaláticas

Por aqui morre-se aos magotes nos últimos dias. Deve haver filas, à chegada, lá por essoutra dimensão onde te foste meter. Talvez a sobrelotação faça com que te alojem com o Cohen ou com o George Michael. Poderás tocar com eles. É quase cómico imaginar-te sentado no chão das nuvens, olhar concentrado nas cordas da guitarra, ligeiro abanar na cabeça, sorriso a disfarçar a irritação pela nota falhada. "Os desafinados também têm coração". Sempre achei que tocavas pessimamente. Não me lembro se to disse. Espero tê-lo feito. Devo tê-lo feito. Na época ainda tinha prontidão em reconhecer as falhas dos outros e a presunção de um resto de objetividade. Hoje em dia maravilho-me com qualquer raio que ilumine o negrume ao fundo. Até a tua hipotética carreira póstuma de letrista de pop stars falecidas é coisa capaz de me enternecer.
Entretanto, está prestes a escoar-se outro ano. 
O mundo não ficou melhor nem pior, antes prosseguiu indiferente. Nós, os criadores dos deuses, continuamos exatamente iguais ao que éramos. Movemo-nos empurrados pelo tédio de dias que, em média, têm demasiadas horas. Inventamos missões para justificar a nós próprios o mistério da resiliência. Somos Atlas de dimensões liliputianas.
Posso apenas esperar que o além não seja construído à semelhança do aquém: — Esta infinita sucessão de desencontros. 
E se for, que te dêem Möet e que lhes pagues em poesia. 
Escreve-a nas nuvens. 
Saberei encontrá-la. 

O Rei Verde

O rei verde nasceu muito pobre. Cresceu e quis tomar o mundo. Desceu às franjas da terra e daí várias vezes se reergueu. Enganou. Roubou. Traiu. Destruiu. Dele se chegou a dizer que negociou a alma com o próprio diabo e que o ludibriou. À sua maneira, teve o mundo. Presumo, sem outra prova que não o desconhecimento de quem o não seja, que também ele tenha  sido capaz do bem. 
Morreu há dois dias, esmagado pelo mundo que quis tomar.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um quadro

É um quadro alegre, com círculos coloridos sob um fundo dourado. Do tom dos sonhos. Pintei-o para enganar a perceção da passagem dos grãos de areia no nó da ampulheta. A espera foi tormentosa, o verde esmeralda difícil de obter, o resultado, um equívoco de dimensões épicas.
Pode-se ser muito feliz apesar da angústia e do erro. Talvez o erro seja, até, a fonte privilegiada daquela forma tão pura de felicidade que nem a angústia ensombra. Para me lembrar de que foi possível, na partida, decidi trazê-lo comigo. 
Nunca o pendurei nas paredes de casa pela simples razão de que não pertence aqui e nem tão pouco me percentece a mim.
Vive no chão, entre outros erros e experiências inacabadas, de costas voltadas para o mundo. 


domingo, 25 de dezembro de 2016

E a vós, homens, lego-vos estas palavras

Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. Nele lego os meus milhões ao Demónio: pertencem-lhe; ele que os reclame e que os reparta...
E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: "Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!"
E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão! 
O Mandarim, Eça de Queiroz, Edição «Livros do Brasil» Lisboa

Coisas

Todos os anos ofereço a mim própria um presente. Costuma ser o melhor presente que recebo, o que bem se compreende, já que, além de ser a pessoa no mundo que mais gosta de mim,  sou igualmente aquela com quem estou disposta a gastar mais e a quem habitualmente não tenho escrúpulos em satisfazer caprichos. Este ano ofereci-me uma edição decente, esgotada, de As Mil e Uma Noites. Tive algum trabalho para a conseguir mas agora tenho os seis volumes ali aos meus pés, branquinhos com inscrições em persa, e, na alegria da possessão, tenho de fazer um esforço para evitar usá-los como almofada durante a noite.
Eu gosto de ter coisas. Muitas e bonitas. Vou gostar de ter coisas durante toda a minha a vida. Sou, irremediavelmente, esse tipo de pessoa. Como se tem alergia ao marisco, ou se é teimoso, ou se tem mau sentido de orientação, sou uma pessoa que tem prazer em tornar-se proprietária de objetos. 
O meu cão tem o hábito de levar os brinquedos preferidos para a sua cama e, deitando-se de barriga para cima, esfregar as costas nos ditos brinquedos, atividade que, inequivocamente, o deixa muito satisfeito. 
Um qualquer resto de dignidade impede-me de fazer o mesmo com os meus livros novos. Mas, devo admito-lo, era o que me apetecia fazer às Mil e Uma Noites.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Tesouros


Um postal de Salvador da Bahia, com uma bonita morena de cesta de frutas à cabeça; um bilhete de comboio antigo, daqueles cor-de-rosa, da linha Cais do Sodré-Cascais, com destino em Oeiras; um calendário da Escola de Condução Moderna, do ano de 1991. Tudo isto dentro de um exemplar de alfarrabista de O Mandarim, de Eça de Queiroz: o meu mais recente tesouro. 

