quarta-feira, 30 de julho de 2014

Fuso horário

Por fim, entre os dois interpôs-se a noite.
Como se não houvesse maior distância possível do que aquela que impede duas pessoas de fixarem, em simultâneo, o mesmo sol.
E foi como se cada um dos dois vivesse os dias sob uma agonizante luz artificial.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A poesia não está inocente

Um barco de madeira que encontraram na margem do rio e empurraram até à água. O sol a bater-lhe nos olhos e os contornos do rosto dele a esbaterem-se na luz do fim de tarde. Um vestido branco deitado, imóvel, sobre os joelhos dele. O livro de poemas aberto na página marcada. Uma voz em uníssono com o sussurro dos juncos. O trajeto da lua nascente no horizonte. Uma mão que se segura na outra. O verso que ele lhe repete. E repete. E também estas coisas deverão um dia amanhecer esquecidas.  

A décima oitava casa

A minha décima oitava casa tem vista para as copas das árvores.
E uma varanda voltada a Sul onde as gaivotas vêm pousar.

Nada pode correr mal.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Perder ou ganhar






“From this point on in our lives, she had whispered to him earlier, we will either find or lose our souls.” 


Mas uma certa forma de decoro, terá impedido um de dizer ao outro que a premissa imutável é a existência de uma ou duas almas perdidas.

Da reinserção social



Sobre as férias, vim aqui informar que, lá pelo vigésimo mergulho, desvanece-se a estranheza de não ter rigorosamente nada importante para fazer. 


domingo, 20 de julho de 2014

Este é o degrau onde tropeça a melancolia




Estas são as minhas veias cruas,
disfarçadas na seda debruada do vestido
que roubei numa loja de Paris.

Estes são os meus ossos transparentes,
algemados nas asas de um sepulcro profundo
de chão de veludo-brocardo e cristais.

Trocava-os pela efemeridade de ser o fio de vento
que abraça os ombros ressequidos de sol
do Pirata
adormecido sobre as pedras da praia,
entre a onda que nasce e a que morre.

Onde as estrelas do mar dançam
a dança que embala o esquecimento
E o vento se deixa naufragar.

Este é o degrau onde tropeça a melancolia
de uma manhã que demasiado tarde e em vão se eleva
num céu de perfeito algodão doce.




sábado, 19 de julho de 2014

O mármore da tua ausência

E assim fazemos cumprir, em dobro, e qualquer uma destas tardes, em triplo, a profecia do poeta que transformámos em promessa, inquebrantável como o mármore da ausência: 


Despedida

Hão-de erguer-se entre o meu amor e eu 
trezentas noites quais trezentos muros
e o mar será magia entre nós dois.

Apenas haverá recordações.
Oh tardes merecidas pela pena,
noites esperançadas ao olhar-te, 
que vejo e vou perdendo...
Definitiva como um mármore,
a tua ausência irá entristecer outras tardes.


Jorge Luis Borges, Obra Poética, Vol. I, Quetzal.


Algodão doce


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Afinal

As camas de praia, mesmo em lounges simpáticos, sobretudo nesses, talvez não sejam o melhor sítio para se conseguir escrever um conto em tempo útil.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Um calendário usado

Entre o meu lixo, descubro dezenas de fotografias impressas dos teus pés.
É o calendário eternamente incompleto de que hesito em desfazer-me.
Reparo na última imagem, no teu pé direito ao lado do meu pé esquerdo.
Figuração de um passo único. Mas incerto. Aleijado. Impróprio para caminhar.

Das férias

A única conjugação aceitável do verbo perceber.

sábado, 12 de julho de 2014

Permutas


Para o Xilre, que me deu o Wallace

Reafirmação do Romance

A noite não sabe nada dos cânticos da noite.
É o que é, como eu sou o que sou:
E percebendo isto, percebo-me melhor a mim

E a ti. Só nós dois podemos permutar
em cada um aquilo que o outro tem para dar.
Só nós dois somos um; não tu e a noite,

Nem a noite e eu, mas tu e eu, a sós;
Tão a sós, tão profundamente por nossa conta,
Tão além de ocasionais solidões;

Que a noite é apenas o nosso cenário,
cada um na suprema verdade de si próprio,
na pálida luz com que nos iluminamos mutuamente.


