segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

furtos literários


Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos melhores esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas) saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.
Só Deus sabe porque amamos tanto isso.
Michael Cunningham, in, As Horas, gradiva

Marionetas

Somos a excêntrica fantasia do outro que se desenvolve na imaginação de um lugar ocupado a espaços intermitentes.
Como não somos reais, não existimos e nem sequer pesamos, estamos libertos da obrigação de fazer sentido.
Somos marionetas dos nossos desejos, presos entre duas dimensões que se sustentam na intangibilidade.
Mas foi num calendário real e deste mundo que hoje contei os dias que me separam de ti.

domingo, 30 de janeiro de 2011

(...)

In parting.— Not how one soul comes close to another but how it moves away shows me their kinship and how much they belong together.


Friedrich Nietzsche

O equilibrismo aplicado às relações


O segredo do equilibrismo é a sincronia absoluta entre o espaço e o tempo. Um gesto fora do segundo certo pode precipitar uma queda no abismo. Nas cordas mais estreitas o acerto dos movimentos só se consegue obter através do esvaziamento cerebral. É preciso manter um balanço constante e contínuo em que o ritmo é ditado pelo posicionamento do corpo e a mente se demite de qualquer outra actividade que não seja a de fazer adaptar o espaço ao tempo.
É por isso que não se pode parar, observar o abismo debaixo dos pés, ou tecer concepções lógicas sobre a actividade que se está a desenvolver.
Medir os riscos, quando já se está em cima da corda, tem tanto de inútil como de perigoso.

Antony and The Jonhsons



I am a bird girl now
I've got my heart
Here in my hands now
I've been searching
For my wings some time
I'm gonna be born
Into soon the sky
'Cause I'm a bird girl
And the bird girls go to heaven
I'm a bird girl
And the bird girls can fly
Bird girls can fly

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Telefonemas do inferno

Havia um telefonema que eu não queria atender.
Atendi-o ontem.
Pela voz entusiasmada do homem dir-se-ia que eu tinha ganho uma casa num daqueles sorteios de enciclopédias que não estou certa que existam.
E mesmo não tendo havido sorteio algum, nem eu tendo comprado enciclopédias, o homem não deixou de me anunciar uma nova casa. Numa nova cidade. A muitos quilómetros de todos os meus lugares.
Será a minha 14.ª casa. E suspeito que jamais venha a ser um lugar meu.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ascensões e quedas


Foi numa tarde de Agosto, em Veneza, que vivi o mais próximo daquilo que se costuma chamar uma experiência mística.
O santo padroeiro da trip foi Giovanni Antonio Fumiani.
Atrasada para um almoço tardio com uns amigos, acabei por me desorientar nas praças de Veneza e perdi-me. Se não se desse o caso de ter sido apanhada por uma súbita e improvável tempestade de verão, dificilmente teria entrado na igreja de St. Pantalon. Inexplicavelmente, não vem na maior parte dos guias turísticos e o aspecto exterior da igreja não é convidativo. Para mais, St. Pantalon é uma igreja com serviço religioso regular, menos frequentada por turistas do que por velhos paroquianos.
Quando entrei na igreja com o único objectivo de evitar que a chuva me estragasse a maquilhagem, aborrecida e atrasada, fui imediatamente esmagada por Fumiani. Tive uma ligeira sensação de desmaio, sentei-me no primeiro banco que vi e passei os quarenta minutos seguintes com os olhos fixos no tecto, num estado de semi-nirvana.
Fumiani pintou a subida das almas ao céu através do tecto da igreja. Mas pintou-as de uma forma tridimensional, com um movimento frenético e um ritmo tão intenso que, logo que se entra, é-se assolado pela visão de um corropio de almas em hora de ponta que escolheram o tecto de St. Pantalon para o momento da ascensão.
Sugestionado, o meu cérebro convenceu-se que também eu estava morta e desencadeou um processo pavloviano de libertação de qualquer coisa que temo que fosse a minha alma.
Foi a única vez que a senti.
Fumiani nasceu em 1645 em Veneza, andou por Bolonha, pintou algumas coisas de que nunca ninguém normal ouviu falar e depois voltou para Veneza onde passou vinte e quatro anos a pintar o tecto que quase me desalmou. A poucas pinceladas do final, diz-se, desequilibrou-se enquanto pintava, caiu do escadote e morreu. Está lá enterrado até hoje.
Quando a minha alma estava quase a ver-se livre de mim apareceu um padre antipático que correu comigo para fora da igreja e terminou abruptamente o processo de ascensão aos céus.
Só espero que, se tiver mesmo uma alma, coisa que ainda não decidi, a interrupção selvagem não lhe tenha provocado nenhum trauma que a aprisione para sempre neste mundo de gente doida. Ou que, tendo-se habituado ao melhor, insista em só ascender através do tecto de Fumiani.
Pelo sim, pelo não, recuso-me a morrer fora de Veneza.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Presidenciais


