domingo, 29 de maio de 2011

Um resto de tudo



No fundo das caixas há a decadência. Uma casa sem alma não parece mais vazia quando as nossas coisas saem pela janela. Parece apenas maior. Mais limpa. Limpa de nós. E se temos vontade de ficar dentro dela, a respirá-la, assim vazia, devemos concluir que fizemos tudo mal.
Os caixotes que não abrimos durante inteiros doze meses não nos pertencem. Merecem que os deixemos partir. Reciclar é melhor que congelar. Porque o gelo queima e a reciclagem purifica. Mesmo que não consigamos resistir à tentação de os abrir, já à distância de meio metro do papelão onde incineraremos os ossos da nossa vida. Mesmo que ao abri-los nos caiam aos pés álbuns de fotografias. Sobretudo se essa celulose estiver impregnada do nosso sorriso feliz. Sobretudo se for um sorriso que já não conseguiremos imitar.
É preciso livrar-nos dos restos. Neles estão os rastos. Aqueles que nos habituamos a seguir quando estamos demasiado perdidos para nos conseguirmos lembrar de quem somos. É um exercício fraudulento. Os rastos deixados pelos restos apenas nos conduzem à falsa memória do que fomos. Por vezes, a verdade do que se é está numa casa vazia.
Ou nas mãos penduradas no nada junto ao portão de saída.
Nessas vezes, claro, temos que concluir que fizemos tudo mal.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

domingo, 22 de maio de 2011

AlmaNaque ::: o ultraje dos jacarandás


"oh por favor, toda a gente sabe que quando repetidamente a agulha corre do início ao fim do disco, sem emitir um único som, tens que a trocar. ou esquecer aquelas faixas. de vez!"

*

ja-ca-ran-dá
[do tupi yakara'nda]
s. m.
1. bot.; nome de várias plantas da família das bignoniáceas e das leguminosas.
2. bot.; árvore (jacaranda mimosaefolia) da família das bignoniáceas, originária da Argentina e Bolívia, de porte médio e flores violáceas em forma de campânula.

são tangos que florescem em Maio.
enchem o Largo onde vivo.
inflamam os meus adeus de um arroxeado de crítica definição.
perturbam as minhas noites com o seu perfume amargoso que me tem empurrado para a beira-rio. em busca da aragem do mar.

*

ao espelho, na penumbra. não o partiu. a primeira vontade de o fazer escorreu e se perdeu pelas fendas que o desalento fez no chão de tábuas corridas.

saiu sentindo a necessidade de inexistir. inexistir completamente.

just trying to have a (happy) life















sobre a banda de sonora que escolheste para as nossas saudades em

http://starsmythicalcreatures.blogspot.com/2011/05/banda-sonora-escolhida.html

Esta semana, lá no meu trabalho (Quando a realidade supera a ficção)

- deixe-me ver se percebi: o senhor partiu a arma com um martelo e depois foi entregá-la aos pedaços à GNR.
- isso mesmo, fui.
- hum… e tinha a arma para quê?
- estava para lá. Tinha sido do meu avô e depois do meu pai.
- e não sabe que ter armas sem licença é crime?
- sei, sei. Mas estava para lá.
- e porque é que se lembrou de a partir com um martelo, já agora?
- para evitar dar um tiro na minha mulher...
- er… hum...
- ...e mesmo assim fui entregá-la partida. Sabe porquê?
- nem imagino.
- porque a minha vontade de lhe dar um tiro era tanta que aquilo era capaz de voltar a colar-se tudo só com a força da minha cabeça.

O amor é fútil



Os sentimentos justificam-se pelos detalhes, pelas insignificâncias, por aquilo que é absolutamente acessório e não interessa nada.
Ocorreu-me isso quando hoje olhei para os meus pés sujos de areia e senti saudades de sentir aquilo que sentia quando ele me lavava os meus pés sujos de areia.

