domingo, 31 de outubro de 2010

tens a coragem para deixar que te salvem?

Uma canseira...



Foi ali em cima, no AdLib, que Cuca e Estrelita decidiram repor as energias, depois de um extenuante dia, passado entre a luta pela sobrevivência nas águas termais do jacuzzi do SPA e o espancamento, levado a cabo por duas massagistas. Daquelas que são tão verdadeiramente tailandesas que, espero eu, não percebem uma única palavra de português.
Entre o carpaccio e o duo de bacalhau, depois de ouvir a descrição das actividades da tarde, a mais velha das filhas de Estrelita, percebeu o espírito da coisa e comentou:
- A vida dos adultos é mesmo muito difícil! Vocês estão sempre tão ocupadas!!

Khop kun ka, Estrelita.

O homem insuportável

Com o limite da má educação já largamente ultrapassado, fui obrigada a atender-lhe o telefone e a penitenciar-me com um jantar que já se adivinhava de profundo sofrimento.
Aproveitei o estado de espírito de voyeur de sinistrados de auto-estrada, para o deixar escolher o restaurante. Não fiquei surpreendida por ser a única cliente numa sala presunçoso-decadente que deve ter estado na moda há vinte anos atrás. Apelei à minha tolerância e fiz de conta que aquilo não era importante.
Logo que nos sentámos, a sádica gerente, talvez aborrecida por ter dois clientes, fez questão de lhe vir perguntar se foi ele quem telefonou às cinco da tarde a marcar uma mesa e informar-se sobre os detalhes da ementa. Recostei-me na cadeira para assistir a esse triste espectáculo que é um homem a tentar a todo o custo manter o disfarce cool, mesmo que, para tanto, tenha que se digladiar desajeitadamente com uma desconhecida que não se costuma enganar nestas coisas e não está suficientemente sensibilizada para admitir falsos equívocos. Apelei à minha tolerância e fiz de conta que aquilo não era ridículo.
A partir dali, foi mais ou menos como aquelas actuações dos rapazinhos dos Ídolos, quando se lhes rebenta a corda na guitarra.
Com a expressão de quem lê um manual de instruções numa língua desconhecida, resolveu fazer-me uma, não solicitada, síntese de um curriculum meticulosamente construído para culminar no retrato robot daquilo que se convenceu ser o meu homem de sonho.
E apesar da velocidade supersónica com que degluti o queijo e o presunto que me puseram na frente, ainda antes de ter terminado já estava informada de que o meu acompanhante tem qualidades tão relevantes como o facto de ser saudável e nunca ter tido uma doença nem sequer colesterol, não ter dívidas, ter uma casa já paga ao banco com um pequeno jardim que costuma regar nas tardes de Domingo, gostar muito de crianças e cães, ser primo e ou amigo de pelo menos trinta personalidades mediáticas, frequentar o ginásio três vezes por semana, ter dois mestrados em áreas que seria incapaz de reproduzir, ser a favor da divisão de tarefas domésticas entre os casais, ser contra essa coisa da homossexualidade e ser o tipo de homem que, além de acreditar em relações sexuais diárias, tem uma ex-mulher que acha que ele é bom na cama. E claro, sentir que a sua vida é óptima e gostar muito de si próprio.
Esta última parte, repetida três vezes, em estrutura de refrão.
O problema dos amigos dos amigos é que quando se comete a asneira de aceitar jantar com eles, perde-se a liberdade de, entre as entradas e o primeiro prato, beber o resto do vinho de um único trago, sair da mesa em absoluto silêncio, virar as costas e voltar para casa. Apelei à minha tolerância e fiz de conta que aquilo não era insuportável.
Esperei que ele se calasse, engoli o resto do presunto e olhei-o nos olhos com uma expressão roubada aos psiquiatras dos filmes americanos.
- Foi a tua mulher que te deixou, não foi? Trocou-te por outro?
Paguei a minha maldade com três agonizantes quartos de hora feitos de mesquinhos pormenores quotidianos da tragédia de uma separação, acompanhados por olhos vermelhos e voz genuinamente embargada.
Enquanto bebia sozinha a garrafa de vinho - além de ser manifesto que eu necessitava mais dela, também já se tinha percebido que ele gostava mesmo era de Sumol de ananás - tentei acabar com aquela miséria.
- Pois, pois, já percebi. É uma chatice! Nem vale a pena dizeres mais…
Ele desculpou-se, prometeu mudar de assunto e, para aligeirar a conversa, escolheu falar das doenças da mãe e de como o facto de ser filho único e ter que assistir a família o tem distraído do tal do desgosto do divórcio.
Apelei à minha tolerância, mas já não restava nenhuma.
E foi no momento da transição da rinite alérgica da senhora mãe dele para a descrição da operação às varizes que, finalmente, eu perdi o controlo.
Mandei-o calar com um gesto, levei as mãos à cabeça e dei por mim a murmurar para uma sala vazia:
- Tenho que sair já daqui! Não aguento mais isto!
Os meus amigos, amigos dele, concluíram que tenho uma extrema falta de tolerância.
(pintura de René Magritte)

Blue Train


E se, quando os minutos chegassem ao zero, a última hora fosse completamente apagada da existência? Toda a história de uma hora dissipada no vazio do tempo. E se os gestos, as palavras e as criações pudessem passar em voo picado na direcção do lixo cósmico?
Se toda essa hora se perdesse para sempre, deixando apenas o rasto de um espaço livre de consequências, tu poderias, finalmente, descansar a cabeça no presente e respirar o ar frio da verdade. O que lhe dirias? O que lhe dirias, nos teus sessenta minutos de liberdade?

sábado, 30 de outubro de 2010

Comédias negras

Nell: Nothing is funnier than unhappiness.
Nagg: Oh?
Nell: Yes, yes, it's the most comical thing in the world. And we laugh, we laugh, with a will, in the beginning. But it's always the same thing. Yes, it's like the funny story we have heard too often, we still find it funny, but we don't laugh any more.

Samuel Beckett, in Endgame

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Já não engano ninguém



Agarrei o meu sorriso complacente até à cãibra maxilar. Não me esqueci de pousar as mãos no colo, evocando uma plácida Mona Lisa. Mantive a voz pastosamente doce, num timbre próprio para adormecer carneiros. Turvei o olhar para lhe roubar firmeza, enfeitando-o com bondade telenovelística. Os passos foram suaves, entrecortados com uma ou outra nota de fingida indecisão. Os modos, de princesa russa que se alimenta a fabergés.
Encenei o choque perante os horrores da vida. O êxtase diante dos poucos finais felizes. A temperança conformada em presença da mediania.
Nos tempos mortos, espelhei a plácida felicidade dos patetas.
Fui perfeita na encarnação do meu papel. Mantive-o dia após dia. Fiz as vénias obrigatórias antes do cair do pano.
Ontem, o ingrato público cuspiu-me a crítica desenganada:
Pragmática.
(Esse terrível eufemismo para besta humana, com falta de sensibilidade e excesso de arrogância).

Depois de uma semana com o super mega bólide no mecânico...


... pagava para não saber o que é uma cambota, ignorar o que é uma polí, não ter noção do perigo de uma correia de distribuição em mau estado, desconhecer em absoluto o que significa ter os pistons desregulados e não conseguir detectar a má afinação das válvulas, e continuar furiosa e alegremente a manter as rotações acima das 3000!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Tecidos orgânicos



Quando te deitas sobre o teu lado esquerdo, nesse espaço que se forma entre o pescoço e a clavícula, guardas aquilo que, durante quase um terço da minha vida, foi a almofada em que dormi.
As almofadas são o talismã dos insones.
E, hoje, eu tenho uma desesperada necessidade de dormir.

hoje pinto as unhas de lilás

porque esta cidade continua a insistir em dar-me céus para coleccionar.






o esquadrão de mulherzinhas-cada-vez-mais-cabide.
de escuro. preto. cinza. marinho. algum verde, desde que lembre coisas sem vida.
no vestir, a idade das suas mães. um desperdício do tempo que não passou ainda.
couraçadas, armaduradas.
baratas de casca rija e riso amarelo, de olheiras cavadas a horas roubadas.

divertem-se a pintar-lhes “um telão sombrio e acabrunhante, a ondear entre o esconjuro espingardeado de demonizações avulsas e a promessa catastrofal do fogo dos infernos.”

todas as manhãs, antes de sair de casa, engolem um garfo de sobremesa.

Razões para amar uma Cidade



Aeroporto de Gatwick.

Cuca ligeiramente atrasada para o boarding. Confusão de casacos, colares, anéis e outras coisas apitáveis. O conteúdo integral de uma bolsa, acidentalmente aberta, espalhado num tabuleiro. O detector de metais aos gritos. O polícia olha desconfiadamente para as botas de Cuca e decide que, my dear, vai ter que as descalçar.

Cuca é o rosto da infelicidade enquanto explica ao senhor que, no way, it´s not possible, porque demorou meia hora a enfiar as calças lá dentro, antes de sair do hotel.
Cuca levanta a perna para demonstrar ao senhor polícia, Sir, a dimensão do problema.
O polícia pergunta a Cuca se não é possível descalçar as botas e depois deixar as calças por cima das botas. Cuca levanta a outra perna para explicar que não, que são demasiado apertadas para ficarem por cima das botas e que, ainda por cima, well, não ficaria bem.
O senhor coça a cabeça enquanto pensa numa solução.
Não lhe ocorre nenhuma.

Ok my dear, have a nice flight.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Um Gelado No Inverno

Um gelado no inverno

Querida compreende a minha ilusão
e pensa que sou um gelado no inverno
que doce cabeça vazia a alimentar
salas de espera com conversas
sentadas no disparate imobiliário
e tu vens lamber o meu juízo em ruínas
na margem onde se instala o lobo à espera de comer
uma das tuas bonecas de trapinhos sentimentais
oh que solidão formidável quando o quarto está cheio
e a cama composta de teias de aranha
porque o amor é uma lição que não se aprende
quando o coração é um balde de despejo inútil
e tu perdes a vida em troco da frontalidade
e a minha escrita vive destas mortes
vestidas para viver na ilusão
eu sei eu sei tu és a prendinha da consciência
para meninos de gostos integrais
e depois tanto barulho tanto barulho meu deus
deves estar louca ou apaixonada
pelas moscas que cantam no silêncio.


Poemas, Fernando Esteves Pinto

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Frio

A cura clínica é o estado que se atinge, não apenas quando as lesões desaparecem, mas também quando se tornam insusceptíveis de melhoras, ainda que com terapêutica adequada.
Este Outono parece-me mais quente que o Outono passado. E incomparavelmente menos gélido que o do ano anterior.
E embora não falte quem garanta que isso se deve a uma ligeiríssima alteração climática, eu decidi que é um sintoma do aumento da minha capacidade de retenção do calor.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Protecção solar

Ele: No fundo é como se te escondesses atrás de uma personagem…
Ela: É. É capaz de ser parecido.
Ele: Mas qual é o interesse de viver assim?
Ela: Viver uma vida bonitinha, obviamente

sábado, 16 de outubro de 2010

Um homem com esperança

A esperança é a trela da submissão”
Raol Vaneigem

Em meados de Março, quando tudo aquilo se tornou maior do que ele, inventou um pretexto socialmente aceitável e dispôs-se a fazer quinhentos quilómetros, apenas para a ver.
Na entrada do centro comercial deteve-se por uns minutos, incrédulo com o facto de ela não ter tido a ânsia, deferência ou, pelo menos, gentileza, de o esperar à porta.
Na verdade, não era nada que não estivesse em total coerência com a gélida conversa telefónica que antecedeu aquele encontro. Ele precisou de vinte minutos e toda a sua capacidade persuasiva para a convencer a emprestar-lhe a sua boa vontade na concretização do propósito da viagem.
Ao telefone, ela mostrou-se tão ausente e desconcertante como era habitual, adiantando como justificação para a impossibilidade de tomar um café com ele o simples facto de não lhe dar muito jeito e não ter sido antecipadamente avisada daquela viagem. Ele esforçou-se por esconder o desapontamento e a humilhação que se seguiram, quando, finalmente, num discurso em que a palavra hipoteticamente foi utilizada cinco vezes, ela o informou que o acontecimento “vê-la” vinha associado a uma interminável lista de condições que teriam que ser expressamente aceites.
Foi assim que deu por si a jurar solenemente que não lhe dirigiria uma palavra sobre os seus sentimentos, que não a tentaria beijar, que nem sequer lhe tocaria e que o único tema sobre o qual falariam seria literatura.
Como se não fosse suficientemente humilhante, para um homem com mais de quarenta anos e com uma mulher e um filho em casa, sujeitar-se a estas cláusulas contratuais, ela fez questão de lhe mostrar que o considerava um louco perigoso, exigindo-lhe que o encontro se desse num local tão público como um restaurante de um centro comercial, num sábado à tarde.
Num optimismo infantil, que ela qualificou como despropositado, ainda lhe pediu que o fosse buscar a um famoso café na baixa de Lisboa. A resposta que o atingiu foi um seco “Lamento, mas não sou o tipo de mulher que vá buscar homens a cafés. Terás de vir de táxi, apanhar o metro ou fazer os três quilómetros a pé.”
Depois de uns minutos de espera, já à porta do centro comercial, foi obrigado a desfazer-se da imagem mental que o aqueceu durante o último mês, e que envolvia uma corrida para um abraço apaixonado, num reencontro íntimo e inesquecível, preferencialmente debaixo de chuva, em plena rua de Lisboa.
Abanou a cabeça e entrou no centro comercial à procura dela.
Quando a viu ao longe, sentada em frente a uma chávena vazia e a brincar com o telemóvel, apesar de o coração ter disparado ao nível da taquicardia, sentiu um misto de alívio por, sem o vestido institucional que tanto o intimidou, ela ter o confortável aspecto de uma qualquer outra mulher. No seu contexto, uma mulher tangível.
Ela só desviou os olhos do telemóvel quando o sentiu a vinte centímetros de distância, a respirar-lhe no pescoço. Sem se dar ao trabalho de se levantar, estendeu-lhe o lado esquerdo do rosto, usou a mão direita para estabelecer, instintivamente, um espaço de segurança física entre ambos, e apontou-lhe a cadeira vazia na sua frente.
Aquela confortável imagem de normalidade que o encheu de esperança e auto-confiança, foi como uma miragem que se desfez com a proximidade. Com o vestido sofisticado ou de camisa branca e jeans, ela continuava a intimidá-lo. A perturbadora intangibilidade não estava na qualidade da seda do vestido. Vinha de dentro.
Tentou fazer uma graça com o facto de estar a tremer como um miúdo de dez anos, mas ela olhou-o fixamente sem se rir. A primeira frase que lhe dirigiu foi uma ameaçadora síntese das condições contratuais da sua presença.
Meia hora depois, a necessidade de lhe despejar os seus sentimentos impôs-se à vontade de evitar que ela se levantasse e fosse embora.
Enquanto ela lhe falava de literatura em tom de crítico de jornal, ele pediu-a em casamento.
Sem se dar ao trabalho de o lembrar que ele já era casado, ela continuou a falar-lhe de literatura, fazendo, em presença, aquilo que nos últimos meses se tinha especializado a fazer por correspondência, ou seja, exibindo uma profunda indiferença e surdez diante da exteriorização dos sentimentos dele.
O encontro durou pouco mais de uma hora. Quando ele insistiu em segurar-lhe as mãos de encontro ao tampo da mesa, olhando-a nos olhos enquanto repetia uma lenga-lenga de clichés românticos, percebeu que aquilo que o olhar dela lhe devolvia era muito mais do que impaciência e frieza. Estava verdadeiramente zangada. Daquela forma horrível que só conseguem as mulheres a quem o amor dos outros as ofende.
Ela recuperou as mãos num gesto violento e colocou-se imediatamente de pé.
- Não sou uma personagem dos teus livros.
Sozinho, com o vazio do espaço dela como cenário, ele encontrou naquela frase a esperança que nos últimos seis meses lhe foi negada.
Desde que se seja absurdamente insistente, há mais do que uma maneira de se ter os direitos de autor sobre a vida de quem se ama.

Voltou para casa e transformou-a na personagem de um dos seus livros.

For Estrelita, with love


Querida amiga,
Se olhares para o canto superior direito deste blogue (mais acima… sobe o cursor!) encontrarás uma lista sob a epígrafe “contribuidores”.
Nessa lista está escrito “Estrelita”. Tu, querida amiga, não te lembras, mas és a Estrelita. O que faz de ti contribuidora deste blogue.
Por definição, um contribuidor é aquele que contribui.
Sei que gostas deste estatuto free-lancer que te permite resumir as tuas aparições a desempates de radicalismos entre mim e a Medusa e a exibições públicas de despudorada paixão doméstica (não confundir com domesticada).
Sucede que eu me apercebi que a tua infame preguiça anda a ser confundida com “recato”, elevando-te ao estatuto de a criatura mais mítica.
Desculpar-me-ás, mas tu, melhor do que ninguém, sabes que sofro de súbitos ataques febris quando sou ignorada e que reajo pessimamente ao facto de alguém ser “a mais” – nem que seja a mais lunática – numa lista na qual eu voluntariamente me incluí.
E são estes os fundamentos da decisão – repara na estrutura do post: relatório, fundamentação, dispositivo – nos termos da qual tu passarás a contribuir.
Isto dos blogues é exactamente como os impostos. Ou seja, como todas as três sabemos que te ensinaram nas aulas de finanças públicas (o professor era aquele que punha a língua de fora, era! O teorema de cujo nome não te lembras é Havelmo, é!), há os contribuintes directos e os contribuintes indirectos.
Todos aqui estamos conscientes, porque eu passo a vida a apregoá-lo, que a liberdade de escolha é a minha máxima individual. Como tal, ofereço-te gentilmente a liberdade de escolher entre o estatuto de contribuinte directa ou indirecta.
No entanto, é meu dever informar-te que, na qualidade de contribuinte indirecta, inspirarás longos e inesquecíveis posts nos quais serão mencionados os seguintes países: Itália; Luxemburgo; Tailândia (sim, sim, leste bem, estou a ameaçar-te com a Tailândia). E isto, apenas na primeira fase, dedicada à história mundial. Seguir-se-á um outro módulo, dedicado à história nacional.
Certa (oh, certíssima!) das tuas breves notícias, despeço-me com elevada estima e consideração (Tailândia, Tailândia, Tailândia).
Tua
Cuca

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Correio dos Leitores

"Sendo presença recente neste espaço sideral, não sei se terei o direito a opinar da forma que o irei fazer. Mas, considerando que a porta (vulgo, caixa de comentários) se mantém aberta, e talvez porque tenha bebido um pouco acima da conta à hora do almoço – caso raro, mas não impossível –, soltarei o verbo. Perdoem-me as acrobacias de forma e modo. Tenho, no entanto, como fonte primária de inspiração as abordagens gastronómicas desse poço de sapiência, loquacidade e verborreia que é José Quitério.

Saibam vossas senhorias o quanto me tem sido agradável ler as palavras que derramais. Mas eis que o deslumbramento se inicia logo na nomenclatura das intervenientes.

Medusa, sendo a única que remete para galáxia e nebulosas – em forma de alcunha, é certo, e que cada um depreenda deste particular o que entender –, demonstra toda a sua insanidade em passeios nocturnos, em que protagoniza vários arrufos consigo mesma. Já se revelou íntima de Baco, Vénus e Afrodite, pelo que parece ser a que mais está em contacto com Eles. Todos. Influente, alardeia de tal forma a sua deliciosa arrogância que é carinhosamente apelidada pelas restantes como alforreca manhosa. Aparece em primeiro lugar por, precisamente, ser dada a subidas ao púlpito (cento e catorze intervenções ou garantem lugar no Olimpo ou permitem caracterização via anglicismo: big mouth). Em todo o caso, se a sua boca for tão feliz como as palavras vertidas por seu punho, temos beldade.

Cuca pertence, tal como o próprio nome indica, ao imaginário de todos nós. Não sendo marmelada de banana, bananada de goiaba ou goiabada de marmelo faz lembrar, no entanto, as tigelas do último, guardadas por minha avó: cobertas com papel vegetal previamente embebido em aguardente, acumulavam aí todo o seu bolor. Retirada a folha – que consigo transportava o fungo acumulado –, vislumbrava-se a cor brilhante e apetitosa do manjar caseiro. Sofrida e um tanto ou quanto dada a oscilações de humor, cultiva com carinho o apreço por desportos tão radicais como a insónia e a enxaqueca. Tendo como melhor amizade um extraterrestre que responde pelo estranho nome de Le-xo-tan (porque não Jor-El ou Obi-Wan Kenobi, indago), Cuca apresenta alguma tendência para a indignação em relação ao sexo oposto pelo que, no mesmo, só poderá provocar um misto de estranheza e vontade de transmitir afecto (a saber, colinhos e tau-tau). Ao contrário de Medusa - e pelo que este vosso humilde servo tem notado -, nunca foi a dita alcunhada pelas demais. Caso me não tenha equivocado, fica a sugestão: lagartixa. Termino, repetindo a graça feita à criatura mole e viscosa: tenha por fisionomia a elegância que imprime à escrita e certamente não lhe faltarão malgas onde verter a sua marmelada.

A Estrelita, sendo a mais recatada, acaba por ser a única verdadeiramente mitológica. Esquiva, parcas nas palavras, das duas, uma: ou sofre de Alzheimer e sempre que tem inspiração para um post, olvida-o; ou então é de tal forma misteriosa que até o disfarce em forma de diminutivo popularucho cria um efeito de halo que não consigo definir. É, definitivamente, a mais estranha das três criaturas. Faz-me lembrar também cereais que se misturam com o leite, que são muito do meu agrado.