Disseram-me que ontem decorreram umas eleições para presidente da república. Ou isso. Não é totalmente inverosímil. Quando saí à rua para o meu passeio matinal de Domingo havia menos cães pela trela e mais gente vestida como se fosse à missa.
Expliquei logo que esse assunto não me interessa nada.
Descobri recentemente as vantagens de viver em negação e tenciono elevar o estado de graça ao nível da desorientação geográfica. Para todos os efeitos, eu vivo em Los Angeles, Malibu, em frente à praia onde atléticos adolescentes em rollerblades se cruzam com descapotáveis conduzidos por trintões com o nariz operado.
O meu presidente não pode ter vindo de Boliqueime. Nasceu em Honolulu e chama-se Barack Hussein Obama.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Excesso de bagagem

Se eu traçasse o mapa de todos os meus sítios e tu traçasses o mapa de todos os teus sítios e juntássemos os dois para, assim, obter um mapa mundi ocupado por forças alienígenas, ainda haveria uma Suíça onde nos pudéssemos exilar?
E se houvesse essa Suiça e se nos deixassem viver nela e se nos exilássemos um no outro, o que faríamos das histórias que não poderíamos levar connosco por pertencerem a outras pessoas?

O preço do amor

Estive uma boa parte do meu dia a ouvir os boleros que comprei ontem numa daquelas lojas francesas que também vendem televisões. Passar várias horas embrenhada na melancolia dos boleros é uma terapia preventiva anti-amor semelhante àquelas sessões de hipnose que fazem com que se enjoe o tabaco. Na luta contra Eros, a criança assassina, devemos rodearmo-nos de armas insólitas porque, como se sabe, igualmente insólitos são os seus mais temíveis ataques.
Além do mais, cinco euros parece-me um justo preço a pagar por todas as histórias de paixão profunda, traição, ciúme, amor, ódio e saudade que vêm lá dentro da caixa.
Dei por mim a pensar que o justo valor de mercado do amor, mesmo fora da caixa dos CDs, não será muito diferente.
Cinco euros. Nem mais um cêntimo.

sábado, 22 de janeiro de 2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

pressinto que estou a arranjar desculpas para fazer asneiras

Sou uma especialista em protecções. Estudei todas as formas possíveis de evitar o sofrimento, o desgosto e a decepção. Testei com êxito a maior parte delas. Desde a mais ligeira escoriação na pele à mais profunda devastação de alma, pouco haverá que não se consiga evitar com a adequada protecção.
Excepto, claro, o dano que resta pela perda da vida que as protecções nos impedem de viver.