In Wallace Stevens
Tradução miserável by Cuca, na falta de melhor e receptiva às vossas sugestões
O original:
Re-Statement of Romance
The night knows nothing of the chants of night.
It is what it is as I am what I am:
And in perceiving this I best perceive myself

And you. Only we two may interchange
Each in the other what each has to give.
Only we two are one, not you and night,

Nor night and I, but you and I, alone,
So much alone, so deeply by ourselves,
So far beyond the casual solitudes,

That night is only the background of our selves,
Supremely true each to its separate self,
In the pale light that each upon the other throws.




SuperMoon

Em retrospetiva, sei-o agora, não haveria nada que pudesse ter sido feito.
A explicação saltou de um antigo calendário de superluas devastadoras e libertou-me.
Talvez até volte dançar sob a luz de uma nova lua gigante.
Tremores de terra e marés violentas, pensando bem, é o preço bagatelar do feitiço.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Cantigas de Escárnio e Maldizer

III.

Ele

Nunca foi amor, foi um equívoco. 
Num início de tarde tu foste embora e a montanha recuperou o silêncio. Mas o silêncio não voltou vestido do branco da quietude, tilintando os acordes do fundo da paz. Foi um silêncio opaco e pesado como uma surdez eterna. Um silêncio de interior de caixão soterrado.
Primeiro dei pela falta de todos os pássaros e vi ninhos caírem vazios no chão. Depois percebi que as noites aumentaram no tamanho e no rigor, sem um rasgo de lua a cortar o negrume. Esperei o nascer do sol no cimo da montanha, mas ele não veio iluminar o mar que amanheceu para sempre cinzento.
E então fui para o porto, à procura de um barco que me devolvesse uma partícula de elemento vivo. Mas os barcos encalharam no molhe e transformaram-se noutra montanha. De madeira e metal e plástico inútil.
Nunca foi amor, foi um equívoco.
Vagueei durante dias pelas areias da costa à procura de uma clave de sol início de um som de vida que quebrasse o silêncio. O mar vomitou búzios vazios, conchas carcomidas pelos anos e algas mortas. Nenhuma semi breve.
Tentei ler o teu rosto nas nuvens mas nem essas assumiram outra forma que não a neblina profunda onde se confundem o início e o fim das coisas.
Contei as noites pelos dedos e perdi-me no último dedo grande do pé. 
Numa madrugada, esqueci-me dos contornos do teu rosto e percebi a decomposição imagética do homicídio. Nesse dia, quando enterrei o meu corpo na areia para dormir, sonhei com um piano e compus nele uma música que ecoasse a minha miséria.
Na manhã seguinte acordei numa cama que me disseram ser a minha. Aninhei-me nela na posição fetal que conservo.
Recordo vagamente, como uma sombra lunar, aquilo que me ensinaram de ti.
Nunca foi amor foi um equívoco.



Amor epistolar 2

Descobri que Herberto, o escritor que nunca vi e que tem colorido os meus fins de tarde neste navio com o filtro polarizador da paixão nascente, tem oitenta anos. 
Enviei-lhe uma carta mais desesperada do que as outras exigindo-lhe o remédio para as minhas angústias existenciais que, percebo-o agora, passam pela necessidade de consumação deste amor epistolar.
Herberto, que crê que todas as respostas a outros tantos problemas equacionáveis nos foram gentilmente cedidas na literatura de Borges, mandou-me ir procurar ao livro.
Umas páginas depois, percebi que Herberto se estava a referir ao platonismo como solução.
Fui perguntar ao meu senhorio Israelita da Planície o que pensa disto.
Deu-me a seguinte resposta:

- Deves esquece-lo já! E, penosamente, voluntario-me para ser usado nesse processo.

Fiquei tão comovida com o espírito de sacrifício que não tive coragem para lhe corrigir o tratamento informal.

