sábado, 28 de fevereiro de 2015

Loucos anónimos

Olá. 
O meu nome é Cuca e hoje não fiz muffins (ainda).
Vivo nesta casa com duas varandas onde as gaivotas vêm pousar e às vezes ficam do lado de fora da janela a olhar-me dentro dos olhos como se soubessem a verdade. Como que a dizer-me, mais precisamente, que sabem a verdade. O mar está sempre nas minhas costas porque assim teve de ser. Esta é  a minha décima oitava casa e não será a última. Mas foi a primeira casa que eu escolhi para ser feliz. A felicidade, não se deixem enganar, precisei ler muitos livros para chegar a esta conclusão, é uma opção pessoal e intransmissível. Escolhe-se todos os dias ser um bocadinho feliz e um dia distraímos-nos e morremos e os outros dirão, aliviados, que ao menos fomos felizes. Ser feliz é uma responsabilidade social, como bem o sabem todas as pessoas que mantêm padrões mínimos de generosidade. Noutros tempos também eu me revoltei contra os cânones instituídos e declarei-me livre do espartilho da felicidade como meta obrigatória e padrão mínimo de inferência de uma normalidade pacificadora. Mas depois compreendi que o direito à infelicidade é conquista que não justifica a convocatória de um exército. Apresentei-me nas fileiras do escrutínio das almas com uma bandeira branca e optei por ser feliz apenas para que me deixassem em paz. Com a minha casa com duas varandas onde as gaivotas vêm pousar entre dois voos e o cheiro permanente da baunilha das velas e os livros que compro compulsivamente para ter sempre tantos que nunca sou realmente obrigada a ler nenhum. Se tivesse mais espaço deixaria todos os livros abertos na sala para que as letras pudessem tatuar a atmosfera e confundir-se na minha ausência formando palavras novas. Às vezes penso que o mal do mundo reside na falta de palavras novas. Talvez através delas pudéssemos inventar novas emoções e inventar a cura para o tédio. Mal mortal e contagioso. Além de livros também compro muitos vestidos. Tenho centenas de vestidos que me servem para garantir a oportunidade de escolher sempre os mesmos três ou quatro. Ter coisas acalma-me. E fazer muffins compulsivamente. Da mesma forma como algumas pessoas escolhem ser alcoólicas ou drogadas ou viciadas em pornografia ou poetas eu tenho uma compulsão que me leva a fazer muffins. Faço-os sempre iguais. Com framboesas. Nem sequer gosto particularmente de comer muffins. Acho que gosto apenas de os ver crescer dentro de umas formas estranhas de silicone que também compro compulsivamente. E a tensão de nunca saber como é que aquilo ficará afinal, anula a tensão de não saber como ficarão afinal, outras coisas mais importantes do que os muffins e que não dependem de receitas retiradas da internet, como, por exemplo, a vida o amor e as vacas. 
Ser viciada em muffins, corrijo, em fazer muffins, não é a pior coisa do mundo quando se ganha um salário que dá para comprar vários pacotes de farinha e açúcar e ovos. Além do mais, há uma música de uma banda brasileira chamada O Rappa - que ouvi uma madrugada enquanto descia uma montanha dentro de uma daquelas pick-up que se usam para descer montanhas e ainda antes de ser viciada na confecção de muffins ou, sequer, ter revelado o menor sinal de distúrbio mental latente, e portanto, das últimas vezes que me lembro de ter sido sã - que diz que cada um tem os seus milagres. Cada um tem os seus milagres para fugir. Para resistir. 
Por isso, sou a Cuca e hoje não fiz muffins (ainda).
Em tempos gostava de escrever estórias e inventar peças de teatro com personagens trágicas que aspiravam à condição de morto-vivo (assim mais ou menos como no Ibsen). Mas depois um dia no meio da ponte de Brooklyn tive uma epifania brevemente relacionada com essa coisa da felicidade por decreto e passei a dar por melhor empregue o tempo que passo deitada no sofá a ver a casa dos segredos e a comer chocolate dolphin. Um que tem especiarias. Nietzsche alertou para os efeitos perniciosos de um certo tipo de arte só que ninguém o levou a sério porque toda a gente sabe que Nietzsche era louco.
Eu não gostava de loucos. Poupei os cento e cinquenta euros que o psiquiatra me levaria para me explicar que a razão pela qual tinha medo de loucos radicava na minha própria fobia de auto-enlouquecimento. Há coisas que nós sabemos sobre nós próprios e não precisamos que um estranho nos cobre dinheiro para nos dizer. 
Mas tudo isso faz parte do passado. Com o mesmo desprendimento e conformada inevitabilidade com que já antes havia abraçado a felicidade, decidi agora acolher a loucura. Para além do mais, descobri que é global e que apenas nos andamos todos a enganar uns aos outros. 
Num dos livros que hoje comprei em excesso, li isto:
O Eclesiastes diz no capítulo primeiro: "O número de loucos é infinito." Este número infinito abrange todos os homens, excepto alguns que duvido alguém tenha podido ver.
Foi, claro, no Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdão. 
E agora vou fazer muffins.