Escreveria mais, mas meu fígado guincha. Agradeço-vos a liberdade, pois há muito tempo não escrevia (assim). E curvo-me em sinal de reconhecimento e gratidão, por tanto rir e sorrir à conta das vossas chuvas de meteoritos e estrelas cadentes.
Com a mais elevada consideração,
Noodles"

género

Em Lx, o céu é feminino.


Em instantes passou disto...










Para isto.


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Conclusões tardias


"No dia em que te disser que tenho saudades, ou estou apaixonado por ti, ou estou a mentir".

Notícias do Chile

Enviou uma mensagem a pedir a comparência da amante no momento do resgate. À chegada, tinha à sua espera a esposa, a solicitada amante e um dos trinta e três terços benzidos, enviados pelo Papa.
Em Fátima, diz-se que foi um milagre daquela senhora que gosta de se exibir nos dias 13 dos meses de Maio e Outubro.
Em Aljustrel, um especialista em resgates decidiu, por mera observação empírica das imagens transmitidas, que há algo que está a correr muito mal no salvamento e que há vidas em perigo.
Eu acho que a única vida em perigo é a do mineiro adúltero.
Foram os primeiros quarenta minutos do noticiário da SIC, mas ameaçam continuar.
p.s. agora estão entretidos a contar mineiros.
p.s.1 está um psicólogo no estúdio que, quer-me parecer, nunca ficou trancado num elevador.

silk-chiffon


descalça.
já soltou os cabelos e vai sair: RUA!
de maçã reineta na mão direita.
e na esquerda: um tufo de cabelos.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

É aqui, é!

Este post é dedicado à pessoa que chegou aqui através da pesquisa "Mau gosto" no Google:
Caro leitor,
Não percebo porque é que ficou só três minutos.
Estava no sítio certo. E teve tempo suficiente para perceber isso.
Volte sempre e obrigada.

O que diz Medusa


“Parece que estamos aqui desde sempre”
Um mito urbano para quem nunca o viveu. Um logro para os deslumbrados que pensam vivê-lo todos os primeiros quinze dias de cada nova paixão. Uma fortuna para os que o vivem e lhe sobrevivem.
Uma incapacitação para os que o vivem mas concluem que, se calhar, estarmos aqui desde sempre só significa que está na altura de conhecer outras pessoas.
Em todo o caso, a garantia que, uma vez vivido, todas as outras formas de presença são meras luzes artificiais.
Conheci inúmeras formas de amor. Anos antes e anos depois. Mas acabo sempre por concluir que só conheci uma forma de verdade.

to know a heart by heart


A.

Há sentimentos entre almas que, pelo menos, alvitram um certo determinismo para se encontrarem e para estarem juntas. E para se quererem bem. Esses corações vivos desconhecem a datação consciente da sua fusão e, quando se olham nos olhos, apenas conseguem dizer “parece que estamos aqui desde sempre”.

O carbono-14 é um isótopo radioactivo natural do elemento carbono, recebendo esta numeração porque apresenta número de massa 14 (6 protões e 8 neutrões). Este isótopo apresenta dois neutrões a mais no seu núcleo que o isótopo estável carbono-12. Entre os cinco isótopos instáveis do carbono, o carbono-14 é aquele que apresenta a maior meia-vida, que é de aproximadamente 5.730 anos. Nos processos radioactivos, meia-vida ou período de semidesintegração de um radioisótopo é o tempo necessário para desintegrar a metade da massa deste isótopo, que pode ocorrer em segundos ou em bilhões de anos, dependendo do grau de instabilidade do radioisótopo. Ou seja, se tivermos 1.000 kg de um material, cuja meia-vida é de 1.000 anos, passados esses 1.000 anos teremos 500 kg deste material. Mais 1.000 anos volvidos e teremos 250 kg e assim sucessivamente. No caso do carbono-14 a meia-vida é de 5.730 anos, ou seja, este é o tempo necessário para uma determinada massa deste isótopo instável decair para a metade da sua massa, transformando-se em nitrogénio-14 pela emissão de uma partícula beta.

A datação por carbono-14 é aplicável à madeira, ao próprio carbono, a sedimentos orgânicos, a ossos ou conchas marinhas - ou seja, todo material que conteve carbono em alguma de suas formas e o absorveu, mesmo que indirectamente - como pela alimentação com organismos fotossintetizantes - da atmosfera. Esta absorção acontece em toda a vida humana.

Pudesse aplicar-se aos corações vivos unidos a datação por carbono-14 e aqueles poderiam precisar o sussurro dos seus olhos, substituindo o assombroso “desde sempre” por uma data, ao menos, aproximada.


