quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Adagio for Strings

Entre um semáforo que ficou vermelho e um pensamento que tardou em auto-dirigir-se para o interior da caixa de vácuo, vi os meus pés nus ao lado dos teus calçados de havaianas de cores diferentes a baloiçarem no abismo da montanha. 
Lá em baixo o mar a ensinar-nos histórias de separação, a nós dos outros, primeiro, um do outro, por fim. 
Devíamos ter dez anos que é a idade em que o coração deixa gosto na boca e o sol a arder na face não queima mais que um olhar enviesado e o amor se consuma numa união de dedos. 
Tivemos sempre dez anos.
Como o poderiam testemunhar o búzio no bolso das tuas calças e os meus desenhos espalhados pelo chão.
Entre nós e o mar, um tapete feito de azáleas hoje transformado no sudário com que nos cobrimos.
Ainda os teus pés a baloiçarem no abismo e depois o verde do semáforo e a caixa dos pensamentos proibidos a fechar-se num clique que atravessou o mar, ecoou na montanha e assustou a borboleta que se atravessou no teu olhar.
Tivemos sempre dez anos.





quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A perspetiva da musa

É pornográfica, a exibição pública daquilo que foi escrito ou criado para nós.
É uma insidiosa forma de violação da intimidade, mesmo quando até a intimidade é, ela própria, produto da imaginação do autor.
Reduzir a musa ao papel de objeto do voyeurismo geral é mais ou menos equivalente a exibir a mulher, nua, num jantar de amigos.

Truques caseiros para uma saudável morte em vida

Trabalhar 12 horas por dia para emudecer o cérebro.
Correr todos os finais de tarde para esgotar o corpo.
Adormecer ao som de Melville.
Manter o coração em dieta permanente.
Adotar três ou quatro problemas irresolúveis e nunca desistir de os resolver.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Das coisas verdadeiramente importantes e que têm o poder de me aborrecer

Não se consegue encontrar uma receita decente de sopa de algas na internet?

Neste navio, retoma-se a snobeira do fim de tarde domingo como momento de elevação espiritual


Diário de Bordo

É sabido que a fama é um poderoso agente desincentivador de qualidade. O caso mais grave que me ocorre é Paul Auster, cujo génio parece desastradamente ligado à necessidade de pagar a renda da semana seguinte e a quem desejo, do fundo do coração, um rápido retorno à vida de miséria que o obrigará a escrever livros de jeito e me devolverá o prazer de os ler. 
Jack Sparrow não foge à regra.
Chegou poucos dias depois de ter recebido a minha mensagem desesperada e a desilusão geral espalhou-se antes do pequeno almoço do dia seguinte.  
Esperávamos um Pirata tenebroso que, com a sua inata malvadez, nos guiasse por entre as vagas desta enjoativa crise financeira até à calmia de um porto cheio de ouro e riquezas. Ou, pelo menos, uma despensa cheia de latas de comida gourmet e mobiliário de design.
A dimensão da minha fé no homem era tal que, antes de lhe enviar a carta, escondi os parcos tesouros que nos restam. Três quilos de algas; o Ulysses; a coleira da pequena Cutxi; dois iPads; três revistas Ler do final do verão passado;  quatro pares de Laboutim recolhidos entre as Bloggers; um cinzeiro de cristal murano; um globo terrestre comprado na Area com o eixo já partido e cinco facas de mato que, em tempos, confisquei aos ex-presidiários à chegada.
As cautelas revelaram-se despropositadas. Jack Sparrow, em tempos Pirata, agora não passa de um betinho de Hollywood, armado em coacher da pirataria, que acha que todos os nossos problemas se resolverão com intermináveis sessões de motivação piratística.
Depois da segunda sessão de terapia coletiva e sem uma única sugestão de assalto à vista, a minha tripulação trancou-o no porão e apresentou-me um plano genial.
Vamos manter Jack Sparrow sequestrado entre nós e pedir um chorudo resgate aos patrões de Hollywood.
O plano - que tem a indolente vantagem de já estar quase cumprido  - é tão perfeito que só tenho pena de não ter sido eu a lembrar-me dele.
Já seguiram as cartas a pedir o resgate, devidamente acompanhadas de pedaços do chapéu de Jack, para provar que o temos entre nós.
Entretanto, para nem sequer termos a chatice de ter de lidar com um prisioneiro, deixamos que Jack Sparrow deambule pelo navio, enchendo-nos a paciência com as suas sessões de coaching, convencido que é um convidado especial e que esta dieta de peixe e algas é uma coisa neo-zen muito fashion na nossa Europa.
Obliquamente, estava certa. Jack Sparrow tirar-nos-á da miséria.