A barbearia, os cães e as mulheres.




Com o atraso que caracteriza o ritmo com que entro no mundo real - para muito rapidamente dele sair e regressar para a obtusidade do mais inusitado verso de Herberto, que no fundo, no fundo, é aquilo que verdadeiramente interessa - também eu quero dizer coisas sobre isso da barbearia, dos cães e das mulheres.
Consta que anda para aí uma barbearia que decidiu proibir a entrada às mulheres. Consta também que a mesma barbearia, não satisfeita com o conceito exclusivista, ou excluidor, dependendo da perspetiva de quem fica de dentro ou de fora da porta, decidiu publicitar-se fazendo uma alusão provocatória ao facto de os canídeos (não sei se também aqui com exclusividade aos machos) poderem entrar, em detrimento das mulheres. 
Por princípio, oponho-me a conceitos comerciais que vetam a entrada a um dos géneros e jamais os alimentaria. Tanto me perturbam os famosos ginásios onde menino não entra, como a agora famosa barbearia criada para servir homens e cães. E antes que me venham com a conversa da liberdade na iniciativa comercial privada, relembro que até essa está sujeita às proibições decorrentes da Constituição da República Portuguesa que, a última vez que verifiquei, ainda estava mais ou menos em vigor. O sol da proibição de discriminação de género nasceu para todos. 
O que distingue a barbearia dos ginásios é que estes últimos, que saiba, não tiveram o mau gosto de se promoverem através da uma provocação publicitária que pretende atirar à cara de uma parte da humanidade que, dentro daquele estabelecimento comercial, tem menos direitos do que os cães. 
O "slogan" da barbearia é infame e faz lembrar os antigos cartazes nazis dirigidos à educação do povo alemão, em que os judeus eram comparados aos porcos e reordenados na escala social atrás dos cães. 
E se a proibição de entrada, por ser uma discriminação injustificada, me parece ilegal (idem para os ginásios), mas já não ofensiva, a técnica promocional dos senhores da barbearia parece-me claramente misógina, infame e insultuosa.
Isto legitima um grupo de mulheres mascaradas de cão a invadir a propriedade privada para fazer uma qualquer ação de campanha em nome do feminismo? Não, claro que não. 
O feminismo sofre do mal da má imprensa precisamente por causa de exageros carnavalescos desta ordem. O episódio terá conseguido apenas duas coisas e nenhuma delas positiva: potenciar publicidade gratuita a um estabelecimento comercial que é merecedor de desprezo e dar de comer à ideia feita de que as causas feministas são coisa de gente histérica.
Atingido o estádio civilizacional em que vivemos existem organismos próprios para quem se sente incomodado fazer valer aquilo que acredita serem os seus direitos. Foi para isso que tanto lutaram as mulheres e os homens que se opuseram e todos os dias se opõem à discriminação de género. 
E esses, certamente, não têm nada a agradecer a ações desta natureza. 
E agora vou regressar ao Herberto: 
"Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras. E acordavam."
Herberto Herlder, Os Passos em Volta, Porto Editora, pg. 51.

