domingo, 27 de fevereiro de 2011

Kierkegaard explica-te

Um rapaz apaixona-se por uma princesa e todo o conteúdo da sua vida reside nesse amor, o relacionamento é contudo de tal espécie, que é impossível ser concretizado, é impossível ser traduzido da idealidade para a realidade. Os escravos da miséria, os sapos imersos no pântano da vida, naturalmente que gritariam: um amor destes é uma loucura! Um bom partido, sólido em termos práticos, é a rica viúva do cervejeiro. Deixemo-los em paz a grasnar no pântano. Não é assim que age o cavaleiro da resignação infinita; não desiste do seu amor, nem por toda a glória do mundo. Não é pateta nenhum. Em primeiro lugar, assegura-se de que este amor é realmente o conteúdo da sua vida, e a sua alma é demasiado sã e orgulhosa para se entregar à mínima prodigalidade em estado de embriaguez. Não é cobarde, nem receia que esse amor se insinue por entre os seus mais remotos e recônditos pensamentos, e se enrede em infindáveis enleios por entre todos os ligamentos da sua consciência – viesse o amor a ser infeliz, e nunca chegaria a desembaraçar-se dele. Sente um ditoso prazer em deixar que esse amor lhe ponha todos os nervos a vibrar e, no entanto, a sua alma tem a solenidade da alma de quem esvaziou a taça de veneno e sente como o suco penetra em cada gota de sangue – pois este instante é de vida ou de morte. Quando assim absorveu todo o amor e nele mergulhou, não lhe falta coragem para tentar e arriscar tudo. Examina o conteúdo da vida, reúne os pensamentos apressados que como pombas amestradas obedecem a cada um dos seus gestos, agira sobre eles a sua varinha, e eles lançam-se em todas as direcções. Mas quando ora todos regressam, todos eles como mensageiros da aflição, e lhe explicam que é uma coisa impossível, fica então imóvel, afasta-os, isola-se e empreende então o movimento. (…) Em primeiro lugar, o cavaleiro terá então força para concentrar todo o conteúdo da vida e o significado da realidade num único e só desejo. Falte a um homem esta concentração, este ensimesmamento, fica-lhe logo de início a alma dispersa na multiplicidade e nunca chegará então a fazer o movimento, conduzir-se-á na vida com a inteligência da gente de dinheiro que coloca o seu capital em títulos todos eles diferentes entre si para ganhar num quando perde noutro – em suma, não é assim que é o cavaleiro. Em seguida, o cavaleiro terá força para concentrar o resultado de todas as operações do pensamento num único acto de consciência. Falte-lhe esse ensimesmamento, logo de início fica-lhe a alma dispersa na multiplicidade, e nunca há-de encontrar tempo para fazer o movimento; continuará a tratar das coisas da vida, nunca entrará na eternidade; pois no preciso momento em que estiver mais próximo, ocorrer-lhe-á subitamente que se esqueceu de qualquer coisa e tem que voltar atrás para ir buscá-la. No momento seguinte pensará que é possível, o que também é inteiramente verdade; porém, com semelhantes observações nunca se chegará a fazer o movimento – contando com elas, antes nos afundaremos ainda mais no lamaçal. O cavaleiro faz então o movimento (…)só as naturezas inferiores encontram regras para as suas acções em terceiros, e as premissas para as suas acções fora de si mesmo. (…) Quem isto entender, seja ele homem ou mulher, nunca será enganado, pois apenas as naturezas inferiores imaginam que são enganadas. Nenhuma rapariga que não possua este orgulho entenderá na verdade o que é amar, mas, se o possuir, nem a astúcia, nem o engenho do mundo inteiro poderão enganá-la.