últimos dias

Caí de tédio entre as dezanove e as vinte, teletransportando-me para uma soneca deprimida e deprimente no sofá da sala. Não me lembro de ter sonhado – reaprendi a sonhar recentemente, depois da milagrosa e ainda inexplicada cura das insónias – mas aposto o meu polegar direito em como o meu sonho foi aborrecido e pessimista numa estranha mistura de criaturas que, de acordo com qualquer dicionário de sonhos, prenuncia milhões de tragédias.
Acordei com vozes, muitas vozes, demasiadas vozes, em frente à minha janela e devo admitir que pensei imediatamente que eles se tivessem todos revoltado contra mim e se tivessem reunido para me linchar. Ainda fiz um rápido rewind pelas últimas decisões que tomei esta semana, na ânsia de, antes de morrer às mãos do povo, perceber porque é que os irritei. Dizem, nos livros de auto-ajuda, que tudo o que compreendemos não nos faz sofrer. E eu tive uma esperança de última hora que a dor que presumo anteceder qualquer morte por apedrejamento também se pudesse incluir nesse adágio dos vigaristas da auto-ajuda.
Foram conjecturas inúteis. Três minutos depois havia música na Praça e, pela primeira vez desde a minha chegada, não era eu quem a controlava.
Quando saí à rua deparei-me com cinquenta pessoas – todos os homens e mulheres deste lugarejo, velhos e crianças incluídos – a dançar ao som de umas colunas emprestadas pelos Bombeiros.
Segundo me explicaram, e garanto-vos que a explicação era indispensável, aquilo que estavam a dançar eram marchas.
Não se deram ao trabalho de enfeitar com luzinhas as três árvores da praça, de prender fios com papelinhos coloridos, de instalar um holofote. Muito menos de organizar uma quermesse, construir uma barraquinha de farturas ou, ao menos, trazer cervejas de casa.
A festa era só aquilo. Umas colunas de som, uma voz de mulher recambiada dos anos quarenta a cantar músicas com letras que me pareceu me falavam de Alfama e cinquenta pessoas a dançar.
Acabou tudo às vinte e três em ponto. O meu povo insiste em cumprir escrupulosamente a lei, principalmente a do ruído, e sobretudo quando eu estou a ver.
Já em silêncio e com os foliões dispersos, fiquei sentada num dos bancos da praça, ao lado do meu senhorio israelita da Mossad, com a cabeça para trás e os olhos fixos nas estrelas.
- Disseram-me que um dos privilégios de viver no campo é poder olhar o céu e ver estrelas. Mas acho isto muito decepcionante. Estava à espera de melhor…
- Estava à espera de quê? Você pensava que a tinham mandado para o planetário de Lisboa?
Aproveitei logo aquele pequeno momento de hostilidade para tentar resolver o mistério das coisas que neste lugar não são o que parecem.
- agora que me vou embora, podia dizer-me, finalmente, porque é que a sua organização me vigia?
- o quê??
- sim, sim. Qual é o vosso interesse em mim?
- bem… organização não sei… só posso falar por mim.
- deixe-se de coisas. Sei bem para quem trabalha…
Ele pareceu-me genuinamente confuso.
- asseguro-lhe que a câmara municipal não tem nada a ver com a minha vida.
- Ora… Estou a falar da SUA organização. Não do seu emprego de fachada.
- não sou assim tão organizado. E quanto a isso do interesse… eu sou um simples homem, né?
- ah, confessa que há segundas intenções quanto a mim?…
- claro. Se você fosse coxa, marreca e feiosa não lhe trazia peixe fresco.
- explique-me, então, o que é que a sua organização quer de mim!
- organização? Chamam assim, lá em Lisboa?
- não se finja inocente…acabou de dizer que é um mero operacional de uma coisa maior...
- ouça cá…você não namora muito, pois não?

sábado, 21 de maio de 2011

O ímpeto confessório é a mais detestável de todas as manifestações egoístas

- Não tens nada para confessar?
- Absolutamente nada. Tenciono viver emparedada com todos os meus erros.

quadros que também são estados de espírito


Quadro de Jack Vettriano (The Letter)

Levo a planície no coração



A minha missão nesta terra terminou dois meses antes do esperado.


Numa sala escura, três ou quatro homens de gravata sensaborona e corte de cabelo de gosto duvidoso, sentaram-se na frente de uns papéis cheios de números e decidiram que há um outro povo que precisa mais de mim do que este.
Como já começa a ser hábito, a minha nova vida foi-me comunicada através de telefone por uma voz arrastada num falso tom incomodado. Pelo menos, desta vez, pouparam-me ao apresentador de concursos, feliz por ter nascido, que anuncia exílios como quem entrega o primeiro prémio de um tétrico concurso de enciclopédias.
Aqui, na terra, ninguém sabe de nada. Ainda pensei em aparecer ontem, à hora da sueca, para lhes dizer que as nossas soirées culturais terão que prosseguir sem mim. Mas depois limitei-me a acenar-lhes da janela e a gritar-lhes que escondessem as moedas, não fosse a GNR aparecer e descobrir o casino ilegal que instalámos nos bancos da praça.
Afinal, hoje é dia de feira. E não teria sido sensato ensombrar-lhes a felicidade pela antecipação do prazer de comprar baldes de plástico, batas de velha, molhos de couves e selins de bicicleta, tudo devidamente embalado pela apropriadíssima música do Tony Carreira, a vida que eu escolhi.
Decidi que a melhor maneira de lhes dar a notícia é amanhã, na matinée. Vou subir ao palco e fazer um anúncio público. Fiz uma chegada discreta mas exijo uma despedida apoteótica.


O problema dos burocratas que, por decreto, deram a minha missão por cumprida é que, por falta de espaço, nunca tiveram a planície no coração.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cancelado

Ele era um aeroporto. Nunca me aconteceu nada de bom num aeroporto. Prefiro portos de abrigo.

sábado, 14 de maio de 2011

Madhouse

Uma vez em cada dois anos, ser internada num manicómio transforma-se no sonho da minha vida.


Um jardim grande com grades ao fundo. Um pequeno lago com peixes mortos à dentada. Três limoeiros com loucos pendurados nos ramos. Um banco de madeira verde com enigmas gravados à unha. Meio túnel escavado. Núvens em forma de cães raivosos.


E lá dentro:


Um quarto completamente branco. Pijamas de linho às riscas. Bandejas com comprimidos coloridos. Uma janela que não se consiga abrir. Lençois pregados à cama.


O tempo parado.


Enfim, um sítio em que me pudesse, finalmente, sentir em casa.

Estou farta de gente mentirosa

O meu senhorio israelita da Mossad veio sentar-se na minha mesa no restaurante. Como de costume, era a única mesa ocupada.
Deve ter estado à espreita, nas minhas costas, para surgir no exacto momento em que eu enchi a boca com secretos de porco preto.
Também lhes ensinam estas coisas lá nos campos militares onde os treinam.
Incapaz de protestar sem perder a dignidade, acabei por o deixar sentar-se na minha frente e roubar-me uma azeitona.
Ainda fiz um esforço por tentar lembrar-me se lhe teria pago a renda. Antes de conseguir chegar a uma conclusão percebi que vinha em missão social.
Os velhos da praça disseram-lhe que passei a exibir uma expressão carrancuda e zangada. Que já não se ouve música das minhas janelas. Que vou despejar o lixo durante a noite para não ter que passar por eles. Que ganhei a guerra contra as mulheres que me espreitam para a sala condenando-me à bunkerização nas tardes de sábado.
Da vila, chegam-lhes notícias igualmente preocupantes. Diz-se que lá no meu trabalho já não me vêem passar pelos corredores com um sorriso imbecil na cara. Que quando entro na sala grande tenho um ar mal disposto e, por vezes, me esqueço de dizer bom dia. Que, ultimamente, os grandes textos encriptados que assino estão pejados de expressões como “personalidade desconforme às mais elementares regras sociais” e “falta de competências para uma normal vivência numa sociedade que se quer segura” e “imunidade absoluta aos efeitos das penas”.
Acabei de deglutir o porco preto em silêncio e não lhe expliquei que a génese do meu problema se situa algures entre o cansaço e a mentira.
Ele ficou a olhar para mim durante uns minutos e depois disse com um tom grave:
- Nunca serás capaz de nos compreender.
Fingi não reparar na ousadia da despropositada informalidade.
Sem querer, ele diagnosticou a minha doença.
Não se faz verdadeiramente parte de algo que não se apreende e eu nunca conseguirei compreender as infinitas limitações dos seres humanos.

domingo, 8 de maio de 2011

Se a vida te dá limões, faz... Limoncello



Qui saudadjé di ocê

Amigo:
Acho que foi por ter passado por um campo de girassóis no meio do qual havia uma única papoila. Vermelha e não encarnada.
Gostarias de me ver aqui por estas estradas fora a assassinar pássaros e lebres com a determinação de quem nunca fez outra coisa na vida a não ser assistir a matanças de porcos. Ainda não me convidaram para nenhuma. Em substituição vieram-me chamar para presenciar o nascimento de um burro. Não cheguei a tempo. Demorei a encontrar o calçado apropriado.
Gostaria eu, ainda mais, de te ver aí por essas praias fora caminhar em ziguezague com um livro debaixo do braço e outro a gritar-te dentro da cabeça. Aposto que chegas sempre a tempo mas apenas porque vais descalço.
Pedi ao inverno que te abrace por mim. Suponho que já aí tenha chegado. Espero que não exagere nos afectos e te poupe a uma hipotermia.
Em Setembro voltarei a mudar de terra. Estive a analisar o globo terrestre e descobri que estarei uns quilómetros mais perto de ti.
Ocorreu-me que se há catorze anos a World Press Photo só demorasse até Abril para chegar a Lisboa talvez ainda hoje eu fosse uma pevide.

domingo, 1 de maio de 2011




o teu fantasma

Nas noites em que me distraio ainda me assombras os sentidos. Apareces aos pés da cama que há muitos anos nem sequer é minha. Pálido e magro. Olhas-me com a expressão indignada que só adquiriste post mortem e insistes na mesma pergunta.
- o que nos aconteceu?
Às vezes desapareces quando acendo a luz. Ou a vela de baunilha com que afasto o teu cheiro a sabão. Outras vezes sobes a cama e ficas deitado ao meu lado a segurar-me uma mão que gela no contacto com os teus ossos. Transparentes.
O que nos aconteceu foi um homicídio seguido de suicídio.
Pedes esclarecimentos.
Mas nesse mistério de morte nunca conseguiremos perceber, de entre os dois, quem matou e quem se deixou morrer.
É um enigma absurdo.
A mão que tu seguras não consegue sentir a força dos teus dedos. E o rosto em que procuras explicações não se faz reflectir nos espelhos do quarto.
Somos ambos fantasmas.