Ciclo Vicioso Kubler-Ross

Eventualmente acaba por subir-se o último degrau da escala.
O problema é que depois da aceitação não há mais nada. E o choque do niihilismo, já se sabe, conduz à negação.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Constatação empírica

A única criatura sensiente que conheço que tem sempre - sempre - uma motivação racional para as suas condutas é o meu cão. 

A primeira vez que me perdi

A primeira vez que me perdi foi a última. O estado de perdida encontrou-me com um copo de gin na mão, distraída, numa sala demasiado escura, a ouvir jazz. 
A cantora era negra e usava um vestido da mesma cor da lua, enorme, que se ria do lado de fora da sala. Sobre a montanha, sobre o mar, sobre as varandas e os alpendres, uma lua omnipresente que talvez também até se risse dentro do vestido de prata da cantora.
Depois a mulher - ou a lua, ou a mulher vestida de lua - aproximou-se da extremidade do palco e começou a cantar summertime. 
Foi nessa altura que entre mim e o homem sentado ao meu lado instalou-se um silêncio tão súbito, tão pesado e tão doloroso que foi como se os poucos centímetros que nos separavam, de repente, fossem o espaço que o oceano ocupa entre duas ilhas.
E então, para forçar a minha mente a desocupar-se da tensão do espaço entre as nossas mãos, concentrei-me nos movimentos da cantora.
Mas enquanto a música se espalhava pela sala, com o olhar fixo no palco, vi, juro que vi, o homem sentado ao meu lado dançar comigo na praia sob uma lua que ria. E vi-o deitado na varanda de uma casa desconhecida, desvendar-me cada um dos pontos de luz do céu da noite. E vi-o sob a água translúcida do mar, ensinar-me os peixes e as pedras. E vi-o numa tarde de chuva, na sombra de um farol, desfazer o nó dos nossos dedos. E vi muitas milhas de oceano a correr vazio. E vi-o, por fim, sentado, sozinho, no piano daquela mesma sala, numa noite sem estrelas. E foi a sua música que ouvi. 
E quando a canção chegou ao fim e voltei a olhar, primeiro, para o espaço encurtado entre as nossas mãos, e depois, para os olhos dele, percebi-lhe o rasto de uma lágrima e adivinhei que, durante aqueles três minutos, que poderiam ter sido três meses ou três anos, aquele quase desconhecido viu precisamente o mesmo do que eu.
Foi no tempo desse olhar mútuo, perscrutador, desconfiado, conformado, que percebi que estava perdida. 
Depois, usámos os dias para fazer cumprir a lenda. 
Às vezes, a muitas milhas de distância, em noites sem lua, pergunto-me se poderia ter evitado o passado, caso o futuro não me tivesse sido, de antemão, dado a conhecer.
Dir-me-ia a lua, a rir, que é irrelevante a resposta à minha pergunta.
Uma mulher só se perde uma vez.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A contar do fim

Entre o terceiro e o quarto verso materializa-se a tua última vértebra,
A contar do fim. 
Não é como se fosses etéreo. 
Apenas feito da substância das nuvens
Que se revela nos químicos da poesia.

É por isso que sempre te peço um poema. 
Ontem a última vértebra,
Hoje um fio de cabelo,
Amanhã um centímetro de pele, 
A vida toda a lenta transmutação do ser.
A contar do fim. 