Soren Kierkegaard, in Temor e Tremor, Relógio de Água

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A primeira mulher


Pandora é a primeira mulher. Foi criada por Atena e Hefesto com a contribuição de todos os outros deuses a quem Zeus ordenou que a habilitassem, cada um, com um dom distinto.
Quando Pandora chegou à terra trazia consigo uma caixa que se destinava a servir de presente de casamento ao seu futuro marido e que continha todos os bens e virtudes do Olimpo. Movida pela curiosidade, e ignorando as instruções recebidas, Pandora decidiu abrir a tampa da caixa. Os bens e virtudes que esta continha, à excepção da talvez mais lenta esperança, escaparam da caixa aberta e, antes que a desastrada Pandora tivesse tempo de voltar a colocar a tampa, regressaram ao Olimpo.
Foi assim que a nós, na terra, nos restaram os males e a esperança.
Pandora, a primeira mulher, é uma das minhas personagens mitológicas preferidas. De criação divina resultou de tal forma humana que a primeira coisa que fez quando saiu do Olimpo foi cometer um erro consequente. E só isso já seria suficiente para explicar toda a minha empatia.
Tem sido acusada de ter deixado escapar o bem, tornando-o num privilégio divino. Mas ao fazê-lo, inadvertidamente, Pandora deu à esperança uma dimensão que jamais lhe pertenceria se não se desse o caso de, na terra, o bem e a virtude serem tão escassos.
Se Pandora é a responsável pela perda do bem é também a responsável pela criação da esperança como o bem restante.
E a esperança, sabemo-lo todos, é a única coisa que nos salva do desespero.




Quadro de Jonh William Waterhouse

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Grandes Filósofos

To love is to suffer. To avoid suffering one must not love. But then one suffers from not loving. Therefore, to love is to suffer; not to love is to suffer; to suffer is to suffer. To be happy is to love. To be happy, then, is to suffer, but suffering makes one unhappy. Therefore, to be unhappy, one must love or love to suffer or suffer from too much happiness. I hope you're getting this down.

Sonja, in, Love and Death (1975)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dar férias à vida

Fiscalizo anualmente a dimensão de todas as minhas frustrações perguntando-me o que faria se pudesse tirar férias da minha vida.
Já quis integrar um circo, isolar-me numa ilha grega, internar-me num hospício, ser actriz de teatro em Paris, jornalista em Nova Iorque, entrar num coma profundo durante um ano, possuir um spot de água de coco no nordeste brasileiro, trabalhar como skiper nas Maldivas…
Este ano, ao cumprir o ritual do exercício imaginário, percebi que se pudesse tirar férias da minha vida aquilo que me apetecia mesmo era aprender a fazer bolos. Grandes. Bem decorados. Deliciosos.
Inicialmente, o resultado do meu exercício de medição de frustração pessoal deixou-me razoavelmente satisfeita.
Mas a ideia de que a excentricidade da imaginária ocupação estival é proporcional ao grau de frustração pode não passar de uma interpretação optimista. A outra possibilidade, bem mais preocupante, é a de a banalidade dos meus sonhos denunciar uma existência quotidiana insuportavelmente excêntrica.


Das despedidas

Preparam-nos para quase tudo. Sabemos antecipadamente que teremos que lidar com eles. Que nos vão testar até ao limite. Que nos vão estender rasteiras inimagináveis. Espetar facas afiadas em omoplatas sempre demasiado expostas. Que se vão queixar uns dos outros e de nós aos outros. Ensinam-nos a formalidade como armadura para todas as guerras. A necessidade de nos fazermos respeitar. A imposição permanente pela tácita ameaça da força que esperamos jamais ter que usar. Sabemos lidar com o gelo, os amuos, as pequenas vinganças, o quase insulto que se adivinha entre dentes, por trás das nossas costas.
Ninguém nos fala do resto. E para o insólito nunca estamos preparados.
Vieram todos, em ordeira fila, de presente de despedida nas mãos, braços abertos e lágrimas nos olhos.
Vieram todos destruir, com o carinho que de tão proibido nem sequer vem nos códigos, a minha frágil réstia de autoridade.
E foi assim, só no último dia, que me deixaram saber que, afinal, há tanto que os tinha ganho.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Lo Eres Todo


Substituí o Puccini pelos boleros e agora não sei o que pensar disso.
Também não sei o que pensar de todo o resto.
Não seria motivo para comunicação ao mundo, não se desse o caso de eu usar de saber sempre o que pensar sobre as coisas.
Mas parece que isso foi antes. Não o antes que se contrapõe ao depois mas o antes que, pelo menos, não é o agora.