Itinerância

No último instante possível, perguntei ao coração, essa coisa que fica no fundo da alma à esquerda, onde estava a minha casa.
O coração explicou-me, com a paciência que é marca característica de todos os meus órgãos, que nem sempre a nossa casa permanece no sítio onde conservamos o endereço postal.
Foi com alívio que recentemente recebi a notícia que, embora não voltando para o meu lugar, este ano fico em casa.


sábado, 5 de julho de 2014

Manhãs


So speak kind to a stranger
Cause you'll never know
it just might be an angel come
Knocking at your door
Knocking at your door

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Teatros



Neste teatro, que é de sombras e é mudo, redistribuíram-nos os papéis no final do primeiro acto.
Saiu-te nas sortes chinesas a figura do vilão e a mim o da tua mocinha. 
Também podia ter sido ao contrário sem que o sol se perturbasse no seu trajeto do nascente ao ocaso ou qualquer outra estrela se movesse no firmamento de uma forma perceptível ao olho nu do pescador que sabe que amanhã a preia mar será às cinco e quarenta e oito. 

Perdoar-te com sinceridade devota é um texto que decoro e recito para dentro. Fazeres a vida na sombra da indiferença ao meu perdão é um gesto que repetes dentro das linhas de marcação do palco.

E ambos sabemos que depois do cair da cortina, 
apenas o som da madeira de duas marionetas, estragadas, de encontro ao chão cansado. 
E as sórdidas palmas de uma plateia néscia,
do amor.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Diário de Bordo

Na vida, e este navio é igual à vida mas em versão ligeiramente bizarra, os objetivos atingem-se mais ou menos por acaso e só por mera coincidência estatística na proporção do esforço meritório empregue. 
Fiquei pasmada quando percebi que, apesar do pouco que temos feito para realizar a nossa missão de atemorizar o mundo e granjear a fama, já ouviram falar de nós na Argentina.
Álvaro de Campos interrompeu-me o pequeno almoço de salada de frutas com iogurte e mel para me entregar nada menos do que uma carta de Jorge Luís Borges.
Aparentemente, Borges tem um amigo Pirata apanhado nas malhas do desemprego corsário e decidiu escrever-me para me meter uma cunha.
O candidato chama-se Egil Skallagrimsson e, segundo Borges, tem o seguinte curriculum: 

"A sua história abarca o Norte: a Islândia, onde nasceu no início do século X, a Noruega, a Inglaterra, o Báltico e o Atlântico. Foi hábil no manejo da espada, com a qual matou muitos homens, e no manejo da métrica e da intrincada metáfora. Com sete anos já tinha composto o seu primeiro poema, no qual pedia à mãe que lhe desse um navio comprido e bonitos remos para para sulcar o mar e fustigar as costas e matar aqueles que o enfrentassem. Nas antologias perdura o "Resgate da Cabeça", que na cidade de Iorque lhe salvou a vida, e uma ode que celebra a vitória saxónica de Brunangurh, na qual entreteceu uma elegia para chorar a morte de Thorolf, seu irmão, que caíra durante a batalha e a quem deu sepultura. Fugitivo da Noruega, gravou numa caveira de cavalo uma maldição de duas estrofes de setenta e duas runas cada uma, número que lhe conferiu uma virtude que não tardaria a cumprir-se. Era iracundo como Aquiles e cobiçoso. (...)"

Foi nesta altura que interrompi a leitura da carta, com os dedos tremeluzentes e as pernas bambas diante da magnífica perspetiva de ter entre nós um mix Pirata/Poeta iracundo e cobiçoso que desde os sete anos sonha fustigar até ao pó inocentes povoações costeiras.
Mas logo que levantei os olhos do papel pardo vislumbrei a minha tripulação embrenhada na sua heróica atividade de apanhar banhos de sol e percebi que talvez não tenha trabalho para Egil Skallagrimsson.
Ainda me ocorreu contrata-lo para nos espalhar protetor solar nas costas, mas logo reparei que Borges anexou uma fotografia do candidato:

Terei de escrever-lhe a explicar que Skallagrimsson tem excesso de qualificações.

(In, Biblioteca Pessoal, Quetzal)

O meu amigo está longe


"Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto"