sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O ensinador de nuvens


Pendurada nestes fiapos do céu de hoje,
quase consigo ver os contornos do sorriso que disfarças,
para depois  denunciares na expressão dos sonhos acordados
dos meninos de outros dias.

Estás rodeado de gente séria,
de pescoços esticados na direção do céu,
enquanto lhes desvendas metade do mistério da transmigração da substância das nuvens.

A outra metade é demasiado tua para que a possas ensinar.
É essa reserva, a génese do sorriso que disfarças,
para depois denunciares na expressão dos sonhos acordados
dos meninos de outros dias.

Pendurada nestes fiapos do céu de hoje,
quase consigo tocar a substância das nuvens
na metade que não ensinas:

a que é demasiado tua.

Sortes chinesas

Ouvi os versos, pela primeira vez, numa noite de início de verão, deitada numa varanda com vista para Orion.
Falava na sorte moldada pelo barro daquela terra. Uma sorte, dizia o verso, marinheira. Uma sorte, explicava, entre o mar e o vento norte.
Aprendi as palavras de cor, que é como quem diz, com o coração. 
Foi para me libertar delas que as escrevi, pela últma vez, numa manhã de início de outono, num antigo livro de visitas.
Não voltei a ouvir ou a escrever os versos e menos ainda a ver o barro daquela terra. 
Mas agora, vários anos depois, percebo que, afinal, na partida não me libertei de nada. Nem dos versos que continuo a saber com o coração, nem da sorte que foi moldada naquele barro.
Uma sorte marinheira, entre o mar e o vento norte.


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Das coisas bonitas

Get out of my mind
In the morningRests the paperHeavy snow fallWakes my neighborsThe alarm callsI clean out my eyesFeeling nauseousAs the world spins around
Get out of my mind

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Eufemismos

À primeira vista parece satisfatório definir-se a vida, uma vida em concreto, como uma sucessão de experiências. 
Mas por vezes percebe-se que, não deixando de ser assim, o sentido verdadeiro estará mais próximo de Oscar Wilde, que escreveu que a experiência é o nome que damos aos erros. 
Apenas uma sucessão de erros, portanto.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Quando saíres fecha a porta

Deste palácio abandonado mandei arrancar todas as portadas.
No seu lugar ficaram as janelas por onde entra o mundo.
O nó que sentes na garganta é o início de uma amigdalite vitalícia. 
Há-de descer-te pelos pulmões até ao coração inflamado.
Aqui há correntes de ar impróprias às fragilidades humanas.
Restringimos a complacência a fraquezas de origem divina. 

Neste palácio abandonado não há gaiolas fechadas.
Os pássaros fazem o ninho nas palmas das minhas mãos abertas
E as crias debicam-me as nozes dos dedos por onde escorreram os anéis.
Em tempos houve rubis. Mas as pedras são frias.
Se não tens cuidado congelam-te o olhar.
Troquei-os por duas ou três gotas de sangue nas veias. 

Por este palácio abandonado passeia-se em fúria o vento norte.
Rouba a areia das praias para desenhar as dunas que me servem de cama 
E pelas frinchas dos sonhos sopra acordes de orquestra que me embalam.
O silvo que te rodeia os ouvidos é a agonia do vento norte
há-de instalar-se no interior da tua memória e ensurdecer-te.
Aqui ouve-se uma música imprópria às fragilidades humanas.

Por isso, por favor, quando saíres fecha a porta.

domingo, 26 de outubro de 2014

Moraly speaking

“Am I a good person? Deep down, do I even really want to be a good person, or do I only want to seem like a good person so that people (including myself) will approve of me? Is there a difference? How do I ever actually know whether I'm bullshitting myself, morally speaking?” 


In David Foster Wallace, Consider the Lobster and Other Essays

São ecos, senhora

A partir de determinada altura, o individual perde toda a importância para o coletivo, mas no pior sentido possível do conceito. 
Até uma relação desfeita deixa de ser lamentada de "per se".
Nada tem importância superior a um eco de uma coisa maior e mais distante. 
Se, com sorte, conseguires chorar, não choras a perda da pessoa ou da expetativa da pessoa que deixou de fazer parte da tua vida. Choras um coletivo de despedidas ou, com ainda maior sorte, aquela despedida que pela primeira e definitiva vez te partiu o coração.
É mais ou menos como ir para o funeral dos mortos dos outros chorar os nossos. Ou chorar sempre o mesmo morto em todos os funerais.
São ecos.
Não têm nenhuma importância. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Dor nos dedos

Quantas vezes choras a ouvir música e quantas vezes a ler um livro? A literatura não é eficaz nessa coisa: se é para sofrer a literatura é inútil. A música é rápida como a pancada forte é rápida na dor dos dedos.