Os boleros no carro a ocuparem o lugar do Puccini são um presságio tão assustador como um corvo negro que decide pousar no meu ombro e atar uma pata ao meu cabelo.
Imagino o Puccini sentado num cadeirão de veludo verde gasto a olhar para mim com um ar desiludido.
O lábio inferior a tremer.

- boleros, Cuca? Mas… boleros?

E eu a encolher os ombros, desajeitada, sem conseguir articular uma explicação plausível para a traição aos clássicos.

O corvo negro a dar-me uma bicada no pescoço.
- pois, Puccini, foi… boleros…



No fundo da sala, a madame Butterfly dança um tango vestida de gueixa.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

a ilusão


de andar toda encantada com os aperitivos
quando sabe perfeitamente que o prato principal pode ser de vísceras cruas.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Indignações

Se o verniz das unhas lasca todos os dias da semana, por que raio é que as manicures fecham aos Domingos?

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Itinerâncias

Há o esforço inconsciente. Aquele de que não gostamos de falar. A recusa mental em decorar mais nomes do que os indispensáveis. O hábito de chamar porteiro ao porteiro e empregada à empregada. O acumular de contactos telefónicos destinados a tornar-se inúteis três estações depois. A preocupação de estabelecer rotinas de sobrevivência mas evitar os hábitos enraizados. Desenvolver relações que devem ser cordiais mas que não podem ser profundas.
Com o tempo deixamos de querer que nos contem as histórias deles. Não temos quiosques de eleição. Preferimos estações de serviço. Compramos a mesma marca de perfume para casas diferentes para que possamos fazer de conta que vivemos dentro da mesma. Não ouvimos o ranger da gaveta partida nem substituímos as lâmpadas que deixarão de ser um problema em breve.
Porque em breve haverá sempre outra casa dentro de outra cidade e outras mãos a cozinharem-nos os jantares e outras paisagens a condizer com o café da manhã.
E nesse jogo viciado pela nossa prévia certeza de efemeridade não são apenas as cidades que se tornam temporárias. É a nossa vida que é aprazada. Como uma caixa de ovos com data de validade carimbada. Com o lixo como destino.
Nós, os itinerantes, treinamos incansavelmente a adaptação mas só conseguimos aprender o desapego.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Would you dance me?

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
(...)


Leonard Cohen


Perder-nos nos meandros das racionalizações e das relativizações de sentimentos, do be e do want to be, do be in love e do be in lust é um risco do qual ninguém está a salvo. Nem os auto-conscientes. Sobretudo, esses.
Na qualidade de freak control, obcecada com o sistema de detecção de falhas sistémicas, descobri-me uma técnica infalível que funciona como teste à profundidade da minha própria envolvência:
Dançar.
Por razões que presumivelmente estarão ligadas a uma inata dificuldade em deixar-me conduzir, só consigo dançar decentemente com um homem por quem esteja apaixonada.

Como é evidente, desde o momento dessa descoberta acidental, nunca mais corri o risco de dançar com ninguém.