domingo, 16 de janeiro de 2011

é preciso regressar a Paris


Viens, fais la fête
Viens dancer toujour
Célébrer l'amour

Séche tes larmes
Regarde autour de toi
Souris a n'importe quois

Il faut toucher les choses
Bois ton vin
Sens tes roses

Suis les mots, du poète
Prends la vie
Fais la fête

Viens, vis la valse
Vis l'éclat des jours
Viens chanter l'amour

Ouvre tes portes
Reçois la vie chez toi
Gonfle ton coeur de joie

Il faut toucher les choses
Bois ton vin
Sens tes roses

Suis les mots, du poète
Prends la vie
Fais la fête

sábado, 15 de janeiro de 2011

Rossiya Matushka

Depois de anos de sofrimento silencioso a tentar resolver os problemas das pessoas que se lamentam, tive uma epifania determinada por um raro momento de inteligência, durante a qual percebi que, com elevado grau de probabilidade estatística, se eu própria me passasse a lamentar também teria em meu redor silenciosos sofredores ocupados a tentar resolver os meus problemas.
Um segundo depois do meu momento Eureka comecei a queixar-me tanto quanto possível a todas as pessoas que encontro pela frente. E foi no decurso de uma dessas sessões de lamentação, e subsequente onda de solidariedade forçada que infalivelmente desencadeiam, que me revelaram a identidade de um russo capaz de pôr um fim aos meus mais recentes tormentos quotidianos.
Devo aqui admitir que comecei por oferecer alguma resistência à ideia de um soviético nunca visto, sozinho em casa comigo, dentro do meu quarto a arrancar-me os lençóis da cama e a mexer na minha roupa interior. E se acabei por me conformar com tal ideia, foi menos por intervenção da natureza excêntrica de que injustamente me acusam e mais por a urgência de resolver um problema prático não se compadecer com preconceitos de género e xenofobias diversas.
Esta manhã chegou o russo.
Pelas minhas fantasias domésticas já tinham passado mainatos africanos vestidos de branco, em estilo África Minha mas tamanho pigmeu, e asiáticos de quimono prateado num misto samurai e gueixa, também em versão anã. Como nunca tinha imaginado um russo a desempenhar estas funções, não tive tempo para lhe fantasiar nem uma altura nem um outfit. Não fiquei especialmente surpreendida quando o russo me apareceu em casa, grande e de fato-macaco caqui.
O russo começou por me grunhir um bom dia; vistoriar os produtos de limpeza e desdenhar do meu aspirador pouco bélico.
Meia hora depois, quando tive coragem para sair da casa de banho, encontrei os vidros desmontados, os móveis deslocados dos sítios, os livros no chão da sala e a minha roupa espalhada pela cama. À beira do colapso nervoso, mas incapaz de protestar com medo que o russo me assassinasse a tiro, optei por fugir de casa.
Seis horas e muita coragem mais tarde fui obrigada a regressar a casa. A máquina soviética de guerra tinha lavado vidros e paredes, exterminado o pó, desfeito a gordura do forno e assassinado o caos.
Fui dar com o russo a engomar uma camisa de seda com a mesma expressão de gelo e eficiência com que os soldados do exército montavam kalashnikovs.
Olhou para mim como se eu fosse uma mosca e não disse uma palavra.
Obviamente, contratei-o logo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Grandes Filósofos


Now that I've met you, would you object to never seeing me again?
Claudia Wilson Gator, in Magnolia

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Nas antípodas de Salomé

Ofélia é uma fraquíssima personagem da literatura que Shakespeare só se terá dado ao incómodo de criar por, num erro de avaliação, ter considerado que Hamlet não teria suficiente dimensão trágica sem uma mulher morta a boiar num rio.
O fascínio por Ofélia é de tal forma incompreensível e injusto que me intriga verdadeiramente que uma criatura tão insípida tenha servido de inspiração a tantos pintores. Nalguns casos, como demonstra a imagem que ilustra o post, com indesmentível sucesso.
Ofélia era uma mulher insignificante e destituída de personalidade que passou a primeira parte da sua existência enquanto personagem a obedecer ao seu pai, a segunda parte a alimentar uma morna e despropositada paixoneta pelo enlouquecido Hamlet, depois lembrou-se de enlouquecer ela própria - temo que por mera solidariedade com Hamlet ou absoluta falta de originalidade - e por fim, lá se decidiu a suicidar.
Ofélia, que nem sequer chega a ser misteriosa nas suas metamorfoses, limita-se a ser patética.
E por mais beleza que possa existir num bucólico suicídio por afogamento, a verdade é que o suicídio se purifica nos seus fundamentos. Não se sabendo se Ofélia morre por ter sido rejeitada por Hamlet, se pelo desgosto da orfandade, se pelo simples facto de ter enlouquecido, ainda que morrendo na água, morre sem se limpar. Ofélia suicida-se com a mesma falta de intensidade de quem acidentalmente cai na sua própria cova antecipadamente aberta para receber o corpo.
Shakespeare retirou-lhe qualquer legitimidade na pretensão ao estatuto de mártir. E essa é a única e verdadeira tragédia de Ofélia. Foi traída pelo seu criador.
Vendo bem, dificilmente haverá tragédia maior do que essa.
P.s. A pintura - da qual o texto é mero pretexto - é a "Ofélia" de Jonh Everett Millais.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Private jokes for unknown people


Só compro viagens no tempo se o destino for o futuro

Eu não gosto de nostalgia de nenhuma espécie.
Em particular, incomoda-me aquela que se insinua pelas frestas das janelas fechadas quando reencontramos alguém que fez parte da nossa vida há muitos anos atrás. Acredito que o passado, uma vez consolidado nessa dimensão temporal, não deve fazer parte do futuro sob pena de nos transtornar o presente.
A minha ideia de um bom pesadelo é aquele filme do Nicolas Cage, que acho que se chama Family Man, em que um broker da Wall Street acorda no meio da vida que teria se tivesse ficado com a sua ex-namorada suburbana.
Coerentemente, também detesto descobrir peças de roupa esquecidas que um dia gostei de usar e que, por alguma razão, decidi deixar para trás.
Num caso e noutro, porque a vida não é assim tão diferente de um roupeiro, houve uma razão concreta para o abandono. A distância temporal pode ter um efeito atenuador sobre as motivações. Mas nós sabemos que elas existiram, embora possamos até não nos lembrar quais foram.
O borboto, a malha puxada, o tecido que pica, as cavas apertadas, aquela estranha prega assimétrica ou a eterna impossibilidade de combinação com o nosso estado espírito continuam lá. Só estão à espera da altura mais inoportuna possível para se revelarem. Com a agravante da redobrada sensação de desconsolo que acompanha o vício de se ter sempre razão.
Também não gosto de saldos. Mas isso já são indefensáveis manias de superioridade.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

furtos literários

Para acabar a parábola, porque tu tens o dom de me interromper e desviar os meus pensamentos, quero dizer que, de certo modo, também me encontro dividida entre três torturas íntimas, a principal das quais é a ambição, claro. Sei que nunca serei bióloga; a minha paixão pelos seres rastejantes é grande, mas não absoluta, consumidora. Sei que adorarei sempre orquídeas, cogumelos e violetas e que continuarás a ver-me sair sozinha, para vaguear sozinha pelos bosques e regressar sozinha com um liriozinho solitário; mas as flores, por muito irresistíveis que sejam, também terão de ser abandonadas, assim que tiver força suficiente para isso. Resta a grande ambição e o maior terror: o sonho das escaladas dramáticas mais azuis, mais remotas, mais difíceis…o pavor de acabar provavelmente como uma de um cento de solteironas, a ensinar estudantes de teatro, a saber que, como tu insistes, sinistro insist(id)or, não podemos casar e a ter sempre diante de mim o terrível exemplo da patética e corajosa Marina, de segunda categoria.

Vladimir Nabokov, In Ada ou Ardor, teorema

domingo, 9 de janeiro de 2011

Não olhes para mim dessa maneira

Bem sei o que dirias se não te tivesse calado. Lembro-me da arrogância com que apregoavas que o destino é o pretexto dos fracos. Que a vida é um mapa para se traçar a régua e esquadro e com sublinhados cor-de-rosa a realçar o plano afectivo. Lembro-me da implacabilidade com que corrigiste todos os desvios. Dos castigos auto-infligidos nas falhas descobertas no processo de construção da personalidade. Da tua eficácia de bulldozer a consumires os russos e os franceses com uma determinação autodidacta. Do verão longínquo em te proibiste a televisão, substituindo-a pelos poetas. Lembro-me de ti, demasiado ocupada a traçar a próxima meta para festejares o romper da última. Bem sei que neste estabelecimento comercial que é a vida serias capaz de te ter despedido a ti própria de gerência se tivesses descoberto os cofres neste estado. Foi para não ter que te ouvir que despachei pela conduta do lixo os dez cadernos de argolas que encheste com recados para ti própria. E todas as cartas que sobraram do teu reinado de sensatez. Não sei o que andaste a fazer nos últimos 15 anos. Mas é bom que percebas que enquanto dormias aconteceu-te a vida e com ela cheguei eu. There´s a new kid in town, miúda.
Por isso, não olhes para mim dessa maneira.

Desistir é libertador


Há um inegável alívio libertador na pura e simples desistência. O apego aos projectos pode criar a ilusória sensação de uma estrada a percorrer. Mas quando essa estrada se traduz em quilómetros de asfalto vazio, sem placas com o nome do destino à vista, é a paragem que nos pode salvar. Uma desistência não deve encerrar a carga niilista das grandes perdas. A energia anímica antes colocada ao serviço de um projecto desistido tem múltiplas potencialidades de conversão em algo, finalmente, concretizável.
Desconfio que, se tivesse descoberto mais cedo como é fácil desistir de coisas, daria por muito mais bem empregues alguns anos da minha vida.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Alerta Vermelho

Sabes que falhaste quando, já depois de três quartos do teu dia consumidos, precisas que seja o alarme de um telemóvel a lembrar-te que é dia de aniversário de dois, o mais novo e o mais velho, dos teus familiares mais próximos.
Sabes que falhaste quando ao invés de te fazer cobrir de vergonha, o som te leva a abrir a agenda e iniciar uma forçada fórmula matemática de pesagem de valores, sem que te dês conta que os membros da equação são de grandezas demasiado distintas, para que sequer os possas juntar.
Sabes que falhaste quando a exaustão separa o teu cérebro da tua alma e constatas que os únicos papéis que querias continuar a ver desembrulhados são aqueles que estão em cima da secretária.
Sabes que falhaste quando percebes que já não vais ter tempo para comprar um presente e consideras a possibilidade de entregar dinheiro a uma criança e dás por ti a pensar qual a quantia adequada a indemnizá-la de tamanha negligência.
Sabes que falhaste quando desligas o telemóvel por não teres condições mentais que te permitam suportar a desilusão diante da dimensão real do teu atraso.
Mas depois, quando finalmente te arrastas para fora do teu gabinete e apagas a luz, os volumes no escuro perdem os nomes, passam a ser apenas papéis e num rápido processo de abstracção ganham a irrelevância de quem estará lá para sempre. Entras no carro e parece que pela primeira vez em muitos dias parou de chover. E num insólito cósmico atravessas em meia hora a distância até à cidade e a cidade inteira da ponta Sul à ponta Norte. E o Puccini no carro dá-ta uma dimensão épica onde encontras a coragem para entrares num centro comercial à procura de um presente. E há um lugar de estacionamento colado ao elevador. E sais no terceiro piso e encontras imediatamente o presente perfeito para o mais novo. E o mais velho que espere mais um dia pelo presente que a idade ensina a gerir as frustrações. E consegues chegar antes que todos se sentem à mesa. E quando te abrem a porta cheira a bolos. E o mais velho ensaia acordes numa guitarra enquanto o mais novo se esconde atrás da porta para te saltar para as costas e se agarrar ao teu pescoço com os seus braços minúsculos.
E em vez de volumes de vidas abstractas empilhadas no escuro há uma vida concreta iluminada pelo barulho de uma mesa enorme e indisciplinada e de gente que se toca entre si.
E enquanto cantam os parabéns aos dois percebes que estás a chorar e que alguém que percebeu que estavas a chorar pelos motivos errados apagou as luzes para que mais ninguém saiba que falhaste tanto.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Os almoços do chacal

