quarta-feira, 31 de março de 2010

Geral e Abstracta

16:00H (hora da sessão):

Está a Estrelita, a filharada, as primas e a mana na fila para comprar bilhete para o mais que cobiçado filme de aimação.

A boa da Estrelita graças à sua grande boca e pensando assim conseguir poupar os 7€ bilhete da filha mais nova dirige-se ao balcão:

E: Esta menina (que imediatamente senta no balcão), ainda não fez três anos, tem que pagar bilhete (dois dias antes viu o Disney on Ice sem pagar um tusto, pelo mesmo facto)?

F: Ah, então não pode entrar. Crianças com menos de três anos não podem entrar nos cinemas. São as ordens que temos. É de lei (adoram dizer isto!).

E: Pode lá ser isso. Estou a falar da sessão das 16H, para os desenhos animados; o filme do dragão. (E as miudas começam a inpacientar-se, já passa das 4 e ainda não se compraram as pipocas!). E para mais, ela está farta de vir ao cinema. Aqui inclusivamente. Chame o gerente, por favor.

Vejo o Gerente aparecer rapidamente com ar solicito. Explico o que se passa e iniciam-se os 10 minutos mais enervantes dos últimos tempos.

G: Lamento imenso, mas é de lei e está anunciado nos nossos cartazes (alguém alguma vez viu?) Crianças com menos de três anos não podem entrar em cinemas e salas de espectáculos.

E: (depois de muito argumentar e já em desespero de causa visto que a Miss Pipoca já chora que quer entrar, que o senhor não a deixa ir, que quer ir ver o dragãozinho...ah, e as outras 3, aflitas, que é que se passa? o que foi? Todas ao mesmo tempo! E as pipocas...) Até pode ser como o Sr. me está a dizer, mas como vê agora não vou poder voltar para trás. Ela anda a sonhar com o dragão há dias. Fazemos assim, o Sr. esquece que tivemos esta conversa e faz como habitualmente, vende os bilhetes calmamente, observa a garota e vai-me dizer se ela parece que tem três anos ou não (visto ter sido este o critério que me disse ser usado como detector de idade. Para cumprimento da tal lei). Assim, como fazem sempre, com todas as crianças, e como já fizeram com esta.

G: A Srª não pode entrar com a menina.

A esta altura decidi ignorar o que me dizia. Eu própria já sentia as lágrimas nos olhos num misto de raiva e de dor pelo sofrimento da Pipoca ante a perspectiva de não poder entrar. Pedi os 6 bilhetes necessários, paguei-os e repeti "Eu não vou poder voltar para trás".

Distribui os óculos 3D, respondi à Miss Pipoca que sim, que aqueles eram os óculos dela (ainda sentada no balcão, enquanto recebia o troco), peguei na Miss Pipoca ao colo, na mais velha pela mão, com as primas atrás, e a mana a fechar o cortejo, e dirigi-me escada acima até à sala de óculos 3D na mão. A funcionária que nos antendeu em primeiro lugar "picou" os bilhetes. E assim violei uma lei estúpida.

Se sabia que não me iam fazer passar pela a humilhação, perante as miúdas, de ser impedida de entrar? Não sabia.

Sabia que não podia ir embora com a Miss Pipoca e sabia que, a existir a tal da lei, é uma lei estúpida e como tal, contei com o Bom Senso do seu, então, aplicador.

Ele teve.

PROCURA-SE ESTRELITA


Com ou sem madeixas retocadas. De verniz bordeux ou manicure francesa. Sozinha ou agarrada a uma prole que nunca mais acaba.
Sofre de síndroma de distracção permanente e é possível que tenha perdido as passwords de acesso a este blogue, tenha voltado a esquecer-se do telemóvel dentro do roupeiro e tenha enfiado o Laptop no saco do Expresso da semana passada e enviado tudo junto para a reciclagem.
Também tem o estranho hábito de sair inusitadamente do país e depois de contactada a embaixada descobrir-se que foi vista pela última vez a entrar numa moto 4 a caminho do deserto num remoto país muçulmano. Também nos lembramos de algumas histórias que envolvem um país chamado Tailândia, mas sobre isso é melhor nem falarmos.
Se a virem por aí dêem-lhe a medicação para o Alzheimer e lembrem-na que Estrelita não é uma amiga imaginária da Cuca e da Medusa.


Grandes Filósofos


Mia: Don't you hate that?

Vincent: What?

Mia: Uncomfortable silences. Why do we feel it's necessary to yak about bullshit in order to be comfortable?

Vincent: I don't know. That's a good question.

Mia: That's when you know you've found somebody special. When you can just shut the fuck up for a minute and comfortably enjoy the silence.

Querida Amiga


Imagino a campa muito limpa. É rasa e tem flores. Não tem velas. A fotografia que se vê é a ampliação granulosa da parte de uma que tirámos. Só o teu rosto. Estás a colocar o cabelo atrás da orelha esquerda.

Não. Não é assim romântico, à Herculano.

Morreste naquele instante. Em que eu te matei. Só depois percebi que foi premeditado. Porque tinha que ser assim. Porque tentaste; bastou isso. Foi a tentativa que te matou, entendes?

Cravaste a faca mas não torceste. Ficaste satisfeita apenas com o esforço da perfuração. Deixaste-a lá. Não a puxaste. Não sangrei. Fiquei assim, a olhar para ti, meses e anos enquanto as tuas pupilas perdiam cor.

Até que consegui balbuciar o anúncio de que tinhas morrido – já estavas podre até aos ossos quando te guardei.

Ficaste menos alta assim, morta. Ficaste feia. Nem te concedi a graça de seres um fantasma.

Revoguei todos os perdões que te dei.

Acabei contigo assim. O que sobrou está num ossário ordinário qualquer e não sei o número da tua gaveta.

Descobri que tenho vocação para SOL. Não mais orbitei ninguém.


terça-feira, 30 de março de 2010

Tudo na vida são transferências energéticas


Cenário 1
Cuca toda contente, a fazer caras em frente ao espelho no provador da loja Red Globe, vestida com o maravilhosamente fashion fato-macaco que tenciona comprar.
Mete a cabeça de fora do provador e chama a senhora empregada para que lhe marque as baínhas. Isto porque Cuca é assim… como direi…? A puxar para o petite! Além disso, se há mistério por esclarecer é o de saber quem são as esqueléticas que cabendo num 34 têm altura suficiente para não ter que cortar metade das calças.
Senhora empregada a colocar alfinetes no macaco novo da Cuca:
- Está bem assim?
- Não, não…está curto! Quero as calças muuuuito compridas para usar com sapatos muuuito altos.
A senhora empregada lá marca as baínhas, Cuca paga noventa euros pelo fato-macaco fantástico e vai-se embora sorridente com um papel na mão para vir levantar o macaco no dia seguinte.

Cenário 2
Cuca toda contente, a fazer caras em frente ao espelho de casa enquanto experimenta o tal do macaco que foi buscar à loja naquela manhã.
Os olhos a descerem lentamente até à zona dos tornozelos - à mostra - e o espelho a devolver um olhar que deixou de ser de admiração para passar a ser de completo desespero.
- F…..!!! (cuca só diz palavrões em inglês porque acha que se for em "estrangeiro" não conta).


Interlúdio
Apesar do seu lendário mau-feitio (grandemente exagerado por gente dada a injustiças fáceis, diga-se de passagem), Cuca tem dificuldades em lidar com reclamações. Em primeiro lugar, é demasiado hedonista para se chatear com mundividências. Em segundo lugar, em matéria de estados de espírito, Cuca é propensa à bipolaridade: ou está tão de bem com a vida que fica completamente à mercê de qualquer conversa estúpida que lhe impinjam, ou se apresenta de tal forma chateada que é preciso chamar o INEM para a acalmar.
Consciente das suas limitações mas decidida a ir reclamar pelas pernas curtas do macaco, Cuca faz uma retrospectiva das situações idênticas que já viveu e é confrontada com uma visão de si própria a ser convencida pela senhora da loja de que não se pode fazer nada e que o melhor é render-se à evidência e usar o macaco com sapatos sem salto. Como Cuca não tem nenhuns, a sua visionária capacidade de antecipação permite-lhe ver-se a si própria a sair da loja e a agradecer a toda a gente, com o macaco curto demais numa mão e um novo saquinho contendo uns sapatos cor-de-rosa, sem salto, acabados de ser impingidos pela empregada assassina de macacos, na outra.
Cuca é extraordinariamente inteligente e, como tal, aprende com as experiências do passado e leva muito a sério as antevisões dos seus próprios disparates. Por conseguinte, prepara-se psicologicamente para este encontro decidida a apresentar uma reclamação eficaz e sair da loja com um fato-macaco que lhe sirva ou, no mínimo, com os noventa euros de volta, para ir comprar outro igual numa loja onde ainda não tenha feito um escândalo.
O problema é que a boa disposição matinal de Cuca surge como um obstáculo ao sucesso da sua missão. Então, a pragmática Cuca toma a inteligente decisão de se auto-enfurecer antes de se apresentar na loja.
Como? Perguntarão V. Exªs. Simples!
Cuca decide limpar a casa toda (excepto a casa de banho, pronto!) e a tarefa rende-lhe 30 pontos de irritação. Cuca decide entregar a declaração de impostos na internet e com isto alcança 60 pontos de fúria.
Munida de ódio e à beira de começar a espumar, pega no seu carro e a caminho da loja ocorre-lhe que, pelo sim, pelo não, o melhor é passar num balcão da Caixa Geral de Depósitos para que não haja nenhuma possibilidade de não cuspir na cara da senhora empregada à primeira palavra que lhe dirija.


Cenário 3
Meia hora depois, com a escala de ódio exponenciada a níveis insuportáveis para um simples ser humano, vermelha, a suar, a espumar e com o rosto transfigurado pela agonia:
- Temos aqui um problema m u i to g r a v e!!!
Cospe Cuca, já encostada ao balcão da loja e a abanar o macaco em frente ao seu corpo para melhor ilustrar o problema das calças por cima dos tornozelos.
- Um segundo…por favor…
A menina da loja foge para um canto e chama a colega, especializada em situações difíceis, que se aproxima com um falso ar de segurança e um daqueles sorrisos acalma-loucos.
- Então? O arranjinho não ficou bem?
E antes que Cuca tenha tempo de lhe responder…
- Não há problema nenhum. A senhora dá-me o talão que nós mandamos vir outro. Desde já pedimos imensas desculpas pelo incómodo, mas não se preocupe que vamos dar prioridade ao assunto da senhora e amanhã está tudo pronto. Lamentamos imenso.
Novo sorriso acalma-loucos. Competência totalmente british.


Epílogo:
Dois minutos depois, Cuca a transbordar com o ódio de que se muniu e que não teve oportunidade de utilizar, aos gritos no café em frente à loja a chamar de tudo à pobre brasileira que teve o azar de a atender, porque o café estava assim…assim…como direi…? Menos quente do que aquilo que Cuca queria…

Segredos

Masculinos. Existem. Não em tão grande número como os femininos. Ou, pelo menos, não tão elaborados como estes.

Por isto, este post não é muito looongoo...

Serve apenas para partilhar que se usam coquilhas específicas nas produções de moda masculina, maxime de roupa interior.

Por isso, da próxima vez que apreciarem um cartaz destes...


... podem estar simplesmente a viver uma das fantasias. Deles.


segunda-feira, 29 de março de 2010

domingo, 28 de março de 2010

Dívidas intransmissíveis



Aquela viagem a New York quase dois anos adiada; cinquenta minutos de massagem no Six Senses Spa da Penha Longa; uma conta da Pandora para me lembrar que sobrevivi a um ano insuportável; babar-me em cima da filha da minha amiga A. com quem já não estou sem ser em circunstâncias trágicas há tempo demais; uma tarde de compras no Chiado entre amigas a terminar num jantar descontraído no Valentino; uma noite inesquecível no São Carlos; apaixonar-me perdidamente pelo primeiro tipo com quem me cruzar num elevador que tenha a lata de me pedir o número de telefone; a pulseira colorida da colecção de bijuteria de verão da Louis Vuitton; beber uma caipirosca com os pés enterrados na areia a ler um livro de poesia; um iphone porque serve para tudo menos para telefonar mas é lindo e eu quero um; convencer-me a mim própria que a vida que deixei para trás não é melhor do que aquela que posso ter para a frente; uma franja igual à que foi celebrizada por Heidi Klum; voltar a Veneza para reentrar na igreja de Sant Ignazio e perder-me pelo tecto de Giovanni Fumiani; doze horas de sono seguidas a babar a fronha da almofada; depilação definitiva às virilhas e às axilas; ler a Bíblia, porque já começa a ser uma questão de ignorância; gritar umas boas verdades aos ouvidos do animal que me fez perder dez anos da minha vida.



Deixo-vos o desafio. O que devem a vocês próprios?

Ódios de estimação


sábado, 27 de março de 2010

Notícia da semana: Os Loucos


Os estudos revelados esta semana, embrulhados na santa credibilidade da Organização Mundial de Saúde e dos cientistas de Harvard, garantem-nos que 23% dos portugueses sofrem de doenças mentais. No que me diz respeito, recebi esta informação com grande alívio.
Desde os cinco anos que sofro de fobia de malucos (não conheço o nome técnico, nem me consta que seja uma fobia catalogada). Tudo começou numa linda tarde de verão quando à saída de um parque infantil estrategicamente colocado ao lado de um centro de doentes mentais, fui atacada por um adolescente com trissomia 21 que me roubou um corneto de morango. Desde então, cada vez que pressinto um louco num raio de 200 metros fico mais gelada que o corneto que não comi.
Depois do episódio do parque infantil seguiram-se muitos outros. Assim de momento e só para referir os mais marcantes, lembro-me do “Toino Sanita” que rondava a minha escola e estava sempre à espera que eu passasse para despir as calças e exibir as suas partes íntimas; do “cabeças” que se passeava pela cidade em passo apressado com um pau na mão que reza a história que nunca foi usado excepto no dia em que decidiu bater-me com ele e do “Ronco” que enquanto se limitava a rosnar a quem passava, elegeu-me a mim para me morder uma orelha. Tudo isto antes de eu completar os meus dez anos.
Depois desta infância traumática, a perseguição continuou na faculdade, onde os loucos já não se despiam em público mas tinham uma especial predilecção por se sentar ao meu lado e me encherem os ouvidos com as suas igualmente despudoradas alucinações sociais.
Por fim vim viver para Lisboa – esse hospício a céu aberto – e o problema intensificou-se a tal ponto que durante todo o tempo em que vivi numa rua cujo nome vem no monopólio tinha por vizinha uma louca varrida que se divertia a esperar que eu entrasse no elevador para subir comigo. Depois era ver-me pequenina e aterrada de encontro às paredes de plástico com a doida em cima de mim a murmurar-me excertos da bíblia.
Quando finalmente mudei de casa e de zona lá estavam eles mais uma vez à minha espera. No preciso momento em que escrevo sei, porque o sinto, que há um maluquinho plantado no meio da rotunda, a rir de braços abertos para os carros que passam. Vocês diriam que é inofensivo, eu informo que é o suficiente para me impedir de sair de casa a pé.
Pelo meio houve muitos outros. Em especial, aqueles que se escondem em quotidianos aparentemente incompatíveis com a loucura, que até têm doutoramentos e tudo e que só estão à espera da primeira vez em que se apanham sozinhos no sofá lá de casa para nos contar tudo sobre o esgotamento cerebral que tiveram aos dez anos de idade. Do momento da revelação até concluírem que eu represento as forças do mal, vai meio copo de gin tónico. Estes são especialmente perigosos porque têm o nosso número de telefone, sabem onde moramos e têm meios financeiros para nos perseguirem durante muito tempo.
Andei todos estes anos convencida que a minha desgraça tem apenas duas explicações possíveis: Ou são os malucos que possuem a mesma capacidade canina para o farejamento do medo, ou sou eu que nasci com um néon na cabeça, onde está inscrito, em todas as línguas do mundo, “Vinde a mim, maluquinhos”.
Agora, finalmente, recebo a justificação oficial. A minha desdita é uma questão estatística. Em cada cinco pessoas sentadas à nossa mesa, há uma que bem pode lembrar-se de sacar de uma arma e dar-nos um tiro só porque imagina que está numa caçada e nos confunde com um coelho.
Resta-me o alívio do conformismo inerente a todas as coisas que não têm remédio.