a(m)paro

como se insufla infelicidade numa criança de onze anos? obriga-se a dita a ter aulas de educação visual nas quais faz-se tudo menos desenho livre. e dá-se-lhe um trabalho com caneta de aparo e tinta-da-china. em papel cavalinho.
a destreza que a criança não tem fica retratada nos borrões agravados pelas sofridas tentativas de os corrigir com a borracha azul cáustica. aquela de roda de metal no centro. que não apaga mas arranca camadas do papel. já há choro e ajuda ralada dos pais. que se confrontam com a sua inabilidade para o mecanismo - que possui a subtileza cruel de ter um parafuso rombão para regular a abertura da pena, supostamente transformando-o num instrumento de precisão. e a tinta-da-china, que a esta hora já será qualquer coisa como tinta-d’um-raio. ninguém que não o faça por pelo menos oito horas por dia é capaz de usar com desembaraço o aparo de lata sem sujar meio mundo.
o trabalho é avaliado. e conta para a nota.
a tinta é fraca e também o restante material. que nenhum pai de família em pleno juízo gasta mais que o mínimo em tais inutilidades académicas.
pois que se o filho “dá” para as belas-artes, aos onze anos já “deu” e desenha com qualquer coisa. como o meu avô Pimenta a quem ninguém chamava avô Pimenta mas que a mina avó tratava por Pimenta. para nós, era o Jota. o que espatifou com a ourivesaria por não ter nascido para o comércio e sim para o piano e para a pintura. que não deixaram seguir. que desenhava desde criança. a toda a hora. com qualquer coisa.
mandava-me desenhos feitos com canetas bic-laranja nas cores disponíveis: azul, verde, preto e vermelho. pássaros e outros animais, palhaços, bonecas. pássaros em maior quantidade. remetia-mos em envelopes “via aérea”, debruados de losangos nas cores alternadas azul e vermelha. de papel muito fininho. para a minha querida neta com um xi-coração do Jota. tive alguns a decorar-me o quarto. encaixilhados. muitas vezes acompanhavam encomendas. bonecas. de trajes das províncias. e eu que não sabia o que eram xi-corações, muito menos províncias... mas adorava a remessa de bonecas. pés colados em rodelas de pinho. e aí, um autocolante. “Beira Alta”. “Douro Litoral”. lugares que só existiam para as bonecas. redoma em plástico. a mais bonita era uma noiva de Viana e o seu vestido preto em veludo, carregada de filigranas de lata dourada. a única que tinha par era a varina. o garotinho vestia um par de calças em padrão xadrês e trazia gorro num tecido que picava muito.
lembro-me de que as bonecas sempre me pareceram muito agasalhadas.
eram péssimos brinquedos pois, como já disse, traziam os pés colados à patela de madeira. e as roupas não se conseguiam despir.
ficaram todas. visitei-as sempre.






terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dos efeitos abrasivos do tempo sobre as superfícies metálicas dos cilícios

Ao telefone:

- podemos jantar hoje?
- não.
- por alguma razão?
- precisamente porque já há vários anos não sobra nenhuma.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Love is Evil

Saberão os três leitores deste blogue que Cuca vive em guerra contra o amor.
Coerentemente, não simpatiza com efemérides que dão pretextos às pessoas, até às civilizadas, para oferecer objectos em forma de coração.
Tinha decidido atribuir a este dia a importância que ele merece relegando-o a um desprezivo silêncio. Mas depois lembrei-me das sábias palavras do grande Slajov Zizek, cuja existência só recentemente descobri mas de quem já me tornei seguidora, e decidi partilhá-las na esperança de salvar uma alma.

...e o sol apareceu, de gigante ficou

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Não sei como dizer-te

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.



In Herberto Helder, Excerto do poema «Tríptico»
Poesia Toda
Lisboa, Assírio & Alvim, 1990

il gattopardo


dei-lhe o Sartre. simplesmente, dei-lhe. e todos os outros que ela pediu.
o medo de que ma descobrissem era tal que passei a assumir, em tudo, tudo diferente.

enquanto ela arranhava o soalho do corredor com os meus slingbacks cor de tabaco eu sofri de cãibras pelos quilómetros em que usei sabrinas de camurça. ela dançou os meus boleros. e eu comprei música que não consigo ouvir até ao fim. tudo fingido. para que não ma descobrissem. ela arranjou-se com a minha maquilhagem e eu deixei-a usar tudo: as sombras escuras e o rímel espesso de que gosto. enquanto isso eu explicava, de cara lavada, alergias a águas muito calcárias. de tudo se foi apossando. os vestidos. até certa roupa interior. o jeito de olhar e aquela forma particular de sorrir. e de chorar. ela foi ficando com tudo. as gargalhadas. eu não me importei pois que era tudo doado de vontade livre. para não saberem que éramos uma só. até ganhei peso. ao ritmo que ela emagreceu. éramos uma e continuamos a ser. e só ela sabe que assim é.