Gonçalo M.Tavares, in àgua, cão, cavalo, cabeça

Relíquias

É fácil, demasiado fácil, dir-me-ias, jurar o ateísmo e mofar com a transcendência, vivendo-se rodeado de relíquias.
Um sari indiano que viu demasiadas coisas até chegar às minhas mãos. O búzio que semidesfiz entre os dedos. Uma folha de cartolina pintada de vermelho com ondas esculpidas a tinta prateada. Os restos de uma caixa de música e respetiva bailarina aprisionada que salvei das cheias. Uma pobre e velha edição da Ilíada com um coração desenhado a esferográfica durante um voo intercontinental. 
Procura-se a salvação tacteando coisas com o fervor da beata que desfia rosários. Consegue-se até, com esforço, engolir a cisma das energias congeladas nos objetos que, dir-me-ias, representam a mesma iconoclastia dos santinhos na mesa de cabeceira.
Terias razão. Não há diferenças significativas entre a entrega da esperança à ineficácia dos deuses e a absorção do desespero na impotência dos mortos.
Mas onde falham os deuses, sobram-me os mortos. 




segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Exigências de reposição

E até este verão que se instala quando já outubro se esvai em soluços, parece um último esforço do universo na reposição da ordem. Voltámos, portanto, a agosto e ao exato instante em que o caos interrompeu a métrica daquele que presumo ser o mesmo poema que leio hoje.
Tivemos de voltar a agosto para que, entretanto, nada, nada, se tenha passado.

domingo, 12 de outubro de 2014

Nós os Piratas percebemos pouco do prémio Nobel da Paz

... Mas ficámos desconfiados que este ano ninguém fez grande coisa por isso da Paz.

sábado, 11 de outubro de 2014

Contrato de salvação

Sentada num dos telhados da cidade, com a lua a emprestar o brilho ao rio, percebi, finalmente, porque é que gostava tanto daquela música. 
Se não estiverem ambos atrás do final do mesmo arco-íris, poderás ter uma coisa com várias designações à medida das tuas melhores conveniências. Nunca terás amor. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Insónia

E depois a noite. 
À espera.
Para roer as partes mais cansadas do corpo. 
O silêncio a pesar na curva das pernas. As sombras a lembrarem-me que vias cães doentes pendurados no tecto quando te deitavas, 
assim, vazio de tudo o resto.
Lá fora, o jardim imóvel confunde-se com um cemitério.
 À espera. 
Aquela árvore sem folhas poderias ser tu, 
Empoleirado na minha janela a escarnecer da gravidade de um outro olhar que desiste.
Numa madrugada assim tudo se torna possível.
Até sentir a paz que te ficou do voo eterno em que te lançaste.
À espera. 
Enquanto a noite durar, evitar os espelhos.
E os tectos onde balançam animais doentes.
E o silêncio que esmaga os ossos cada vez mais pesados.
 E o jardim, lá fora, que se confunde com um cemitério. 
À espera. 



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Das perguntas proibidas


Y será verdad, y será verdad, y será verdad
Que tengo un lugar en tu alma

Y será verdad que en tu soledad me buscabas
Y será verdad que en tus sueños no me encontraba
Y será verdad, y será verdad, y será verdad
que tengo un lugar en tu alma

(...)

Desde que el mar y la luna, desde que el sol y la tierra,
desde que la aurora es una, desde que el hijo y el padre
Desde el deseo y la carne, desde entonces mi locura

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Empréstimos

No livro que me foi emprestado, uma dedicatória manifesta o desejo imenso de ficar com ela para sempre. E informa que ele lhe pertence. 
Não sei quem foi ela, se o livro nunca chegou a ser entregue à destinatária da dedicatória, ou se foi devolvido, espólio de inventários posteriores. 
O desejo imenso não se cumpriu. Mas há declaraçoes de propriedade que sobrevivem à frustração das vontades. 
Ocorreu-me que nunca saberemos, de facto, a quem pertencem as pessoas com quem partilhamos as noites. 
É a diferença entre uma doação e um empréstimo. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Como um rei

O coelho como rei dos fantasmas 


A dificuldade de pensar no final do dia,
Quando a sombra disforme cobre o sol 
E nada sobra a não ser a luz na tua pele - 

Havia o gato a lamber o seu leite todo o dia 
Gato gordo, língua vermelha, mente verde, leite branco 
E Agosto, o mês mais tranquilo.

Existir, na relva, no mais tranquilo dos tempos, 
Sem aquele monumento de gato,
O gato esquecido na lua;

E sentir que a luz é uma luz de presença,  
Onde tudo é pensado para ti
E nada precisa ser explicado;

Então não há nada em que pensar; tudo nasce de si próprio;
E o Este apressa o Oeste e o Oeste apressa-se. 
Não interessa. A relva está cheia.

E cheia de ti. As árvores em redor são para ti,
O todo da imensidão da noite é para ti,
Um ser que toca todos os limites,

Tu tornas-te num ser que preenche os quatro cantos da noite. 
O gato vermelho esconde-se no brilho do pelo
E lá estás tu, a subir a duna, na duna,

estás cada vez mais alto, na duna, preto como pedra
Sentas-te com a tua cabeça como uma escultura no espaço 
E o pequeno gato verde é um inseto na relva. 

Wallace Stevens
Tradução de Cuca 


The rabbit as the king of the ghosts

The difficulty to think at the end of day,
When the shapeless shadow covers the sun
And nothing is left except light on your fur—

There was the cat slopping its milk all day,
Fat cat, red tongue, green mind, white milk
And August the most peaceful month.

To be, in the grass, in the peacefullest time,
Without that monument of cat,
The cat forgotten in the moon;

And to feel that the light is a rabbit-light,
In which everything is meant for you
And nothing need be explained;

Then there is nothing to think of. It comes of itself;
And east rushes west and west rushes down,
No matter. The grass is full

And full of yourself. The trees around are for you,
The whole of the wideness of night is for you,
A self that touches all edges,

You become a self that fills the four corners of night.
The red cat hides away in the fur-light
And there you are humped high, humped up,

You are humped higher and higher, black as stone—
You sit with your head like a carving in space
And the little green cat is a bug in the grass.