Antes de entrar na sala maquilho o meu melhor sorriso falso. Se quisesse poderia encontrá-los de olhos fechados. Têm um cheiro inconfundível. A comida e os modos também são peças de fruta de plástico. Chegar atrasada aumenta a probabilidade de conseguir um lugar ao canto. Não hoje. Um gerente inoportuno escolheu-nos duas mesas redondas. Como se tanta convivência fosse punição que se suporte. Somos um concílio de bonecos de cera. O chacal censura o meu atraso. Condena-me à mesa dos maiores com um gesto largo. Exibe-me uns dentes afiados. Cumprimenta-me como quem rosna. Mas o meu sorriso é inamovível. Tem garantia contra cãibras durante os primeiros 120 minutos. Coloco uma ampulheta imaginária sobre a mesa. É de cristal para condizer com a falta de opacidade dos fantasmas. Sete olhares ávidos procuram um corpo para devorar. Ganho tempo com uma falsa história sobre o meu atraso. A máquina da verdade emite uns sons denunciadores. Poderia falar-lhes da chuva e daí saltar para as ondas e depois para um bote amarelo e seguir até ao reino de Prestes João. Limito-me a despir o casaco. Clavículas anorécticas funcionam sempre bem como amuse-bouche. Constato sem surpresa que a melhor pessoa da mesa é a única que não sabe segurar os talheres. Mas neste grupo ninguém come antes do chacal. E esse está imobilizado no meu sorriso falso. Ouço a areia escorrer em som de fundo aos uivos dos famintos. Olho para o pulso nu e anuncio que acabou a hora da refeição. Despeço-me com um sorriso. Verdadeiro. Afinal, até o chacal é de plástico.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

sábado, 1 de janeiro de 2011

gente determinada


Há quem leve muito a sério essa história das resoluções de Ano Novo.
Assim o amigo que decidiu fazer-se explodir, pouco depois da meia-noite, no meio da multidão que saía da celebração na Igreja de Al-Qidiseen. Morreram 17.
Um exemplo de determinação, o moço.

Clientela exigente

Este blogue lamenta a decepção provocada à pessoa que aqui chegou através da pesquisa no google "Gajas taradas no skype" e deseja-lhe que em 2011 encontre aquilo que mais procura.