conseguiu lembrar-se


ela não é de contar contos.

tenho nas pernas aquele formigueiro do entorpecimento, não sei se de tanto andar se de tanto não andar. e se eu descobrisse que não ando há anos? era como se não fosse nada porque quanto a isso já nada podia fazer.
é como a rinite.

não sou capaz d’escrever e resvalo. que pena, eu bem gostava descrever qualquer coisa de digno. mas eu sou de surrealismos foleiros de bairro.

e depois vem o espelhinho, aquele que não tenho em casa. não tenho mas ele faz-se convidado. muito educado, toca à campainha. é aquela visita de Domingo à tarde que ninguém espera muito menos quer. que não se pode ignorar porque já viu luz nas janelas. que traz presentes e doces para o lanche. doces enjoativos. e uma compota feita por ele. puta que pariu para ele. instala-se e só vai embora depois de me nausear o bastante. ódio de lágrimas.

acho que vou antes aderir ao tumblr.

a verdade é que.
há noites em que ela nem tem noção. do medo.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Estado de espírito Liliputiana aterrorizada

A Caixa de Pandora


No recôndito fundo de uma cave interdita havia uma arca fechada. Poucas pessoas se lembravam da cave. Menos ainda conheciam a existência da arca. E já nenhum dos vivos poderia imaginar o seu conteúdo.
Mas o tempo corre em todo o lado e para todas as coisas. Até para as que são desconhecidas e estão fechadas dentro de arcas esquecidas nos recônditos fundos das caves interditas.
E há fenómenos físicos potenciados pelo tempo. E o conteúdo da arca desenvolveu-se no esquecimento. E tornou-se maior do que ela. E um dia a arca abriu-se no escuro. E dela se soltaram milhares de bolas de sabão que saíram pelas frestas da porta da cave e se espalharam pela casa.
E os donos da casa acordaram na estupefacção do insólito. Com bolas de sabão que lhes subiram pelos pés lhes roçaram os lábios e se alojaram nos cabelos.
E sem nenhuma vontade de destruir as bolas de sabão, deixaram-se submergir em maravilhosos pedaços circulares de arco-íris.
Até que, finalmente, o tempo deixou de correr.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Casas



Esta nunca foi a minha casa. Até hoje. O primeiro dia em que a senti vazia.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear,
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


Robert Frost, The Road Not Taken

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

De como sonhar com duendes é mesmo prenúncio de loucura e não é bonito gozar com os dicionários de sonhos

Psicose - Transtorno mental maior de origem orgânica ou emocional na qual a capacidade para pensar, responder emocionalmente, recordar, comunicar, interpretar a realidade e comportar-se apropriadamente está suficientemente prejudicada, a ponto de interferir amplamente na capacidade para atender às demandas comuns da vida.
in
www.psiquiatriageral.com

A má notícia é que depois da manhã de hoje tornou-se indesmentível que apanhei esta doença num lado qualquer.

A boa notícia é a que, assegura a mesma fonte, há uma espécie, a psicose ciclóide, que dura apenas entre duas a quatro semanas.
Estive a fazer as contas e concluí que, na pior da melhor hipótese, está quase a passar.
Até lá, vou usufruir da imunidade concedida pelo meu estatuto de psicótica auto-diagnosticada .