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Estações

O sol, nas esplanadas dos restaurantes junto à praia desta estância balnear abandonada onde cumpro o meu exílio, não nasce para todos com a mesma intensidade. 
Por baixo das minhas três camisolas e casaco de inverno, contemplo invejosa o verão que chegou à mesa dos ingleses, onde se vive no cansaço de um tórrido agosto, daqueles de pés cheios de areia pousados em havaianas e camisolas de alças a exibir ombros que clamam pela intervenção urgente de um fenistil. 
Talvez também eu pudesse saltar por cima dos próximos seis meses e deitar-me já em pleno agosto. E o que deixaria para trás? Seis luas cheias sobre a imensidão de um oceano tão igual em cada milha sua como cada um dos meus dias.
Ocorre-me que os ingleses, ao menos, têm um inverno para onde voltar. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O amor dos estúpidos não vale nada #1

"O tolo é um amante sempre contente e tranqüilo. Tem tão robusta confiança nos seus predicados, que antes de ter provas, já mostra a certeza de ser amado. E assim deve ser. Em sua opinião faz uma grande honra à mulher a quem dedica os seus eflúvios. Não lhe deve felicidade; ele é que lha dá; e como tudo o leva a exagerar o benefício, não lhe vem à idéia de que se possa ter para com ele ingratidões. Assim, no meio das alegrias do amor, saboreia ainda a embriaguez da fatuidade. Mas como, em definitivo, é ele próprio o objeto de seu culto, depressa o tolo se aborrece, e como o amor para ele não é mais que um entretenimento que passa, os últimos favores, longe de o engrandecerem mais, desligam-no pela sociedade."

Machado de Assis, in "Queda que as Mulheres Têm para os Tolos" 

Bom dia!

E era isto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Memória de um tango


Um tango dançado por entre o fumo e os olhares hostis de homens de chapéus negros e mulheres enfolhadas até aos tornozelos num florido nauseante. 
É a memória que lhe guardo. 
Não mais do que esse abraço de dança trágica em que o desejo e a raiva são as duas faces da mesma moeda de prata que há de rolar no chão de madeira gasto, depois do silêncio que se segue à última nota do acordeão. 
A rosa manchada pelo sangue de um peito aberto num único golpe de lâmina, desfeita na confusão dos corpos e dos passos.
E a noite mais longa de todas, com o frio a soprar vindo de dentro, a morte embrulhada em perfume ardente e uma ausência nas veias. 
Enquanto esperávamos que a moeda se quedasse para nela conhecermos o rosto daquele a quem, de entre os dois, o destino fez assassino



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O amor dos estúpidos não vale nada

Há muito que ando pelo mundo a dizer que o amor dos estúpidos é coisa que pouco vale.
As reações dividem-se entre as prontas acusações de snobismo intelectual (acompanhadas da garantia veemente que este é o pior tipo de snobismo possível, não vá eu interpretar o epíteto de forma eufemistica) e os complacentes encolheres de ombros seguidos de um aceno de cabeça que é a linguagem gestual apropriada para exprimir a profunda falta de esperança em alguém. 
Traumatizada pela constante discordância com aquilo que ninguém me tira da cabeça que é uma conclusão óbvia, fiquei muito feliz quando li Ortega y Gasset, nos Estudos sobre o Amor, dizer mais ou menos a mesma coisa, de forma socialmente mais aceitável.
Mas é António Damásio, em O Sentimento de Si, que do alto da autoridade que a ciência lhe confere, me iliba das acusações indevidas de que tenho sido vítima.
"A consciência é a função biológica que nos permite conhecer a tristeza ou a alegria, sentir a dor ou o prazer, sentir a vergonha ou o orgulho, chorar a morte ou o amor que se perdeu. Tanto a tragédia como o desejo são iluminados pela consciência. Sem ela, nenhum desses estados pessoais poderia ser conhecido por nenhum de nós. Não culpem a Eva pelo facto de conhecer, culpem a consciência mas agradeçam-lhe também."
Depois explica que para além da consciência nuclear, que não é exclusivamente humana, existe a conciência alargada que "coloca essa pessoa num determinado ponto da sua história individual, amplamente informada acerca do passado que já viveu é do futuro que antecipa, e agudamente alerta para o mundo que a rodeia".
Ora, sabendo-se que a consciência não é se não uma forma de inteligência e que as emoções não são separáveis da consciência, não será forçoso concluir que os sentimentos dos, er... menos capazes de um nível profundo de consciência, não valem.... er... não têm intensidade relevante? 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Dos fundamentos psicológicos da vergonha alheia

"O que faz um homem é como se o fizessem todos os homens. Por isso não é injusto que uma desobediência num jardim contamine toda a humanidade; por isso não é injusto que a crucificação de um único judeu baste para a salvar."