Movimento Vamos Ajudar a Palmier a Encontrar o Espírito

E já é uma corrente internacional 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Post de Natal para podermos prosseguir a emissão com a programaçãohabitual

Cumprindo uma ancestral tradição com exatamente um ano, este navio ruma agora na direção do Polo Norte, onde contamos aportar amanhã, lá pelas seis da tarde, a tempo de roubarmos todos os presentes que o Pai Natal guarda naquele gigantesco saco com que abastece o mundo. 
Este ano, para que nada falhe, a tripulação foi proibida de beber eggnog...
Lá pela meia noite, teremos as arcas carregadas com todos os sonhos de todas as crianças do universo. Mais do que ricos, seremos livres. 
Aos leitores deste blogue é isso mesmo que se deseja: um Natal cheio de sonhos. 

Portas


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Todas as noites

A insónia mora nos cantos deste quarto. Esconde-se no armário quando me vê entrar. Espera por mim dentro dos bolsos dos casacos. Vem deitar-se ao meu lado depois da minha segunda hora de sono. Juntas, vemos chegar o alvorecer. 
E é só então que nos separamos.
Tu moras dentro da insónia. Escondes-te no seu vértice. Fazes-te sentir pela insídia. Amanhecendo-me. 
Todas as noites. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Solstício de Inverno

Por razões de coerência astrológica, escolhemos o dia mais curto do ano para nos despedirmos. 
Despedimo-nos com a mesma urgência que usaríamos caso as horas restantes, até ao último fio de luz solar, fossem todo o crédito temporal das nossas vidas. 
Não lastimo a pressa na despedida. 
Sobrou-me imenso sol. 

Mercado de Natal

As avenidas estão cheias. Há sacos com laços coloridos pendurados em mangas de Vison. As montras exibem os objetos brilhantes que ainda há meia hora não sabíamos existir e sem os quais já não podemos viver. As luzes estão no ponto perfeito do espalhafato. Há mercados de Natal em várias esquinas e em todos cheira a chocolate e a fritos de Natal. É um cheiro feliz. 
É certo que no passeio da avenida, com a cabeça de encontro à calçada, jaz, não se percebe se vivo ou morto, um homem de meia idade, sapatos rotos e casaco esburacado. 
Mas estamos todos atrasados para o Natal e é até provável que o homem já ali esteja desde a Páscoa.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Cidades indormíveis

A cidade lá me deu o sol; o céu azul; o rio espelhado; a noite iluminada.
Aquilo que nunca tem a generosidade de me dar é uma noite isenta de insónia.

Diário de Bordo

Aleph, o navio pirata, navega agora pelos mares, iluminado do convés ao mastro, assumindo ele próprio a forma de uma enorme árvore de Natal que dança ao ritmo das ondas. 
Houve anos em que tentei proibir o Natal e outros em que fingi não o ver até ser por ele derrubada à saída de um canto mais escuro. Este ano, consciente de que ninguém escapa ao Natal, mudei de estratégia e em vez de esconder os enfeites e redigir regulamentos anti kitsch, decidi antecipar-me a esta valorosa tripulação e ser a primeira a aparecer com as famigeradas luzinhas das lojas dos chineses; neons em forma de estrela; pseudo renas que mais parecem cães com chifres e a habitual panóplia de bolas coloridas. Centrifugada pelo espírito, cometi até a excentricidade de comprar online vários conjuntos de anjos de asinhas de penas e halos dourados, com rosadas caras obesas e caracóis louros. Estão neste momento pendurados por todo o lado e, vistos da gávea, parecem pequenos espanta-gaivotas. 
Esta tarde, a habitual rotina do roubo, da extorsão e do sequestro, cedeu o lugar à instalação do Natal. 
Há qualquer coisa de comovente nesse anacronismo que é ver-se um bando de malfeitores, maioritariamente ateu, ou, pelo menos, suspeitoso da bondade do divino, tão empenhado em replicar cada um dos clichés do Natal. 
Andhriminir fez-nos um chocolate quente com rum; Gualtiero, o Italiano, cozinhou bolachas de gengibre; Álvaro de Campos, que há tanto tempo não aparecia nesta estória, preparou vinho quente; os poetas inventaram novas quadras de Natal; os ex presidiários, como sempre, fizeram o trabalho todo; os bloggers tiraram muitas fotografias, organizaram discussões sobre o melhor local para colocar a estrela e disseram muitas vezes que sabiam montar o Natal melhor do que todos os outros. 
No final do dia, quando a tripulação ainda zanzava pelo novíssimo barco-Natal, kitshezeando em grande animação, sentei-me sozinha no convés, vi a lua, dourada, enorme, baixa, a rasar as ondas do mar, e pensei que, apesar de tudo, tive muita sorte.
No rescaldo do esquecimento, ainda se salvou, mais ou menos imaculado, o Natal. 

sábado, 17 de dezembro de 2016

Dois destinos

A lua viu.
A sombra una
de dois destinos 
projetada nas águas vadias
de um braço de rio domado.