B.

O carbono que compõe os corações vivos também é diamante – que é uma forma alotrópica daquele e que é o mais duro material de ocorrência natural que se conhece, com uma dureza de 10 (valor máximo da escala de Mohs). Isto significa que não pode ser riscado por nenhum outro mineral ou substância que possua uma dureza inferior a 10. No entanto, é muito frágil, devendo-se essa característica à sua clivagem octaédrica perfeita. Estas duas características fizeram com que os diamantes não fossem talhados durante muito tempo.

Bem assim, existem corações que permanecem em bruto durante vidas. Que apenas se riscam com corações de igual dureza mas que, apesar das aparências, são muito frágeis.

oh well...!


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Anti-Neutralizações

O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é o inferno, e fazê-lo viver, dar-lhe lugar.

Italo Calvino "As Cidades Invisíveis"
Citação roubada ao blogue “Apetecia-me Um Blogue”, aqui postada a propósito de uma conversa, em forma de videoconferência, na qual duas pessoas razoavelmente optimistas se confessaram completamente fartas das outras pessoas.
Embora concorde com o diagnóstico (o inferno é termos que viver todos juntos) o remédio soa-me vagamente à bula daqueles comprimidos homeopatas para a constipação.

domingo, 10 de outubro de 2010

Existencialismo de armário


O meu hipotálamo reage maravilhosamente ao acto de gastar um terço de um salário num casaco.
Há pessoas que gostam de se drogar, outras gostam de roubar ou de matar. A mim, só me deu para isto. Acho que, no fundo, até devo agradecer pela fraqueza que me calhou em sorte.

sábado, 9 de outubro de 2010

Neutralizações

Passei a semana sentada numa sala a ouvir descrições bárbaras, capazes de fazer vomitar de nojo o mais empedernido dos pais de família. No final, tinha um papel branco com rabiscos cheios de fórmulas matemáticas. Dividi a culpa por trezentos e sobrou mais um. Toda a gente se comportou como se fizesse sentido traduzir o horror num número.
Saí da sala com o mesmo estado de espírito com que entrei.
À força de tanto o ouvir, também neutralizei Puccini.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

hortelã

Sempre estranharam o meu paladar. Gostos estranhos. Ainda não conheci combinação que me assustasse. Agridoces; ácidos, açucarados. Amargos, ardentes, ardidos, azedados e azedos. Condimentados, doces, dulcíssimos, insípidos, melados, salgados.

Mas quando, numa tarde destas, me invadiu um sabor a hortelã fresca acabada de arrancar, quase enlouqueci - e vi Granada ao sol, pressionada por uma temperatura impossível de 43º. Um quelho imundo onde se encontra uma sala mudéjar escura, cave cheia de fumos, de copos de chá gelado e vidrilhos e azulejos coloridos aos pedacinhos. Olhei por mim abaixo e era só dourado. Só dourado e tecidos de cores brilhantes, tecidos pelo demónio ele próprio.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Medusa deseja ferozmente cravar as unhas nisto


(...) A sua belíssima serigrafia deu toda uma manhã luminosa a este tugúrio que anda a ser o meu espírito. Retirados os oceanos, parido o vácuo sideral, esta ausência de tempo – o Tempo – está para obras como a sua, neste sentido em que a mais lata condição de eternidade é JUSTIÇA! e não ajustamento. Estou a dizer-lhe que amo, realmente, a sua pintura, obra diabólicA (o diabo que é macho-fêmea encarnou com o meu dito) de não estar já no humano e ser, em contra-esfera todo o sentido humano. Aqui lhe explico, me explico, o silêncio a que a sua obra obriga – esta, uma das suas belo-horríveis qualidades – ela é Verbo – bruxaria, às vezes! – o seu poder irradiante exige, mesmo quando dá. Vai-me dizer que isto é literatura e eu sou o primeiro a escrever-lhe que sim. Plagiando, com não pouca pretensão, o Nietzsche das estrofes finais do Zaratustra («Porque eu amo-te, eternidade»!), o a mais que sei dizer-lhe, com licença do cosmos e do Arpad, é: «Porque eu amo-te, Vieira da Silva»!
(...)
Lx.Janeiro.59

Grandes Filósofos

I think you're obstipated... in your fucking soul... I think you might have a really big load of grumpy petrified poop up your soul's ass.