sábado, 22 de fevereiro de 2014

Amendoeira 2

Substituir as camélias pelas amendoeiras.

Amar o ladrão

O livreiro, habituado a vender-me livros técnicos, entrega-me o Estudos Sobre o Amor, de Ortega y Gasset, com um sorriso cúmplice. 
- Está a fazer uma formação sobre o amor?

Respondo-lhe que não, que procuro apenas evitar a deformação pelo amor.

"Um amor pleno, nascido de raíz, não pode verosimilmente morrer. Está para sempre inscrito na alma sensível. As circunstâncias - por exemplo, a distância - poderão impedir a sua necessária nutrição, e então esse amor perderá a sua força, converter-se-á num fiozinho sentimental, pequeno veio de emoção que continuará a pulsar no subsolo da consciência. Mas não morrerá: a sua qualidade sentimental permanecerá intacta. No seu íntimo, a pessoa que amou continua a sentir-se absolutamente ligada à pessoa amada. O acaso poderá levá-la de um lado para o outro no espaço físico e social. Pouco importa: continuará perto daquele que ama. É este o sintoma supremo do verdadeiro amor: estar ao lado da pessoa amada, num contacto e proximidade mais profundo que os espaciais. Estar vitalmente com o outro. A palavra mais exacta, mas demasiado técnica, seria: estar ontologicamente com o ser amado, fiel ao seu destino, seja ele qual for. A mulher que ama o ladrão, esteja ele onde estiver, tem o sentido na prisão."

Ortega Y Gasset, Estudos Sobre o Amor, Relógio D'agua.

Amendoeira

Penso que deve ser fevereiro porque, de repente, as amendoeiras floriram.
Alheias às angústias e ao desespero dos homens, as amendoeiras fazem o que têm a fazer.
Porque nada mais lhes importa.
Fotografei-as para assim as trazer para casa e aprender com elas.
Essa básica lição de florir porque é fevereiro e nada mais importa.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

falta de espaço


O puxador da porta de um quarto de hotel que se abriu de rompante para deixar sair uma mulher que correu descalça pelo corredor ao encontro do abraço urgente do seu amante.
A pá do moinho onde se sentou a criança que balouçou as pernas enquanto se fez elevar numa paisagem de girassóis.
O copo vazio que um homem pousou lentamente, num gesto sincronizado com a decisão de partir de si próprio para nunca mais regressar.
A aliança arrancada num segundo de raiva e disparada da janela do quarto andar que atingiu a pena do pássaro azul que fugiu de uma gaiola próxima.
A caneta com que alguém escreveu os versos que outrem escondeu no fundo da última gaveta da mesinha de cabeceira.

E este cofre minúsculo onde não cabem os únicos objetos que interessaria guardar. 

uma razão

Farta da chuva do Sul, partirei em direção à chuva de Lisboa.
O problema não é da chuva mas da falta de coerência geográfica.
Tudo ficará bem debaixo de uma chuva que caia num sítio onde é suposta cair.
Como quando se é infeliz sem razão e ainda se é mais infeliz precisamente por isso.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Silenciosa, remota e reprovadora

"Há pecados ou (chamemos-lhes como o mundo lhes chama) memórias más que o homem esconde nos lugares mais escuros do coração mas que ali habitam e aguardam. Ele pode suportar que a sua memória se obscureça, deixar que eles existam como se nunca tivessem existido e quase persuadir-se a si próprio de que eles não existiram de outra maneira. Contudo uma palavra fortuita irá convocá-los subitamente e eles levantar-se-ão para o confrontar nas mais variadas circunstâncias, numa visão ou um sonho, ou enquanto o pandeiro e a harpa lhe sossegam os sentidos ou no meio da fresca tranquilidade argêntea do entardecer ou no festim, à meia-noite, quando ele está já cheio de vinho. Não para o cobrir de insultos lhe virá tal visão como a alguém que jaz à mercê da sua ira, não por vingança para ceifá-lo de entre os vivos mas amortalhada na vestidura piedosa do passado, silenciosa, remota, reprovadora."