domingo, 6 de fevereiro de 2011

In Thoughts of You

quadro de Jack Vettriano

Façam-me esse favor

Comprem a Ler.
Mesmo que não a leiam, façam-me o favor de a comprar.
Não tenho parte na distribuição dos lucros e nem sequer fomos linkadas pelo Mexia.
Sucede que, ultimamente, todas as coisas de que eu gosto começaram a desaparecer do mercado.
Tudo começou com umas certas águas francesas, depois foram os básicos da Burberry, a seguir foi o meu perfume que deixou de ser vendido em Portugal, seguiram-se umas bolachas que só se vendiam num supermercado, por fim foi o Eremita que decidiu acabar com o Ouriquense.
Convenci-me que há um vírus e temo que a próxima vítima seja a Ler.
Comprem-na. Evitem-me mais esse desgosto.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Mais uma manhã de sol na minha esplanada em frente ao mar


O sol pensa que é Maio. A melhor mesa da esplanada está livre. O empregado já conseguiu aprender que o café é com adoçante e os pastéis de nata são sem canela. A minha revista cheira a novo. Um telefonema liberta-me as horas seguintes. Nem sequer há gente a mais.
O mundo é um local perfeito até o silêncio da mesa do lado me começar a incomodar.
É então que reparo no casal pálido e olheirento, vestido como se fosse para a neve, com uma criança com o carapuço enfiado pela cabeça e a cabeça, por sua vez, enfiada debaixo da mesa, a jogar PSP. Nenhum dos três abriu a boca durante a primeira meia hora. Ela olha de frente para o mar e ele olha de lado para o mundo. Há doze anos atrás foram excelente matéria-prima para românticas fotografias de casamento em pose apaixonada e com o por-do-sol estrategicamente colocado entre lábios unidos por um beijo moderado mas sincero. Uma dessas fotografias deve estar emoldurada na mesinha de cabeceira do quarto deles. Provavelmente, ao lado de uma outra com o miúdo devidamente mascarado de baptizando deitado em cima da colcha de cetim, que ainda deve ser a mesma. De lá para cá o marido engordou dez quilos e a mulher entrou numa cruzada espiritual contra a maquilhagem e a depilação. Não se falam, não se olham, não se tocam. Tão pouco se vêem. Não estão distraídos com um jornal, separados por um pensamento, interrompidos por um telefonema. Nem sequer estão zangados um com o outro. Pura e simplesmente, não têm mais nada para se dizer. São manequins de uma loja, aprisionados numa montra, com o ar vazio e deprimido de um cachorro em exibição numa loja de animais.
São a personificação das minhas fobias, a génese das minhas exigências, a doença que eu rastreio. Apetece-me pegar nos três e deixá-los, assim, a serem eles próprios, no palco de um anfiteatro, enquanto encho a plateia com todos aqueles que me acusam de intransigência.
Meia hora depois, ele abre a boca para se queixar que tem frio. Ela acena a cabeça e confirma que sim, que está muito frio. O miúdo aquece-se com o homicídio de mais um extra-terrestre e se pensasse alguma coisa também pensaria que estava frio.
Um cão aproxima-se, fareja-os, e afasta-se a ganir.

Na literatura, assim como na vida

Na literatura, as personagens masculinas humanizam-se pela dúvida e as femininas pelo erro.
Tendo em conta que a humanização das personagens passa pela criação do anti-herói, constata-se que, de acordo com o estereotipo, apesar de os homens serem os que estão sempre seguros que têm razão, as mulheres são as que nunca falham.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A mãe de todas as guerras

As minhas desavenças com Eros, o caótico deus menor - no duplo sentido de idade e significância -, ultrapassaram o patamar da mera antipatia e profundo desprezo.
Já nem sequer se dá ao trabalho de se disfarçar em ambientes botticellianos, com fingidas faces rosadas e atrás das saias de Afrodite que, por sinal, não costumam chegar a ser pintadas.
Agora assume-se nesta pose bélica de perigoso terrorista disposto a assassinar-me à mais leve distracção.
O que existe entre mim e Eros já não é um conflito diplomático, uma insubordinação de arruaça ou uma sessão de ataques esporádicos com o propósito de mostrar quem é que manda.
É a guerra declarada. Não se resolve com clausuras, liras partidas ou vacinas feitas de doses imoderadas de boleros.
A minha vida está ameaçada e eu não descanso enquanto não exterminar esta criatura.
Estátua de Alfred Gilbert R. A., em Piccaddily Circus