O rio viu.
O circulo completo da lua
iluminar dois destinos 
ensombrados na unidade
da efémera noite.

A sombra viu.
Um rio,
outra lua, 
equação noturna,
dois destinos.
Opostos.




sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Lisboa



Cheguei, antes que a cidade me surpreendesse, a tempo de ver todas as folhas que este outono caíram na minha rua. Caminhei devagarinho pelo tapete amarelo, pisando com especial cuidado as horas caídas da minha ausência. Guardaram-nas, assim no chão, para que ainda as pudesse ver. 
Depois, Lisboa deu por mim: fez-se fria e cinzenta. Como toda a velha amante abandonada.

A fazer as malas para o Natal




terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Fugiram os sonhos

Fugiram os sonhos pela frincha da porta blindada da casa branca, assética, desinfetada. Os sonhos escaparam à higiene, esquivaram-se ao minimalismo, evadiram-se dos antifúngicos. Oprimia-os a ditadura das linhas direitas da arquitetura da existência; os tectos altos; as luzes indiretas para melhor conforto dos olhos míopes. O edifício, de inteligência artificial, racional até aos alicerces, da consistência fria do aço, não era dream friendly. E os sonhos fugiram pela frincha da porta blindada e espalharam-se pelas ruas à procura de um pouco de lixo humano. Acumularam-se em esquinas sombrias. Espreitaram pelas janelas dos tugúrios ocupados por coisas antigas, como o sangue, o suor e as lágrimas. Treparam pelas paredes e enroscaram-se nos pés sujos das pessoas simples.
Não voltarão, os sonhos, a este edifício hermético e eficiente. Expurgado da dor, mas também da esperança. 

domingo, 11 de dezembro de 2016

Expiação (*)

Podia ter enterrado na carne o mais frio dos cilícios; espalhado vidro mal moído e ajoelhado-me sobre ele durante horas a fio; escaldado as solas dos pés nas pedras incandescentes do jardim ou mesmo ter-me perdido num deserto desconhecido e por ele me arrastar até que pelas minhas veias circulasse mais areia do que sangue. Mas em vez de qualquer uma destas boas velhas formas de autoflagelação, fiz a má escolha de ouvi-lo uma última vez mais.


* (também tenho o tal sinal)

Os racionalistas e o amor

Um sapo perguntou, um dia, a uma centopeia qual era a pata que ela pousava primeiro ao andar. E a centopeia nunca mais conseguiu andar.

Afonso Cruz, Mil Anos de Esquecimento, enciclopédia da estória universal, Alfaguara

sábado, 10 de dezembro de 2016

Cedem-se haiku de Bashô



Diga um número de 01 a 1002 e receba um haiku 
(Post em parceria com Matsuo Bashô)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Portas


Sumo de goiaba

— não se enlouquece tudo de uma vez. 
Disse eu ao coelho do relógio pendurado ao pescoço que caminhava para diante e para trás, nervosamente, enquanto proclamava que estávamos todos atrasados. A lagarta, sentada na estante dos livros de poesia, assentiu depois de uma baforada de fumo que inundou o convés e, assim incentivada, repeti como se tivesse acabado de descobrir o segredo da vida eterna: 
— não se enlouquece tudo de uma vez. 
O gato que ri materializou a ponta da cauda e os dentes e projetou uma gargalhada num estilo maléfico e totalmente descontextualizado. 
Olhei à volta para tentar perceber o efeito das minhas palavras na expressão do chapeleiro louco, mas em frente ao seu sumo de goiaba havia apenas uma cadeira vazia. Ouvi a minha voz, em eco, gritar "cortem-lhe a cabeça" e, então, disse-me a lagarta: — "não devias ter mandado cortar-lhe a cabeça". Pensei em iniciar um dissertação sobre Salomé, mas o coelho insistiu que estávamos todos atrasados. 
— para quê? 
Perguntei por perguntar enquanto inspecionava o verniz das unhas, optando por esconder as mãos nos bolsos do vestido.  
O coelho voltou a consultar o relógio e decretou que estávamos irremediavelmente atrasados para a vida. 
— não nos faz falta. 
Disse ao bigode esquerdo do gato que ri quando voltei a ouvir o eco da minha voz: "corteeeeem-lhe a cabeeeeça".