ya

Ya, Pieter




Foi com Pieter, o instrutor de ski, que passei aquelas férias de neve.
Viajei para a Austria com o meu ex-homem e dois casais de amigos. Um dos casais era composto por dois suecos que tinham nascido com uns esquis nos pés. O outro casal dividia-se entre um marido que detestava qualquer espécie de actividade física ao ar livre e passou as férias a fumar cohibas na varanda do hotel enquanto vigiava os negócios por telemóvel e uma mulher que acumulava suficientes anos de lições privadas para descer uma pista preta sem grandes embaraços.
O meu ex-homem nunca tinha feito ski mas a aptidão natural para qualquer espécie de desporto deixou-o pronto para as pistas logo que lhe responderam a três perguntas: como é que se trava devagar, como é que se trava a grande velocidade, como é que me levanto do chão.
Todos concordámos que a forma de me tornar o menos incomodativa possível era contratar um professor que, na previsível impossibilidade de me ensinar a esquiar numa semana, me mantivesse viva e inteira enquanto eles se divertiam na montanha.
Foi assim que na nossa primeira manhã nos Alpes Austríacos, totalmente inapta para sequer agarrar um par de esquis, mas muito mais bem vestida do que todos os outros, fui depositada aos cuidados de Pieter, a quem o meu ex-homem, antes de se sumir na neve, entregou o cartão do restaurante onde eu deveria ser devolvida para o almoço e lhe desejou um comovido “good luck”.
Pieter era um austríaco de 29 anos, com um estranho gorro com tranças, que gostava de INXS e desprezava as pessoas como eu, a quem só aturava em troca das usurárias quantias que cobrava e que lhe permitiriam um dia abrir a sua própria escola de ski.
Passou a minha primeira manhã a assistir às trinta formas possíveis de se cair na neve, incluindo algumas que os seus anos de experiência nunca lhe tinham mostrado, fazendo sons de conforto e solidariedade enquanto, a cem metros de distância, me observava a levantar e a limpar a neve da boca para depois lhe exibir um sorriso que o encorajasse a não desistir de mim.
Rapidamente, Pieter percebeu que os seus tradicionais métodos de ensino não iriam produzir qualquer efeito e, condoído dos meus esforços e dos meus ossos, despiu o pudor profissional e adoptou o pouco ortodoxo sistema de me dar uma mão, fazendo-me esquiar a seu reboque pela Áustria fora, como se fossemos um daqueles pares da patinagem artística das olimpíadas de inverno, mas sem coreografias autónomas. Para dar realismo à cena, cantava-me músicas dos INXS enquanto descíamos as montanhas naquela curiosa figura, com ele a gritar, feliz, “baby, we are in honeymoon”.
Pieter e eu estabelecemos a nossa própria rotina. Durante a primeira hora da manhã ele fingia que me ensinava na pista das crianças, na segunda hora perdia a paciência e rebocava-me pela montanha até um dos bares onde nos sentávamos a beber cerveja e a comer strudel e passava a terceira hora a rebocar-me até ao restaurante identificado no cartão que todas as manhãs lhe era entregue pelo meu diligente ex-homem.
Eu juntava-me ao grupo para almoçar numa das varandas de um dos spots da montanha, com mantas em cima dos joelhos e vários tipos de vinho tinto nos copos. Depois o grupo lá partia, satisfeito e atlético, para mais uma tarde de ski, enquanto eu ficava na varanda a acenar adeus até eles desaparecerem de vista e serem substituídos pelo meu professor que me vinha buscar para mais uma tarde de INXS.
Às vezes sentávamo-nos no topo da montanha, tirávamos uma das luvas e ficávamos calados a olhar o horizonte e a fumar os meus cigarros. Outras vezes, Pieter contava-me as histórias da sua namorada alemã que vivia na Baviera. Fazia-me perguntas sobre a minha vida pessoal e parecia um pouco indignado com a naturalidade com que eu encarava aquela forma de kindergarten, enquanto o meu ex-homem passava os dias a esquiar com outro casal e uma loura.
As minhas estranhas aulas de ski não passaram despercebidas ao pessoal da estância que dirigia risinhos de escárnio e vingança na direcção do meu ex-homem, quando, já depois da sauna e da sesta, nos viam descer juntos para jantar e experimentar mais vinhos com o resto do grupo. O meu instrutor também não passou despercebido à sueca que, casada com um homem dezassete anos mais velho, passava os jantares a lamentar-se por não precisar de lições.
No nosso último dia de aulas, comigo transformada numa exímia esquiadora siamesa de Pieter, ele tirou do casaco uma garrafa de champagne que bebemos os dois, assim mesmo pela garrafa, no topo da montanha.
Nessa tarde, no regresso ao hotel da estância, Pieter com os meus esquis às costas e ainda de mãos dadas comigo, entregou-me, hesitante, ao meu ex-homem, como uma ama que devolve uma criança, pedindo-lhe, desconfiado, que tomasse conta de mim.
O meu ex-homem assentiu com um riso carregado de ironia. Mas quando chegou a conta do cartão de crédito daquelas férias, já ele se tinha esquecido da promessa e eu nunca soube se o Pieter incluiu na conta das minhas aulas aquela garrafa de champagne.
Antes disso, a descer a montanha sob o efeito do Moet & Chandon, eu e o Pieter caímos na neve e eu fiz uma lesão no joelho da qual nunca me curei. O Pieter explicou-me uma coisa interessante a respeito do ski, que, percebi depois, é igualmente válida a propósito das relações: o problema é cair devagar, honey. Deve-se sempre cair depressa para que os esquis saltem e as pernas não fiquem presas debaixo de nós.
Cair devagar pode provocar traumas irreversíveis.