P.S. Claro que há quem diga que a fobia de malucos é determinada pelo inconsciente medo de enlouquecer (essa sei, é a lissofobia) que, provavelmente, já será uma doença mental. Isso também me conforta. Se fizer jantares apenas de quatro pessoas e puder considerar que eu sou um dos malucos presentes, a minha probabilidade estatística de morrer de velhice aumenta para níveis muito satisfatórios.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Presentes







O Coelho da Páscoa esteve cá.





Trouxe Ovos.
















Com Brinde!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Grandes Filósofos



You could always tell what kind of a person a man thinks you are by the earrings he gives you. I must say, the mind reels.

Uma estrela. Uma criatura mítica.

A minha avó materna foi uma criatura singular. Tinha um feitio insuportável. Era uma doçura “para os de fora” como dizia o meu avô.

Ao mesmo tempo era uma verdadeira estrela.

Apesar da decadência que a colocou na classe média, fazia as suas refeições com talheres de prata, um jogo composto por colher de sopa, garfo e faca só dela. O meu avô também tinha os dele. Como ela dizia, fazia parte do que sobrou “depois que o teu avô deu cabo da ourivesaria...”. A Ourivesaria Ribeiro, sita na anteriormente distinta Rua do Loureiro, estava na família desde 1762, passando de pai para filho primogénito até que chegou às mãos de um homem sensível a quem não deixaram ir para Belas Artes porque isso eram “ocupações para ociosos” e que deviam permanecer como meros passatempos na vida de um homem decente. Perdi a conta das vezes que a ouvi falar do meu avô como um homem que não sabia dizer não – referindo-se às histórias dos pulhas que se abasteciam na loja e diziam que pagavam depois.

Eram gente de ter criados de dentro e criados de fora; destes nem chegavam a saber o nome. A minha mãe não carregava a pasta no caminho para o colégio. No tempo do Salazar não havia tanta pouca-vergonha. Depois, o meu avô deu cabo da ourivesaria; meteram-se num barco para o Brasil; voltaram; morreram confortavelmente instalados na classe média.

Era cliente dos Armazéns Marques Soares, daquelas lojas de departamento onde a roupa é estupidamente mais cara porque as pessoas abrem contas e pagam em vezes, sem juros. Lá, as camisolas estavam todas em prateleiras e em plásticos individuais. E as funcionárias atendiam as clientes desde que chegavam até que pagassem na caixa central. Exagerava bastante nas compras. O meu avô pagava tudo. Chegou a ter três tailleurs brancos. Ficavam-lhe bem quando a Primavera já ia adiantada, coordenados com blusas de seda azul escura às bolas brancas.

Nunca saía de casa sem ter as unhas arranjadas e batom.

Não gostava de beijos. E dizia-o. Tinha meios-irmãos. O pai era militar e morreu de febre amarela. O seu vestido de casamento foi mandá-lo fazer a Paris.

Possuía muitas coisas. Fiquei com algumas. Presentes de aniversário, Páscoa, mimos do meu avô. Todas da Ourivesaria. Em conjunto com os calotes dos pulhas, o meu avô ajudou a enterrar a ourivesaria, agora eu tenho a certeza. São as minhas jóias mais bonitas.

A minha avó possuía mais uma coisa fantástica, mas que eu não herdei: POBRES.

Sim, a minha avó TINHA pobres. Dizia: “Eu tenho que ir ver os MEUS POBRES.” Ia à Baixa duas a três vezes por semana. Ia ver os pobres dela e ia ao Marques Soares. Pelo meio lanchava com as amigas na Brasileira ou na Império. Nas tardes da semana, a Baixa do Porto ainda não estava atulhada de desempregados ou subsidiados. Ia ter com a D. Mariazinha Modista, a D. Mariazinha Miserável e a D. Lucília. Esclarece-se que lá em casa toda a gente sempre teve cognomes, vício que o meu avô passou aos filhos e netos. Havia a Bomba Atómica (familiar), o Quenéde (vizinho), o Cantor das Multidões (familiar)... A Modista tinha um atelier, a Miserável era rica e estupidamente sovina e a D. Lucília era a D. Lucília.

Mas ela ia ver os seus pobres. Sempre achei isto uma coisa muito chique. Eu também fui com ela muitas vezes. Nunca vi os pobres, mas via sempre as freiras. A minha avó, apesar de lá ir, correspondia-se com elas. Recebia pajelas novas pelo correio.

Só não eram chiques os calendários dos artistas deficientes que ela trazia para casa, a fazer par com o calendário das Missões que, para além das fases da lua, informava o Santo de cada dia. Não eram chiques mas vinham dos pobres dela. Coitados. Tentei algumas vezes imitar aqueles artistas, pintando com a boca ou com o pé. Desisti. Nunca percebi como aqueles que pintavam com a boca impediam a baba de cair no trabalho. Atribuí a resistência às cãibras na planta do pé dos outros a uma inspiração divina.

Quando começou a dizer que a criada andava a levar-lhe as chávenas do serviço de chá que lhe ofereceram no seu casamento nas copas do soutien, foi viver para um lar. Um mês depois disto e dois dias antes de morrer, na tarde do seu aniversário a 28/12 lanchou com a minha mãe e conversou como se estivesse a tomar chá com a mãe dela. Veio pouca gente ao funeral. Ficamos com o fim de ano estragado.

Nunca fui amiga dela. Ela era impossível. Uma verdadeira estrela.

Esta semana, lá no meu trabalho (Quando a realidade supera a ficção) II


O mitra que só foi catado porque, carregado de haxixe até às orelhas, decide entrar num estabelecimento onde decorria uma inspecção da ASAE, e pedir mortalhas.

