sexta-feira, 31 de maio de 2013

À pergunta: "de que foge"?


As cidades não são apenas cidades. 
São contentores de pedaços soltos da nossa história.
Por trás das avenidas existem jardins com árvores que foram plantadas por nós. Mas também existem as ruas e as praças que jazem no papel vegetal amarelecido num canto da varanda.  
E esta ponte não é apenas uma travessia. 

sábado, 25 de maio de 2013

Se a moda pega...

Esqueçamos por um instante que se tratam de Miguel e Aníbal.

dois desgraçados



No processo de inventário que se seguiu à separação dos amantes, ele ficou com a lua, com as constelações conhecidas, com o arco-íris duplo que lhe tinha sido oferecido a ela. 
Deu-lhe de tornas a cidade.
Cortaram o oceano ao meio e dividiram-no entre os dois.
Mas a lua tornou-se um local de solidão e foi preciso associar-lhe novas memórias, como fazem as pessoas que redecoram as casas onde lhes sobram os dias depois da partida da vida.
Esperou pela lua cheia, fez uma festa, chamou uma multidão, decidido a dissipar por todos os restos do património comum.
À meia noite menos um minuto, o campo encheu-se de gente e as fogueiras foram acesas e os primeiros acordes da música que lhe saiu dos dedos tingiram a noite de esquecimento. 
Enquanto isso, à distância de meio oceano, debaixo das luzes da cidade, ela desfazia-se dos restos do coração em contratos selados com agiotas de fato italiano, maneiras inglesas e alma do reino de prestes joão. 
À lua que o iluminou a ele, ela apenas a pode espreitar pelo vidro transparente do quarto, sentindo-se como se sente quem pára em frente à montra da loja onde brilha o antigo anel de noivado devolvido. 

- Dois desgraçados.

 Disse, envergonhada, a lua, ao ouvido do oceano. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

inimigos poderosos


"Love feels like a great misfortune, a monstrous parasite, a permanent state of emergency that ruins all small pleasures.”
Slavoj Zizek

Da minha experiência de guerra contra o meu arqui-inimigo Eros, a criança assassina, aprendi que, apesar de tudo, a técnica mais inteligente para o derrotar, continua a ser deixá-lo morrer à fome.

trincheiras

"Love feels like a great misfortune, a monstrous parasite, a permanent state of emergency that ruins all small pleasures.”
Slavoj Zizek

Da minha experiência de guerra contra o meu arqui-inimigo Eros, a criança assassina, aprendi que, apesar de tudo, a técnica mais inteligente para o derrotar, continua a ser deixá-lo morrer à fome.

porque as pessoas apenas sabem ver ao longe

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

[ensaio sobre celebridades]

com as rugas escondidas de uma distância esticada,
o útero mudo, uma língua fóssil, a emoção mortífera.
o seu fruto é frígido, o seu todo tem as partes por unir.
as alíneas do seu índice são duvidosas e a música
que lhe enche o quarto é de vinil branco. o seu
tempo não tem a densidade que o nome exige,
apesar de ninguém o saber. dos seus olhos saem
porcelanas, o seu inverno é subterrâneo, a sua história
conta-se por carta. no seu exílio conheceu gente
que traduziu goethe e hölderlin e lhes acrescentou versos
por graça. os seus erros nunca couberam dentro de versos
porque o seu coração sempre mudou com as novas
grafias. nunca ninguém colocou um dedo que fosse
nas suas feridas porque sempre as soube esconder
fora dos locais do rosto. o seu sigilo tem a duração
do olhar, e este, sem distinguir planos, descontinua
a discrição dos movimentos dos outros. o seu infinito
oscila na memória inconsciente, a sua água é
vaporizada com as sombras do corpo contra a luz
quente. o seu alheamento é um pequeno subúrbio
onde os carros não passam e o passado das pessoas
que lá vivem fica na grande cidade. a sua imaginação
é solitária, a sua razão sempre extirpou a matéria fluida.
as suas pétalas são autónomas em relação às flores,
as suas cores envelhecem como se por esse facto
deixassem de ser úteis. a partir de certa altura
a sua natureza torna-se sonora e inexprimível, e
as suas obsessões são indefesas e frágeis. rilke
um dia escreve-lhe uma carta que veio devolvida
e nela constava um poema escrito à mão e pingos
de suor nocturno. todos os seus princípios eram
oficialmente os seus fins, e o silêncio do público
estranhamente o fazia notar ainda mais. até que ela
morre, morre mais do que a lei da vida, e o seu abismo
continua exuberante. apesar de ter vivido uma vida
corrosiva, ela permanece como um protótipo, porque
as pessoas não vêem as pequenas coisas, porque as
pessoas não se revêem nos equilíbrios, porque as pessoas
parecem sobreviver quando alguém morre, porque
as pessoas apenas sabem ver ao longe.

Tiago Nené, in "Polishop"
Punta Umbría, 2010
Colecção Palavra Ibérica

domingo, 19 de maio de 2013

o universo é vingativo


Um dia, enquanto passava casualmente por uma daquelas apresentações literárias, senti tanta pena de um rapaz infeliz sentado sozinho numa mesa ao sol que lhe comprei um livro, sem qualquer intenção de o ler. Apesar de o rapaz ter ar de quem não comia há alguns dias, o objetivo não era dar-lhe dinheiro para que suprisse necessidades básicas de alimentação, mas apenas fazê-lo um bocadinho menos triste. 
Muitos anos mais tarde, com o episódio completamente eclipsado da minha mente, encontrei caído na parte traseira do armário dos sapatos um saco de plástico com um livro, nunca aberto, autografado pelo, então já conhecido, José Luis Peixoto. 
Dizem-me que o livro é bom, mas eu recuso-me a lê-lo por não querer conspurcar retroativamente um dos meus raros momentos de pura generosidade com a venalidade de uma troca comercial. 
Lembrei-me desta estória ontem, ao reconhecer nos olhos de Esmeralda o mesmíssimo sentimento de piedade.
Espero, sinceramente, que também nunca leia o livrou que pagou.

terça-feira, 14 de maio de 2013

- "can you handle the truth"?

O pouco que sabemos sobre nós próprios é o património de ilusão em que assentam os mínimos de auto-respeito funcional.

sábado, 11 de maio de 2013

queria ter acordado Alice



Acordei no auge da minha confusão mental sem saber se sou Alice, a rainha de copas, uma vaca sagrada, a esfinge, um ser humano ou uma lagartixa de cauda escamada. Também não consegui situar o candeeiro da mesinha de cabeceira em nenhuma década da minha vida e tive de abrir a gaveta à procura de meias de homem para tentar perceber se dividia a vida com algum e qual. É uma boa técnica porque os homens distinguem-se todos pelas meias que usam e assim conseguimos sempre saber em que fase do passado estamos a viver. Para que esta técnica identificativa e de apreciável auxílio no controlo dos incómodos do alzheimer seja verdadeiramente eficaz, nunca podemos ser nós, pelo menos usando os critérios estéticos próprios, a comprar meias ao nosso homem. Mas a mim nunca me passaria pela cabeça comprar meias a um homem e talvez também a isso se devam os meus fracassos relacionais. 
Encontrei na gaveta uma trela de cão e depois de ter passado algum tempo a avaliar as possibilidades de uma relação sado-masoquista ou, pelo menos, de contornos mais kinky, lá me situei na realidade possível.
Para fugir dela muito rapidamente, decidi ir para a praia à procura de uma toca de coelho que me permitisse escorregar para um mundo em que o encolhimento só dependa da ingestão de uma fatia de tarte de maçã. Ainda comi a dita da tarte mas, desta vez, não apareceu nem o coelho do relógio, nem nenhuma outra criatura da sua trupe. Já nem falo no chapeleiro louco que, tanto quanto percebi, morreu vítima de hipotermia no meio de uma caçada à baleia.
Zanzei inconformada pela maré baixa à procura de um búzio que me trouxesse vozes de outras margens do oceano. Mas os búzios já só sussurram murmúrios incompreensíveis e eu pareço ter desaprendido a linguagem do mar.
Um resto de juízo ordenou-me que voltasse para casa e tomasse conta dos papéis espalhados pela sala a implorarem soluções urgentes.
Pensei que, se não tenho cuidado, ainda me transformo numa pessoa normal.
Houve tempos em que esse foi o meu maior desejo. Mas isso foi há muito tempo. 

Itinerâncias

E chegou aquela altura do ano em que eu desdobro o mapa de Portugal e escolho o buraco onde me vou enterrar no ano seguinte.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

este medo de ser o que eles são: mortos.


hello, how are you?
this fear of being what they are:
dead.
at least they are not out on the street, they
are careful to stay indoors, those
pasty mad who sit alone before their tv sets,
their lives full of canned, mutilated laughter.
their ideal neighborhood
of parked cars
of little green lawns
of little homes
the little doors that open and close
as their relatives visit
throughout the holidays
the doors closing
behind the dying who die so slowly
behind the dead who are still alive
in your quiet average neighborhood
of winding streets
of agony
of confusion
of horror
of fear
of ignorance.
a dog standing behind a fence.
a man silent at the window

Charles Bukowski

sábado, 4 de maio de 2013

Raivinha de dentes



Deu-me muito trabalho escrever aquela carta em tom cool, como se nada importasse muito. Estava cheia de mentiras, é claro. 
Mereceu uma resposta magnífica e que suponho também ter dado muito trabalho a elaborar. 
Chegou aos poucos. Dia após dia. Ainda a recebo, a cada minuto que passa. 
Tantos códigos depois, tantos meios de comunicação mais tarde, continua a ser o silêncio a forma mais pura e inequívoca de se expressar o desprezo. 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lisboa

Desta vez não vim fugida.
Expliquei que tinha de vir à manifestação da CGTP e concederam-me uma precária até domingo.
Eu e o meu cão vamos manifestar-nos para o jardim da Estrela.
Pendurei-lhe um cartaz a dizer "pelo direito a trabalhar só 10 horas por dia".