Operação sorriso


Nos seis ou sete minutos que demoro a chegar ao meu local de trabalho só tenho tempo de ouvir duas músicas e eu ouço sempre Puccini, pela simples razão de que não posso começar um dia de trabalho sem ouvir Puccini.
Desde que fui dispensada do drama das filas de trânsito tornei-me numa rádio-excluída. Por isso, só agora soube que houve por aí uma grande e importantíssima operação em torno da qual se terão unido as rádios portuguesas e que, segundo consta, terá culminado num igualmente grande e suponho que importantíssimo momento, às 18h00.
Não vou comentar o desperdício de energia de tal união, o despropósito da iniciativa ou o ridículo de trocar sorrisos falsos com o condutor do lado. Para isso já temos os nossos funcionários, colegas de trabalho e os empregados dos restaurantes.

Aquilo que realmente impressiona é a constatação de que as pessoas, desde que devidamente confortadas pelo apoio psicológico do efeito manada, fazem tudo, mas tudo, aquilo que lhes mandem fazer. E isso, convenhamos, é coisa que, além de justificar muitas aparentemente injustificáveis barbáries, não deve dar nenhuma vontade de sorrir.

(Noutros dias de maiores cautelas, a tarde podia ter acabado francamente mal para um rapazinho que, percebo-o agora, entusiasmado pela iniciativa, já depois da hora e enquanto eu estacionava o carro, decidiu bater-me no vidro e aproximar-se para me oferecer um sorriso rasgado).

História de uma estória

Atribuí à minha limitada generosidade, já que sabia não se tratar de falta de tentativas, a responsabilidade pelo facto de nunca ter conseguido escrever uma estória para um destinatário concreto. Os meus contos, mesmo aqueles que foram escritos como se fossem dirigidos a alguém, foram criados na absoluta orfandade de interlocutor.
Houve uma dessas estórias que se decidiu vingar de mim e, agora, depois de escrita, numa espécie de twist em jeito de mundo ao contrário, encontrou o sentido que lhe neguei à nascença.
Percebi finalmente a natureza da minha incapacidade de escrever contos para pessoas concretas: a insuportável angústia de saber que a estória nunca conseguirá estar à altura do seu destinatário.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

descubra as diferenças*

obsessão
s. f.
1. Importunação perseverante.
2. Perseguição diabólica.
3. Ideia fixa.
4. Preocupação contínua.
Confrontar: obcecação.

paixão
s. f.
1. Impressão viva.
2. Perturbação ou movimento desordenado do ânimo.
3. Grande inclinação ou predilecção!predileção.
4. Afecto!Afeto violento, amor ardente.
5. O objecto!objeto desse amor.
6. Pena, cuidado, trabalho.
7. Grande desgosto, grande pesar.
8. Parcialidade.
9. Sofrimento ou martírio (falando-se de Cristo ou dos santos martirizados).
10. Parte do Evangelho que narra a Paixão de Cristo.
11. Filos. Impressão recebida de um agente.
12. Aveiro Cada uma das estacas em que se arma o botirão.


In Dicionário Primberam da Língua Portuguesa

* E depois descreva-mas.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

As vitórias que realmente me fascinam

36 anos depois de tudo, Cuca conseguiu descobrir que se puser o pão duro no micro-ondas ele fica novamente comestível.

A internacionalização do crime ao serviço da educação tuga

Os portugueses que andaram durante os vários anos do processo casa pia a tirar o seu cursinho de direito com especialização na vertente criminal têm agora, durante o processo Renato Seabra, a oportunidade de prosseguir os seus estudos através da frequência de um Master em direito da common law.
O nível de disparate dos docentes da telescola também entrou em condicente ascensão estratosférica.