Vai daí, face ao seu aspecto "suspeito" (!? viva a não discriminação), os Srs Inspectores decidem pedir-lhe a identificação. Não tinha.

Não tem identificação, intensificam-se as suspeitas. Faz-se revista sumária. Encontra-se o haxixe, e o resto da história conduz-nos a este brilhante momento:

- Então, o Sr. é Toxicodependente?

- Nãããoo! (com ar indignado). Eu só fumo haxixe.

- Ah sim? E em que circunstâncias fuma?

- Ah, fumo uns 3 ou 4 charros por dia...

Sabedoria popular


De 1523 até aos dias de hoje já dava para se ter aprendido qualquer coisa:


"Mais quero um asno que me carregue, que cavalo que me derrube".


In Farsa de Inês Pereira, Gil Vicente

quarta-feira, 24 de março de 2010

Tiques insuportáveis que o levarão ao sucesso (Segundo Módulo)

















Aprenda a comportar-se em público.

As estrelas só têm interesse porque nos provocam sensações agradáveis. Ninguém se põe a contemplar o céu com o mesmo propósito doentio com que algumas pessoas param para assistir a tragédias automobilísticas.
Há uma lista de assuntos sobre os quais não deve falar à mesa, nem que para os evitar se veja na contingência de ter que encher a boca de comida e sair da festa com mais dez quilos.

Aqui fica:
- Doenças
Não descreva as suas dores reumáticas, calos nos pés, pus na garganta, furúnculos em qualquer parte do corpo e, sobretudo, doenças hormonais. Por mais obcecado que esteja com aquela amiga que tem cancro não estrague o jantar das pessoas com histórias de quimioterapia que ninguém quer ouvir.
Se em desespero de causa tiver mesmo que falar em doenças – cenário que só é concebível num encontro de médicos workaholics ou de pessoas geriátricas – permita-se os seguintes estados patológicos: jet lag (por motivos óbvios), gota (doença historicamente reservada à nobreza), sonambulismo (dá sempre um certo ar de mistério), paludismo (significa que saiu de Portugal pelo menos uma vez na vida) e aquele pulso que partiu numa queda a cavalo ou nas últimas férias da neve.

- Política
Falar de política à mesa é uma forma pseudo-culta de instalar a discórdia e aborrecer os que não estão dispostos a armar-se em espertos. Além disso, se houver um comunista presente (sim, eles existem e às vezes vêm parar às nossas mesas) estará a abrir uma raivosa torneira doutrinadora que vai inundar a sala de jantar e estragar os seus sapatos novos. Guarde para si as suas convicções sobre a conspiração do clube de Bilderberg (alguém lhe dirá que é inveja por nunca ter sido convidado para nenhuma reunião), da Maçonaria (alguém lhe dirá que é inveja por nunca ter sido convidado para nenhuma reunião) e da Opus Dei (agora já sabe porquê).
Discutir programas de partidos políticos é ainda mais grave. Em primeiro lugar, os seus convivas não os leram (sim, mesmo que sejam deputados), em segundo lugar, você não o compreendeu e, por último, se tiver o azar de estar lá alguém que perceba do assunto, essa pessoa será suficientemente presunçosa para fazer questão de o humilhar em público.
Se adormecer à mesa e acordar no meio de uma acesa discussão política, faça um ar inteligente e diga que prefere falar da política interna do Butão que, isso sim, constitui uma ameaça para o sistema bancário da Suiça que, obviamente, é o único que lhe interessa.

- Guerra dos sexos
Não há nada mais irritante num jantar social do que apanhar com o anormal do lado a debitar teorias machistas sobre a inferioridade feminina quando todos os presentes sabem que além de se arrastar atrás de uma messalina de condição inferior é casado com uma mulher que manda nele. Os sorrisos amarelos das senhoras presentes não são sinal de concordância. São o equivalente educado ao “don´t feed the troll” que é o mesmo que dizer “nem abro a boca para ver se o palhaço se cala”.
Por outro lado, associar-se a um bando de fêmeas excitadas a desancar na espécie masculina, também só a fará parecer uma galinha com a cabeça cortada. Se estiver acompanhada todos pensarão que o seu marido a engana. Se estiver sozinha todos perceberão que o seu ex marido a enganou.
Também aqui, o silêncio dos cavalheiros não significará concordância. Mesmo que a olhem com ar solidário saiba que estão a pensar “o que tu precisas, sei eu o que é!”.
Se for confrontada com uma guerra dos sexos iniciada por um conviva mal-educado, abstenha-se de participar na conversa e diga qualquer coisa espirituosa como “E o que acham dos hermafroditas?” ou o menos sofisticado mas igualmente eficaz “isso era no tempo em que éramos todos macacos”.

- Críticas às profissões dos presentes:
Se você for um trolha e construir um prédio todo torto, acha decente que passem o jantar a atirar-lhe isso à cara? Pois claro que não.
Dizer que os juristas são vigaristas não lhe vai resolver o problema de continuar a ser vigarizado. Vai obrigá-los a enganarem-no naquela mesma conversa com argumentos falsos.
Chamar incompetente, preguiçosa e ladra à classe médica só fará com que lhe perguntem porque raio é que ainda não subscreveu um seguro de saúde decente.
Dizer que os jornalistas são mentirosos e difamam as pessoas será meio caminho andado para que nunca falem de si na altura em que lhe dava um jeito enorme uma entrevista de duas páginas.
Se forem pastores, designers, pasteleiros, filósofos, escritores ou professores, aplica-se a mesma lógica.
Aprenda que os membros de uma classe profissional não são uma espécie de livro amarelo em que pode despejar as suas reclamações, as da sua família, as dos seus amigos e as da senhora que ouviu no programa das tardes da Júlia. Além disso, noventa por cento das pessoas fazia outra coisa se pudesse ou soubesse e tem pelo menos o dobro das queixas contra pessoas da sua própria classe profissional.

Nota importante: Sempre que estiver num jantar em que o aborreçam com algum destes assuntos proibidos durante mais de cinco minutos, faça um ligeiro aceno de cabeça, levante-se, despeça-se e retire-se invocando que a conversa lhe desencadeou imensas saudades da sua almofada.

É provável que o anfitrião não o volte a convidar. Mas já sabe: não estará a perder nada que lhe faça falta...

terça-feira, 23 de março de 2010

O factor Jackie K. O.








Caso em que, ao lado de um grande homem, mesmo que ele seja um grande bluff, está uma mulher fantástica.

Jackie's a KnockOut!

segunda-feira, 22 de março de 2010

A muleta e o aleijão


No início, a muleta é um auxílio e um alívio. O aleijão agarra-se a ela. Arranja a melhor que pode.
Com o tempo, passa a manejá-la com maior destreza.
A muleta permite-lhe baloiçar menos, dá-lhe apoio e segurança.

Entretanto, o mutilado começa lentamente a perceber que a facilidade ganha na marcha é inversamente proporcional à invisibilidade do seu defeito – acaba por entender que, por menos que manque, a muleta denuncia-o sempre.
A muleta não apaga o defeito. Torna-o mais visível. Esvai-se a paz que o trucidado tanto procura.