De madrugada acordei com uma insuportável dor na minha própria cabeça e, pela manhã, a primeira coisa que fiz foi proibir Adhrimhinnir de voltar a servir risoto de cogumelos selvagens. 
Mas estava escrito que o dia não terminaria sem receber um postal do capitão Sparrow. Continha um smiley a boiar no verso branco de uma fotografia do porto de Tortuga. 
Foi assim que soube que me esqueceu.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

dezembro

Dizem-me que em Lisboa já é Natal. 
Aqui, neste navio, não há meses nem estações. Só dias seguidos por noites seguidas por dias, embalados pelas ondas do mar. 
Reparei que, entretanto, todos deixámos de envelhecer. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Kübler-Ross

Com o tempo, abandona-nos o deplorável vício da recriação de um concreto quotidiano alheio. 
Foi assim que deixei de vê-lo caminhar, desajeitado, na direção do mar. Ou de ouvir a inoportuna gargalhada infantil. Ou de imaginar a sombra das costas projetada pela luz das velas; os dedos a arranharem as cordas da guitarra; a forma inusitada de pegar na chávena do café; uma ruga vertical na testa a anunciar um período de silêncio; o gesto de distender os músculos do pé. 
Então, todas essas insignificâncias, que foram ínfimas parcelas de um homem, perdem-se no universo e o vício da recriação do quotidiano é substituído por uma nova forma de culpa. 
Como os deuses e os crepúsculos, também tu te desvaneces por falta de quem te sonhe. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ah, a poesia

na noite mais curta
lavo os pés
e adormeço vestido 

Matsuo Bashô, in O eremita viajante (haikus – obra completa), Assírio & Alvim

Dizia Borges que alguém (não importa quem) dizia que não era possível imaginar o universo sem um certo verso de Poe (não importa qual). 
Eu posso imaginar o universo sem Poe. Mas já não posso concebê-lo sem este haiku de Bashô. 
Ninguém nos explica a razão pela qual um verso pode espantar-nos como uma faca afiada no meio das omoplatas. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

Alvíssaras

Perdi o olhar num dos espelhos das casas por onde passei. Sabemos que assim é quando, numa inútil tarde de chuva, distraídos e ao telefone, procuramos num dos cantos da boca a causa de uma irritação qualquer e, nesse estado de irreflexão, o espelho devolve-nos um olhar falsificado.
Perdi-o e só agora constatei a ausência. 
Talvez o tenha perdido no espelho do hall de entrada da que foi a minha primeira casa minha, na mais bonita rua de Lisboa, e onde o espaço era demasiado exíguo para arrumar tanta solidão.
Mas também posso tê-lo deixado, na urgência da saída, no espelho da sala de um antigo solar, entre as porcelanas e os castiçais de prata, vigiados por um morto que nos censurava do alto da parede onde o penduraram. Era uma casa rodeada de nevoeiro, perdida no meio do oceano, com vista para um prado interminável onde as vacas iam dormir.
É ainda possível, embora improvável, tê-lo esquecido no meio da planície alentejana, na casa que ficava em frente à praça onde os velhos gastavam a reforma na batota e que tinha um terraço onde, deitada, vi chegar e, depois, partir, a lenta primavera. 
Ou posso tê-lo perdido naquela casa, quase dentro do mar, onde o vento, à noite, me trazia a fúria das ondas de encontro às rochas, e eu aprendi a escutar-me na sinfonia do caos.
E pode ter-me sido roubado na saída de uma outra casa onde, junto ao meu próprio retrato pintado a acrílico, despojei a minha alma. É uma casa que fechei nas catacumbas do esquecimento e que jaz na imobilidade do gigantesco lençol branco com que escolhi cobrir a realidade. 
Sei, porém, que ainda o tinha à saída dessa outra última primeira casa, de paredes com palmeiras lilases ou rosas verdes pintadas, onde os verve tocavam de manhã à noite, aprendi a poesia, demos nomes aos objetos e foi sempre verão. Lembro-me de o ter visto no espelho do sr. Otis, o elevador, quando carreguei comigo o último dos caixotes.

Irremediavelmente, perdi-o na vasta geografia de um exílio tão longo que se fez pátria. 

Os fantasmas

Os fantasmas até podem aparecer-nos, mas não nos deixam alcançá-los.
Podemos escutar-lhes o silêncio debaixo da voz arrastada. Inventar uma intenção verbal que não se concretiza. Vê-los deslizar rente às paredes ou observá-los enquanto nos acenam um adeus enjoado à porta de nossa casa.
Mas os fantasmas nunca nos perguntarão como estamos. E, se acaso tentarmos abraçar algum, acabará por nos trespassar antes que lhe sintamos o peso. Chamam-lhes aparições porque só aparecem. Nunca estão.