Penelope Stamp, in Os Irmãos Bloom

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O percurso do vício

Euforia. Sentimento de culpa. Desvanecimento da euforia. Auto-interrogação. Confronto com a consciência. Arrependimento. Mortificação. Desvalorização progressiva. Desculpabilização total. Impulso. Controlo. Obsessão. Fuga ao confronto com a consciência. Interiorização da impotência. Descontrolo. Desistência. Abandono. Euforia.
And so on…

sardinha de ar exótico

domingo, 3 de outubro de 2010

Amigo:

Qui saudajé di ocê!
Veio a chuva bater-me de encontro aos vidros e roubar-me duas das minhas cinco horas de sono. O mar lá fora, tem muito menos graça, assim cinzento, da cor das nuvens e da minha massa encefálica que se estende e encolhe numa espécie de cólicas cerebrais a que algumas almas menos metafóricas chamariam dor de cabeça.
Os meus desajustados vizinhos tiveram a ideia de fazer uma festa no jardim. Até que o porteiro se apiedasse deles e lhes abrisse a porta da sala do condomínio, vieram prostrar-se à minha janela, de braços cruzados, a olhar a piscina com ar amuado. Não houve música mas deve ter havido um bolo que adivinho com a forma de um campo de futebol. Vi duas crianças espreitar para dentro da minha sala e fugir aos gritos quando lhes fiz o meu melhor sorriso de bruxa. Foi o sucedâneo da actuação dos palhaços que alguém se esqueceu de contratar.
Fiquei a pensar que, para se fazer uma festa, talvez seja preciso mais do que vinte pessoas, um aniversariante e um bolo em forma de campo de futebol. Para se fazer uma vida talvez também seja preciso mais do que vinte pessoas, um protagonista e um bolo em forma de girassol. Pelo sim, pelo não, convém sempre lembrar-nos de contratar palhaços.
Acho que foi no encadeamento desse raciocínio que me lembrei de ti e me dei conta que se não tivesses desertado deste país miseravelmente aborrecido, hoje seria mais um daqueles dias em que eu te telefonaria apenas para te pedir que me contasses uma piada.
P.S. Se este postal tivesse lógica, ou não era eu a remetente ou não serias tu o destinatário.

perdoa


quando adormeceste, depois do almoço, com os teus cabelos enrolados nos meus e o teu rosto redondo e cor-de-rosa na penumbra do quarto, pedi-te perdão tantas, tantas vezes por não ir ver os teus olhos a brilhar com os peixinhos neste final de tarde.

sábado, 2 de outubro de 2010

Pragmatismos

Não é que eu seja totalmente imune a esse jogo psicológico que consiste em desaparecer-se repentinamente da vida de alguém, para testar os resultados.
É que, no meu caso pessoal, tais ausências têm o efeito colateral de me fazer perceber que não sinto a menor falta do desaparecido.

postcard

Esta tarde,
ao atravessar de um quarteirão para outro, quase distraída,
o sol - que já ia baixo, laranja e derretido -
encheu-me o rosto, que sentiu o morno.

Com a pele tua.



sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Massas argilosas para tapar vasilhas que queremos fechar hermeticamente

luto
s. m.
1. Sentimento, pesar (pela morte de alguém).
2. Dor.
3. Traje de dó.
4. Massa argilosa para tapar fendas das vasilhas que queremos fechar hermeticamente.
In, Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Poucos dias depois de tu teres morrido, decidi juntar às minhas noites brancas as tuas fotografias.
O resultado foi um filme deprimente em que te obriguei a desfilar pelo mundo inteiro, ao ritmo dos acordes de Coldplay.
Por fim, observar-te calado e sorridente, nos tons de sépia e preto e branco (que nunca foste) estava ao simples alcance de um botão “Start”.
Por fim, atingiste a plácida perfeição exclusiva dos mortos.
Nos últimos cinco minutos do filme, colei todas as fotografias em que dançaste comigo, num bailado intercontinental a culminar nessa apoteótica noite de Istambul da qual nunca nenhum de nós dois conseguiu voltar.
O teu filme de defunto foi o uniforme negro que colei ao corpo para substituir o luto que me neguei.
Um dia carreguei no Stop e escondi o filme dentro de uma pasta no computador.
Ontem senti saudades de te ver desfilar pelo mundo inteiro, sorridente, calado e finalmente perfeito.
Quando fui à tua procura, descobri que o computador, na minha ausência, te eliminou dos meus ficheiros.
Acho que já sei o que sentem aquelas viúvas que, uns anos depois, vêem os restos dos maridos transferidos para um insignificante ossário.