O luto é a muleta do destroçado. Que será aleijão para sempre.
Por isso, resolvi tirar o meu.

domingo, 21 de março de 2010

sábado, 20 de março de 2010

Esta semana, lá no meu trabalho (Quando a realidade supera a ficção) I




- Então e quer explicar porque é que fez isto à sua mulher?
(“Isto” foi, resumidamente, dar-lhe vários e murros e pontapés e depois de a deixar imobilizada num canto do quarto, dirigir-se à cozinha, agarrar numa faca e espetá-la em diversos sítios na zona do pescoço e do peito).
- Olhe, pá…
- Não é pá! É senhores doutores..
- Pois, pá! Era o que eu ia dizer…
- E então? Quer explicar?
- Ela estava sempre a falar!! Sabem lá o que é um homem a querer dormir e ela sempre a falar, a falar, a falar, a falar…
- Ah, muito bem! O senhor esfaqueou a sua mulher porque queria dormir e ela estava a falar? É isso?
- Er…não é bem assim…não foi como está aí escrito! Eu primeiro mandei-a a calar, pá!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Comunicações inter-galácticas


O meu telemóvel toca dentro da mala, que vibra dentro do carro que soluça no meio do trânsito que se arrasta por entre a minha impaciência. Pego no telefone demasiado distraída para ver o número e cometo a asneira de atender assim. De peito aberto e não apenas pelo excesso de botões desapertados.
A minha voz em eco naquele tom das pessoas que estão lá mas que na realidade já não estão e talvez até nunca tenham estado.
E a voz dele, sem eco nenhum, a atingir-me como um estilhaço de passado que ultrapassa a barreira da dimensão do tempo e do espaço apenas para nos cair aos pés e nos fazer equilibrar sobre nós próprios no último segundo antes da queda.
- Fomos felizes, não fomos?
O meu olhar fora da estrada, preso na mala que vibrou, a traduzir a mesma expressão que se entrega ao porteiro que deixou sentar o ladrão na nossa sala de estar. A minha boca entreaberta numa paralisia momentânea que me dá um ar presumivelmente pouco inteligente. A única parte do meu corpo que se mexe é o dedo polegar que bate nervosamente de encontro ao telefone. A marcar os segundos do silêncio que se constrói em torno de uma equação composta por dois elementos, em que o invasor espera o ruído do trovão e o invadido está demasiado encadeado com a luz do raio para poder comunicar qualquer som.
E no tempo que medeia entre o relâmpago e o trovão lembro-me:
A tua permanente expressão de cobrador do fraque de obediências humanas confirmatórias da dedicação canina que alguém erradamente te disse que era a face visível do amor.
A minha permanente expressão de ansiedade na hipnótica existência auto-anulada em função da tua mais ligeira alteração de humor que alguém erradamente me convenceu que era uma forma de amar.
E toda a energia de relâmpago e trovão a ser rapidamente absorvida por um pára-raios imaginário.
- Não!
Desligo o telefone e devolvo o olhar à estrada a tempo de evitar mais uma colisão.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Poema que o Poeta não escreveu para mim



Nem sempre se deve desconfiar das pessoas

graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,

os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão

depois.

Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo

dos pés e por isso do outro lado do mundo.

O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés e

mais longe ainda das mãos

que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos

se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.

Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias

quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas

pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo

que foram ou das pessoas que amaram.

Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no

chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, destas pessoas, é, por

isso, uma subtil forma de cuidado.

Rui Costa, in "A Nuvem Prateada das Pessoas Graves"

quarta-feira, 17 de março de 2010

...e quando...


A filha de dois anos e meio, ao vê-la chegar a casa da avó em roupa de treino - acabada de sair do ginásio - para a ir buscar, pára de repente e exclama:

"- Mamã, tu estás de Pijama!?"

Uma mulher sabe que fez uma má escolha quando...



Decide passear-se com as suas mellissas roxas flocadas, a combinar com a blusa acabada de estrear, e a filha de sete anos, reparando no facto, grita bem alto em plena esplanada:


"- Oh Mãe, então, vieste de pantufas para a rua!?"


Ginger´s do it better

E não é que, sorte a minha, afinal sempre se arranjaram dois bilhetes ??
(Será que vou pagar caro por isto?)

E foi assim:
Rita Carmo, BLITZ

terça-feira, 16 de março de 2010

Psicanalistas de trazer por casa


Tenho poucos pequenos prazeres.
Sempre invejei aquelas pessoas que nasceram com o dom de conseguir que o pôr-do-sol lhes arranque um sorriso, que a folha que lhes cai no nariz e inicia o Outono não passe sem ser notada, que têm o dia feito pelo facto de ligarem o rádio do carro no preciso instante em que se inicia a sua música preferida, que vêem no olhar curioso de uma criancinha um sinal de esperança que melhora uma aflição qualquer.
Estes são os donos do mundo. O seu bem-estar depende de coisas tão poucas e acessíveis como o abanar da cauda do gato do vizinho. Podem nunca ter lido um livro de poesia mas vivem-na dentro de si.
A mim, os prazeres saem-me sempre caríssimos e nunca são pequenos.
Os filmes podem ser muito bons mas falta-lhe um final à altura, os livros podem ser inesquecíveis mas a tradução é má, o hotel pode ser maravilhoso mas há um mais caro, a comida pode estar excelente mas com outro vinho teria ficado melhor e a conversa até pode ser celestial mas a sandália direita apertava-me o pé.
As pessoas como eu, quando descobrem um pequeno prazer agarram-se a ele como se a sua vida dependesse disso porque sabem que poderão passar anos até voltarem a descobrir um novo comprimido prozac em versão barata, não aditiva e isenta de culpas.
Tive, durante muitos anos, um pequeno prazer secreto que era atravessar a ponte Vasco da Gama para entrar em Lisboa.
Se fosse de manhã, Lisboa apareceria à minha frente em tons azulados, a irradiar esperança e vida, carregada do optimismo das coisas que são movidas por algo maior que nós. Se fosse de tarde, Lisboa embrenhada num tom dourado, como uma cidade abandonada a si própria far-me-ia lembrar o gosto que têm todas as coisas quando dentro delas se sente o cheiro do voltar a casa. E de noite, então, a Lisboa carregada de promessas, em que as luzes se confundem com os sonhos e tudo nos parece possível é uma sensação avassaladora que foi, provavelmente, o meu maior pequeno prazer.
Seis meses depois de cinco vezes por semana ser obrigada a passar pela ponte Vasco da Gama para entrar em Lisboa, constatei com infelicidade que, à força de tanto o viver, o meu antigo pequeno prazer se transformou em dez irritantes minutos em que carrego no acelerador para que passem o mais rapidamente possível.
Espoliada no meu parco património de instantes prozac, praticando a apregoada filosofia de me queixar a toda a gente, hoje ao almoço decidi partilhar a minha desventura.
Quatro pessoas concluíram da seguinte forma:
- Talvez não tenhas sido feita para o casamento.

e por falar em ruivas... Era Hoje!

Deixei-me dormir e agora também ISTO me vai passar ao lado

e ainda os pantones

Alto! Pára Tudo!!
Bem sei que a troca de argumentos já lá vai, mas não posso deixar de defender a 3ª Via.
Assim, sem mais argumentos, e para vosso deleite:




Jessica Rabit Ariel




Julianne Moore



Marcia Cross

segunda-feira, 15 de março de 2010

Ódios de estimação


A glória daqueles que lutam diariamente batalhas de uma guerra com o espelho que sabem, à partida, perdida.


...

São 7h50.

Não acredito.

Levanto-me ao fim de uns minutos de ódio.

Tomo um duche – sem lavar o cabelo porque já me deixei disso em casa. Se vissem o tamanho deste polvo molhado perceberiam o tempo que demora a lavar e a secar e como tal tarefa não se compatibiliza com a minha vida.

Depois de seca, deliberadamente esqueço o hidratante porque “coloco mais logo, antes de me deitar...”.

Espeto as lentes de contacto nos olhos: - 3,25 no esquerdo; - 2,75 no direito. Sim, sou quase tão amblíope como um morcego.

Com o dedo anelar, coloco o creme de contorno dos olhos, não tanta quantidade como antes de me deitar senão ficam “papudos”, pressiono com dedo anelar, de dentro para fora, cinco vezes para abaixar o inchaço provocado pelas (sempre) poucas horas de sono.

Faço photoshop com o serum para minimizar os poros – espalho em todo o rosto.

Espalho o hidratante com protecção solar no rosto e pescoço; sim, no pescoço, até à nuca porque não quero correr o risco de daqui a uns anos ter ainda um rosto de porcelana num pescoço de papiro.

Nas costas da mão, entre o dedo grande e o indicador, coloco uma bolinha de primer verde, que espalho com os dedos indicador e médio nas maçãs do rosto, queixo e contorno do nariz, para anular as rosáceas e outras manchas avermelhadas que, dizem, só eu vejo.

Deixo secar uns segundos.

Coloco o corrector de olheiras, no canto interno do olho, e, por baixo, fazendo um triângulo invertido até a altura da ponta do nariz (como se pintam os pierrots). É a zona do rosto onde o corrector é menos eficaz. Coloco corrector no queixo. Coloco corrector em alguma “pré-borbulha” – não coloco nas borbulhas porque é pior a emenda que o soneto... mas também, é raro ter borbulhas.

Deixo secar uns segundos.

Coloco pó solto para matizar todas as zonas onde coloquei produtos em texturas fluidas. Pelo rosto todo, com pincel largo – há muito tempo investi em pincéis de pêlo de vison, vale a pena. Com pincel médio, coloco nas pálpebras.

Aplico bronzer em pó com pincel oblíquo por debaixo das maçãs do rosto, a fazer de blush. Faz milagres num rosto comprido como o meu.

Coloco uma sombra em pó nas pálpebras móveis dos olhos.

Ilumino o canto interior dos olhos com lápis branco pérola.

Coloco rímel preto apenas nas pestanas superiores.

Escovo as sobrancelhas para lhes retirar o pó solto.

Examino o resultado que, habitualmente, é um no-makeup look com o qual me sinto confortável.

Solto o cabelo, penteio com jeito para não o partir.

Visto a roupa. Nuns dias mais inspirada que noutros.

São 8h30.

...

São 23h57.

Dispo-me e, deliberadamente, esqueço o hidratante porque “coloco amanhã, depois do duche...”.

Amarro o cabelo já em robe de chambre, que é muito mais bonito que dizer roupão e menos ridículo que dizer peignoir.

Retiro as lentes de contacto e passo a servir-me apenas do espelho de aumento fixo à parede ao pé do rosto.

Num disco de algodão coloco o desmaquilhante bifásico para os olhos. Passo duas vezes em cada olho com cuidado para não stressar muito a pele junto aos olhos. Lá se vão as minhas pestanas de cinema.

Bombo 4 vezes o tubo de leite desmaquilhante e espalho com os dedos em todo o rosto e pescoço em movimentos circulares. Retiro a lama resultante com dois ou três discos de algodão limpos.

Noutro disco de algodão limpo coloco o tónico e passo pelo rosto e pescoço, evito os olhos. Ainda sai sujo.

Enquanto a pele seca, lavo os dentes. Duas vezes, uma com escova normal outra, bem mais demorada, com escovilhão por causa do aparelho ortodôntico. Digo sempre ao espelho que estes 18 meses de tratamento e sorriso metálico vão valer a pena quando o retirar. Actualmente apenas sorrio para as fotografias; gargalhadas apenas em 2011.

Com o dedo anelar, coloco o creme de contorno dos olhos, em maior quantidade do que coloco de manhã para ver se compensa as (sempre) poucas horas de sono que vou ter de seguida. Faço um sorriso bem largo para ver onde estão as rugas de expressão e encho-as de creme.

Espalho as gotas de serum para a noite por todo o rosto e pescoço.

Espalho o hidratante rico em retinol e outros componentes anti-age no rosto e pescoço até à nuca.

Solto e penteio o cabelo com cautela para não o partir.

Coloco, nas mãos, creme para os pés que são mais gordos e reparadores. Insisto nas cutículas para não ter espigões.

São 00h21.

sábado, 13 de março de 2010

Amor de Mãe


Uma mãe seriamente desorientada a olhar para a filha morena depois de dez anos de platinado:

- Olha que rica coisa que tu e o teu cabeleireiro estiveram a fazer os dois a tarde inteira!

Cuca perplexa com a primeira reacção verdadeira à mudança:

- Então?! Isto sou eu ao natural! Não gostas?!

Uma mãe amuada pouco empenhada em disfarçar o desgosto:

- Não, não! Não gosto mesmo nada! E já agora...como é que esperas que eu convença as pessoas que sou uma loura verdadeira contigo nessa figura?
Post scriptum: Esta fotografia foi tirada da net. Nem eu nem a minha mãe temos as unhas sujas, ao contrário desta gentinha que nem se deu ao trabalho de se lavar antes de se deixar fotografar.

sexta-feira, 12 de março de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

Em defesa de Marilyn





É o fim do tabu. Concedo. Mas em defesa de Marilyn, tenho que dar algumas justificações.
Se considerarmos que a idade da razão começa aos quinze, constato que passei exactamente metade da minha vida racional morena e outra metade loura. Por esta ordem. O que é não é uma informação despicienda. Se estivesse morena talvez não precisasse de ler o post da Medusa para retirar tantas conclusões e tão importantes.
O mundo muda a partir do instante em que se enlourece.
O preto e os vários tons de cinza não caem tão bem a uma loura como o vermelho e o rosa pastilha elástica. O cabelo louro não pede pérolas, grita por diamantes.
Um dia decidimos ficar louras e no dia seguinte as nossas roupas não nos servem, as mamas crescem, as ancas insistem em tornar-se demasiado evidentes.
Vivi anos como morena tranquila e marquei corações de bons rapazes com intenções sérias. Mas por alguma misteriosa razão nunca me diverti tanto como depois de assumir o papel de loura rapioqueira.
E não é exactamente verdade que eles não prefiram uma loura com stilletos e espartilho dois números abaixo a uma morena inteligentemente vestida. O problema é que o universo masculino compõe-se de vários géneros de eles.
Foi por causa das aspirações estatutárias de um d´eles que me vi obrigada a enlourecer. Uma morena nos sofás Philippe Starck destoaria como uma nódoa de romã.
O problema é que o homem que inspirou o platinado de Marilyn, não se sentou num baloiço à porta de casa, esperando cinquenta anos para envelhecer com ela.
Não sei se são eles que preferem Bacall ou se somos nós, mulheres distintas ou senhoras elegantes, que preferimos aqueles de entre eles que preferem Bacall.


Pelo sim, pelo não, amanhã volto a ser morena.

Bacall vs Monroe ou o primeiro post sobre sexo (inspirado na fotografia publicada por Cuca)

Foi construído um mito em volta das preferências masculinas no que diz respeito às roupas e adereços, com o resultado de que muitas mulheres se arranjam deliberadamente para atrair a atenção e provocar a admiração dos homens mas as mais das vezes inspiram apenas espanto.


O QUE OS HOMENS CONSIDERAM REALMENTE ATRAENTE:

- Lauren Bacall

- roupas que estão na moda; os homens seguem mais as tendências da moda do que se pode imaginar, até o Wall Street Jounal publica artigos sobre moda;

- quase todas as tonalidades de azul; branco; cinzento muito claro e muito escuro; preto integral;

- no perfume, as fragrâncias subtis e sofisticadas;

- golas em fatos e casacos;

- ser subtilmente invejados.


O QUE OS HOMENS PENSAM QUE GOSTAM (mas só nos filmes):

- Marilyn Monroe

- roupa avant-garde;

- saias justas e reveladoras;

- seios agressivamente expostos ou em bico;

- pestanas postiças;

- lingerie de sex-shop;

- perfumes almiscarados, orientais;

- saltos em prego;

- metros de franja preta ou folhos vermelhos em chiffon;

- acompanhar a mulher que esteja a ser o centro das atenções masculinas numa festa em que estejam os seus amigos.


Mas não se aflijam. Esclarece-se que as mulheres distintas, como nós, gostam de sexo. Muito. Simplesmente, não andam a alardeá-lo expondo carne.

O video é destinado apenas ao visionamento privado das senhoras elegantes.


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A instrução


Alguém sabe onde é que se vendem aqueles livros do principio do século passado que ensinavam as mulheres a serem donas de casa irrepreensíveis?

Preciso de instruir a criada.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Fitas






A Rainha Branca é uma chata.

Dá das pessoas de bom fundo o pior dos exemplos. O ar pretensamente dócil não revela senão uma criatura desenxabida e tonta.

As pessoas boas não são assim.
Salva-se a beleza do branco. Em tudo, menos na própria.


Gosto do Chess.
E do Chapeleiro, claro! A Alice também gostou.


Também queria um porco para descansar os meus lindos pés. E um exército à minha disposição. E um Chapeleiro ao dispôr.








Ódios de estimação


terça-feira, 9 de março de 2010

Tiques insuportáveis que o levarão ao sucesso (Primeiro Módulo)






O primeiro passo para o estrelato é comportar-se como uma vedeta. No início pode perder alguns amigos, mas saiba que não perderá nenhum que lhe faça falta.


Nos restaurantes:


- Nunca, mas nunca, aceite comer no McDonalds. Nem que a alternativa seja comer um lagarto assado numa tenda de berberes. Almoçar um hambúrguer sentada naquelas mesas de plástico americano só é desculpável em New York e se ninguém estiver a ver.
- Recuse-se a comparecer num restaurante sem ter reserva feita mesmo que seja a tasca da esquina que está sempre vazia. Verá como a sua vida muda a partir do instante em que se apresenta à porta do restaurante largando um confiante “tenho mesa para as dez!”.
- Exija facas adequadas para comer o bife e não se esqueça de pedir a carta dos vinhos mesmo que já saiba que só quer beber uma coca-cola light.
- Obrigue o empregado a recitar a lista das sobremesas. Além de o estar a ajudar na sua tarefa de memorizar o menu, quando voltar com amigos pode exibir-se demonstrando que conhece todos os doces da casa, fazendo-os acreditar que a sua boa forma é uma condição natural.
- Jamais beba uma simples água com gás. Encomende-a com limão e especifique o número de pedras de gelo que quer dentro do copo. Depois conte-as e se houver alguma a mais peça delicadamente uma chávena para colocar o excedente. É preciso disciplinar os empregados de mesa.


Em viagem:


- Leve sempre três malas. Se puder, faça questão de pagar excesso de bagagem, se não puder, leve-as vazias.
- Recuse-se a voar em low cost. De qualquer forma, com aquilo que o vão obrigar a pagar por cada uma das malas, não iria valer a pena. Verá como vai parecer muito mais credível da próxima vez que fingir que acha que a Ryanair é uma cantora de música pop.
- Chame a hospedeira ainda antes de o avião levantar voo e faça saber que precisa de um copo com leite. Se ela lhe disser que não tem, sugira-lhe que use os pacotinhos para colocar no café. Diz-me a experiência que um copo de leite equivale a dez pacotes.
- Mantenha-se atento. Dez minutos antes de iniciarem as manobras de aterragem exija uma mantinha e uma almofada dizendo que precisa de dormir uma sesta. Resista à tentação de roubar as mantas. Vendem umas no Continente por três euros que, com a vantagem acrescida de não se desfazerem na primeira vez que vão à máquina de lavar, não é preciso esconder quando recebemos amigos civilizados lá em casa.

Na rua:


- Se for abordado por um pedinte agradeça-lhe ainda antes de ele lhe pedir alguma coisa. Se ele insistir, diga-lhe que não se incomode porque não precisa de nada.
- Obrigue os outros a desviarem-se de si enquanto passeia nas ruas. Se não se desviarem, pare na frente deles com um ar aborrecido, durante todo o tempo que for necessário e espere que tomem a iniciativa de o deixar passar.
- Jamais compre/use um guarda-chuva. Render-se aos humores do S. Pedro pode ser o primeiro passo para fazer de si um derrotado. Você não é o Sinatra, logo, não tem nada que fazer na rua quando está a chover.
- Não fale ao telemóvel enquanto caminha. Atenda apenas para despachar a pessoa com um rápido “agora não posso falar porque estou a caminhar na rua”. O seu interlocutor pode parecer confuso mas o mistério faz parte do charme.
- Recuse-se a caminhar enquanto ouve música no ipod. Se pudesse ver a sua expressão de louco enquanto ouve uma música que não partilha, perceberia a razão.


Nota importante: Cultive todas estas manias mesmo que isso limite a vida dos outros ou, principalmente, se assim for.


Cuca

Os nazis não teriam perdido a guerra se eu estivesse nas Waffen-SS – ideias para casamentos.


Sou aquela pessoa que todos querem convidar para as suas festas, particularmente casamentos. O temor reverencial que provoco naqueles que melhor me conhecem é extático. Sou uma espécie de fasquia, um garante de qualidade. Para mim, a festa tem que ser, no mínimo, o máximo. Reparo em tudo. Mesmo. Ainda que esteja a exibir o meu sorriso simpático a vossa festa pode estar a ser um desastre para os meus parâmetros, por muito que dancem os convivas.

99.9% das festas de casamento são um martírio, não há-que negar. Raríssimas vezes não achei mal empregue o investimento feito na roupa, sapatos, mala, cabeleireiro e maquilhagem profissional.

Enfim,

a lagosta vai estar seca,

à homilia vai faltar inspiração,

vai estar calor demais, o que vai fazer com que os convidados se pareçam com quadrados de manteiga fora do frigorífico,

vão faltar flores nos toillets,

algum garçon vai apresentar os punhos da camisa dois tons de branco menos alvos que a toalha da mesa, outro vai trazer o salto do sapato cambado,

as frutas estarão arranjadas em esculturas zoomórficas patéticas,

não vão poder pagar a uma orquestra e o grupo musical vai acabar por tocar versões unplugged dos Gipsy Kings, ou o medley de música gravada vai incluir Gloria Gaynor.

Basta falhar um pormenor, se eu achar que é fundamental...

Se correr mesmo muito mal abandono a festa com aquele ar de enfado característico da esfinge e desenrolo um monólogo de meia hora na viagem de volta a casa pontuado de palavras como “fraco”, “pouco”, “demais”, “garraiada”.

O vosso casamento (nunca me convidem para a vossa “boda” num “salão para banquetes“!) pode ter-vos dado grande trabalho a preparar mas eu vou estar lá para reparar. Dir-me-ão: “mas não temos culpa que...” E eu responderei: “eu também não tenho!”

Convidar-me para o vosso casamento é estar uns furos acima, é um investimento naquilo que podem querer para o “dia mais feliz das vossas vidas”.

Vou com todo o gosto.

O Principezinho, Saint Exupéry



XXIII


- Bom dia, disse o principezinho.
- Bom dia, disse o vendedor.
Era um vendedor de comprimidos evoluídos que tiravam a sede. Toma-se um por semana e não é preciso beber mais.
- Por que vendes isso? perguntou o principezinho.
- É uma grande economia de tempo, disse o vendedor. Os peritos calcularam. A gente ganha cinquenta e três minutos por semana.
- E o que se faz, então, com os cinquenta e três minutos?
- O que a gente quiser...
"Eu, pensou o principezinho, se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, caminharia passo a passo, com as mãos nos bolsos, na direcção de uma fonte..."
Cuca

domingo, 7 de março de 2010

À procura de Alice



Terra, Lisboa, centro comercial Vasco da Gama.
Fila para entrar no parque de estacionamento. Quinze minutos para percorrer o equivalente a 100 metros e uma irritação crescente. Num acto de revolta gratuita misturada com estupidez teimosa decido ignorar a placa azul que me informa que o piso -1 está completo.
Claro que faço mal. As placas azuis têm sempre razão.
Mais quinze minutos a dez à hora dentro do parque à procura de um buraco. Os outros carros atrás de mim a apitar e eu a fazer um esforço para os ignorar. Aumento o volume do rádio mas a música é imediatamente substituída pelo som das ondas hertzianas vazias. Lembro-me que me roubaram a antena do carro.
Vislumbro aquilo que me parece ser um lugar vazio. Atravesso o carro em contra-mão. O som das buzinas não fica mais simpático. O suposto lugar vazio está meio ocupado por um Smart. Direcciono a minha irritação contra os Smarts cuja única esperteza é a capacidade de fazer de conta que não estão lá. Digo dois palavrões. Tecnicamente é um palavrão composto por duas palavras. Há que ser exacto.
Engulo o orgulho e faço o que a placa me mandou fazer quando cheguei. Desço um piso. Ignoro os lugares livres longe do elevador. Constato que não há lugares livres perto do elevador. Vejo uma velhinha aproximar-se de um carro e decido esperar. Afinal, atrás da velhinha vêm mais duas mulheres com duas criancinhas. Daquelas que é preciso enfiar numa cadeira e tapar com uma fralda e dar-lhes um urso para se calarem e esperar que mudem de disposição e aceitem ser sentadas numa cadeira. Mais dez minutos à espera que a velhinha e as outras duas e as respectivas crias se consigam arrumar dentro do carro para depois meterem uma marcha-atrás lenta e quase me baterem e finalmente deixarem o lugar vago. Continuam os apitos. A música no piso -2, sem antena, é uma quimera que se esfumou.
Finalmente, estaciono o carro e dirijo-me às escadas rolantes. Avariadas. Não rolam. Subo as escadas contrariada a olhar para as minhas botas de super herói e a perguntar-me porque não uso ténis como toda a gente. Vou empurrando as pessoas pelo caminho até conseguir chegar ao segundo andar. Descubro a zona dos cinemas pelo cheiro enjoativo a pipocas. Olho para as seis filas e espreito para ver se descubro qual tem delas tem um empregado com um ar diligente. Nenhuma tem. Os empregados têm uns tapa-sóis esquisitos e totalmente inúteis e parecem empregados da MacDonals. Faz sentido porque em vez de venderem bilhetes vendem comida.
Espero vinte minutos até toda a gente à minha frente estacar em cima do balcão indeciso entre o tamanho da coca-cola e do balde de pipocas e a marca dos chocolates. Maldigo o Cavalli que se se desse ao trabalho de experimentar as botas que vende, talvez só criasse os tais ténis que não uso.
As duas senhoras à minha frente têm uns cartões de desconto e querem usar qualquer coisa que não consta das regras do estabelecimento de comida onde, por mero acaso, também se exibem filmes. As senhoras recusam-se a pagar mais um euro e vão-se embora sem comprar bilhete, levando com elas um balde de pipocas para comer num dos bancos do centro comercial. Finalmente é a minha vez:
- Cinco bilhetes para a Alice no país das maravilhas. Dois de criança e três de adulto.
O drama adensa-se. Primeiro, a sessão das quatro horas está esgotada e os presumíveis culpados são os mesmos que me roubaram todos os lugares de estacionamento. Depois, é preciso saber a idade das criancinhas e eu não me lembro. A seguir, tenho que escolher os lugares da sala e a avaliar pelo ar piedoso da vendedora de comida nenhum dos disponíveis deve valer grande coisa. Decido ficar com os restos da sessão das seis horas, invento idades para as crianças e entrego o cartão multibanco à senhora. Ela diz-me que não com a cabeça. Na loja das pipocas não se aceita multibanco. Faz sentido, também ninguém paga uma fartura com cartão. A senhora dá-me antecipadamente os óculos 3D para me encorajar a voltar com o dinheiro.
- E o multibanco, onde é?
- Há um à esquerda, mas não deve ter dinheiro.
Pois. Não tinha.
Desço as escadas, empurro as pessoas à minha frente, driblo por entre casais de namorados. Choco com um multibanco. Espero que o homem que chegou antes de mim pague as contas todas do mês, analise os saldos disponíveis de três contas diferentes, levante 10 euros e se vá embora. Finalmente, lá consigo o dinheiro e subo as escadas. Outra vez avariadas…
Dirijo-me ao balcão passando por uma fila enorme de gente que me olha com um ar indignado. Estendo as notas na direcção da diligente senhora da bilheteira que faz o que pode para arranjar os dois lugares perfeitos para o casal à minha frente. Vê-me pelo canto do olho e começa a emitir os meus bilhetes. Atrás de mim uma senhora que não acredita em dietas resolve começar num berreiro por achar que lhe estou a passar a frente. Explico-lhe educadamente que estava mesmo à frente dela e que só saí para ir levantar dinheiro e que até tenho os óculos para lhe provar que já ali estive. A senhora, talvez a ressacar com falta de açúcar, decide não creditar em mim. Aumenta o volume do berreiro. Mostro-lhe os óculos para a acalmar mas, por qualquer razão, ela acha mais lógico que eu volte para o fim da fila por castigo pelo facto de na barraca das farturas não aceitarem multibanco. Recebo o meu troco e digo à senhora que ela tem razão. Que eu no lugar dela até pedia o livro de reclamações e tudo.
Encolho os ombros e passo, cansada mas vitoriosa, a exibir os bilhetes de entrada para o país das maravilhas pela fila de gente indignada que me olha como se eu tivesse cometido um crime.
Quanto à Alice do Tim Burton, o melhor é pedirem a crítica cinematográfica à Estrelita!
Eu diria o seguinte: A uma personagem que as más-línguas dizem ter sido inventada por um pedófilo só lhe faltava, depois de adulta, um noivo choninhas e uma espécie de paixoneta envergonhada pelo chapeleiro da rainha branca.
Concedo que o filme seja bonito e que valha a pena vê-lo. O problema é que agora que inventaram um sistema que nos permite sentirmo-nos dentro do Underland… já nem o Wonderland parece ser o que era!
Cuca