James Joyce, Ulisses

Para noites de tempestade



Eduard Grieg, Morning




?

E se a chuva nunca mais parar?

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Diário de Bordo #9

O vício do jogo que esta tripulação apanhou no Mónaco foi debelado ao fim de três dias de clausura e umas quantas visualizações forçadas de um daqueles programas da tv cabo com homens de ar estranho e óculos de sol a jogar poker numa sala pouco arejada. 
Já o estado de pobreza em que nos deixaram, suspeito, demorará muito mais do que isso a sair-nos do corpo.
Neste navio outrora faustoso, vive-se agora no limiar da miséria.
Estamos fundeados ao lado da costa francesa sem dinheiro para combustível nem para taxas de marinas.    Gastei os últimos euros que tinha a comprar-lhes novas roupas para substituir aquelas que apostaram nas bancas improvisadas do jogo do bicho com que me envergonharam em Cannes. 
O papagaio, se não fosse emprestado e não tivesse já morrido, não passando de um espectro depenado, tê-lo-íamos comido ontem ao jantar. 
Ás queixas da tripulação perante a miséria do cardápio, sugeri-lhes que se inspirassem no tal do pescador que sobreviveu dezoito meses a água da chuva, gaivota, peixe e sangue de tartaruga. Achei que tivessem percebido a mensagem mas fui dar com eles reunidos à mesa a discutir se gaivota se deve fazer acompanhar por vinho branco ou tinto. Só os ex-presidiários e os poetas parecem pouco incomodados com a situação. 
Como medida desesperada decidi vender no OLX a Bimbi que nos tempos áureos comprei a Andhriminir, o cozinheiro Pirata, para lhe apaziguar a birra. Esperava protestos, mas até o sadismo do cozinheiro anda esmorecido e limitou-se a informar-me que passaremos a comer as algas cruas.
Com os duzentos e cinquenta euros que conto receber pela Bimbi espero conseguir comprar umas galinhas, uns coelhos, dois barris de rum e uma caixa de Lexotan. Estamos assim reduzidos aos bens essenciais.
Aqui fundeamos não temos condições para desenvolver a nossa atividade de terrores dos mares e saqueadores universais da humanidade. 
A situação é desesperada e o brainstorming diário só serve para gastar o pouco ferro que ainda temos no organismo.
Enviei uma carta ao Jack Sparrow.

Equívocos 2


Equívocos

Estavam equivocados. Foi o que disseram a terceiros.
Não fizeram por mal, não quiseram violar as leis, conspurcar o paraíso, destruir o mundo.
Apenas um equívoco. Como o de Eva com a maçã. 
Só que não exatamente com a maçã. Com o cianeto nas sementes da maçã. 
Um como o outro e consigo próprios.
Com a sua capacidade de resistência ao veneno.
Foi tudo um equívoco. Tranquilizaram-se os terceiros.

O triunfo da Estatística

Pedro Mexia, Aqui


THIS IS 40

O que é ter quarenta anos? Cada um sabe de si, de acordo com a sua biografia e feitio. Eu definiria os «quarenta anos» (tenho 41) como a idade em que a nossa vida vista de fora é igual à nossa vida vista de dentro. Não se trata de qualquer «transparência», que abomino. O que existe é uma tremenda previsibilidade, e uma distância que nasce da experiência. Nos últimos meses tentei esquecer-me disso, a espaços, mas não consegui: aos quarenta anos todos os medos correspondem a perigos, todas as suspeitas são fundadas, todas as ilusões são de facto fictícias, todas as impossibilidades inexequíveis, todas as fatalidades inevitáveis. Nenhuma surpresa, nenhum imponderável, nenhuma excepção à regra, o triunfo absoluto da lógica, do óbvio e até da estatística.