Jorge Luis Borges, Ficcões, A Forma da Espada 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Música do dia


Do relativismo

A viúva chora, desamparada, aquele tipo de lágrimas que se choram quando nem sequer se dá conta que se está a chorar.
E então, ouvimo-la dizer para o vazio, em jeito de pedido de desculpas à assistência:
- Como é que isto se faz? Eu nem sequer sei como é que isto se faz...
E nós olhamos para os pés, envergonhados pelas angústias próprias que elevamos à categoria de dor.

Poema incompleto

A avidez do nada que tens para me dar,
Faz-me ficar à espera que tires dos bolsos o mundo.
Uma caixa de fósforos, um botão de camisa, uma casca de noz,
A ponta de uma fotografia rasgada dos dias da tua infância.

Expostos um a um, no tampo da mesa de madeira riscada,
Onde alguém poderia ter gravado um coração com a chave do carro,
Apenas para melhor conforto do espectador. 

Mas os instantes perdem-se aquém da perfeição.
E de bolsos despidos, apenas os nossos dedos, 
De mendigo, 


A tatear o vazio ou a esboçar no ar o gesto de um poema. 
Incompleto.





sábado, 14 de fevereiro de 2015

Quota disponível


Às vezes penso que deve haver um limite de palavras. Como se cada um de nós nascesse sob o signo de uma quota disponível de poesia, fixada à nascença por uma madrinha boa que se aproxima do berço e nos sopra ao ouvido.
Às vezes penso que a minha quota disponível pode bem estar a aproximar-se do fim. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A dor dos inocentes

Aquele homem que, até então, nunca tinha conhecido a infelicidade; que foi rei num reino feito de súbditos complacentes; que a pior sombra que se lhe viu passar no rosto foi a do tédio dos fins de tarde de domingo, ou nem isso; que desconhecia o silvo da consciência que endurece a almofada; que da solidão saboreou apenas o breve alívio do excesso de presença dos outros; que da dor de não ter foi protegido pelo pragmatismo das autolimitações no querer; aquele homem, dizíamos nós, que até então nunca tinha conhecido a infelicidade, por força de uma daquelas avarias inusitadas da máquina da existência, em que um grão de areia se desloca do lugar que lhe foi destinado por ação de um brisa vespertina provocada pelo bater das asas de uma ave próxima que se assustou com a aproximação de um barco empurrado para a margem pela sétima onda, viu a sua vontade escravizada pelos desmandos de dois corações imprudentes e destruiu muitas vidas.
Então, aquele homem, do cimo da montanha, contemplando a mortandade espalhada pelo solo do seu reino e incapaz de se dobrar a uma culpa que sabia ser-lhe alheia, expressou a dor possível: 
A dor de "não ter conseguido ser apenas uma boa pessoa".

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Okupas

Eros é o invasor que se instala subreticiamente na cave de casa. E tu manténs a porta trancada para ele não entrar. E um dia reparas que, sem saberes como, tomou-te um quarto e uma sala. E fechas a porta de acesso ao corredor e limitas-te à parte da casa sobejante. Mas passado pouco tempo, quando acordas no primeiro andar, percebes que o amor tomou todas as divisões do rés-do-chão. E então resignas-te a viver no andar superior. Só que o amor subirá as escadas. E quando deres conta que também o limiar dessa última porta foi ultrapassado, já não terás mais sítio para viver. E é então que te lembras que nem sequer podes sair para a rua. Porque a casa só tem uma saída e, essa, fica na cave.



Relatório metereológico

Esta manhã fui acordada pela madrugada de um outro lugar.
O sol tinha acabado de nascer e o mar parecia iluminado por dentro
como se as sereias, insones, acendessem velas para aquecer as mãos.

Não aqui, onde até o sol se recusou a rasgar o dia. 


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Do pop jazz nos fins de tarde de domingo


Culpar as botas quando a culpa é dos pés

Foi quando reli este diálogo que percebi tudo:
(...)
 ESTRAGON - vamos enforcar-nos agora mesmo!
VLADIMIR - Num ramo? (Aproximam-se da árvore) Não me parece de confiança.
ESTRAGON - Não se perde nada em experimentar.
VLADIMIR - Força!

ESTRAGON - Primeiro tu.
VLADIMIR - Não senhor, primeiro tu.
ESTRAGON - Porquê eu?
VLADIMIR - Porque és mais leve do que eu.
ESTRAGON - Por isso mesmo!
VLADIMIR - Não percebo.
ESTRAGON - Puxa lá pela cabeça.
VLADIMIR - (finalmente) Continuo a não perceber.
ESTRAGON - Então é assim. (Pensa.) O ramo... O ramo...
(Zangado.) Puxa lá pela cabeça!
VLADIMIR - És a minha única esperança.
ESTRAGON (com esforço) Gogo leve - ramo não partir.
- Gogo morto. Didi pesado - Ramo partir.
- Didi sozinho. Porque se - 
VLADIMIR - Não tinha pensado nisso.
ESTRAGON - se puder contigo pode com qualquer coisa.
VLADIMIR - Mas será que eu sou mais pesado do que tu?
ESTRAGON - La isso não sei. O que é que tu achas? Há cinquenta por cento de hipóteses. Ou quase.
VLADIMIR - E então o que é que fazemos? 
ESTRAGON - Deixa estar. O melhor é não fazermos nada. É mais seguro.

(...)

Somos Gogo e Didi, aqui debaixo desta árvore, à espera de Godot. 


comunicações intergaláticas

Um dia, como hoje, também fazias anos e fomos ao teatro. Era Shakespeare. Fizeram-te um desconto no bilhete. Não me lembro se gostaste da peça mas lembro-me de te ter oferecido um relógio com dois mecanismos, e de ter dito que o da esquerda poderia ser o teu tempo e o da direita o tempo dos outros e, quem sabe, talvez num qualquer final de tarde, pudesses querer acertar os dois tempos.
Nunca te vi com o relógio, o que não é de estranhar porque seria o mesmo que carregares no pulso uma acusação cruel. Sem o perceber, ofereci-te uma pulseira eletrónica para te aprisionar ao meu tempo.
Depois disso o mundo girou e ficámos todos de cabeças voltadas para baixo embora com os cabelos milagrosamente colocados no seu sítio.  
Este ano fiz a idade que tu te recusaste a fazer e do topo do Empire State Building lamentei-me por não estares lá para me devolveres esse relógio, com dois mecanismos, para me dizeres que o da esquerda poderia ser o meu tempo e da direita o tempo dos outros e, quem sabe, talvez num qualquer final de tarde, pudesse querer acertar os dois tempos.
Usaria com gosto uma pulseira eletrónica que me aprisionasse ao tempo dos outros.



hoje, as gaivotas

Vigiavam a praia pela manhã, atentas a um resto de coisa que lhes trouxesse o mar.
Mas as ondas desenrolaram-se vazias e os gritos das gaivotas, assim elevados no silêncio, soaram-me ao meu próprio queixume,
pelo barco que não veio, o náufrago que não sobreviverá, os pés que não mais tocarão a terra.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Medos

Medo do amor
quando tudo é fome.

E onde tudo é tão pouco,
medo de a carícia
despertar insuspeitos infernos.

Medo de sermos 
só eu e tu
a humanidade.

E morrermos 
de tanta eternidade.


Mia Couto, Tradutor de Chuvas

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

As limitações da linguagem são quase tão infinitas como as do amor

As palavras que li não me eram dirigidas. Mas já foram. Exatamente as mesmas. 
Não queremos possuir as almas porque nos são inatos o princípio da reciprocidade e as limitações próprias. Mas, se foram nossos os sentimentos, deveríamos manter o inalienável direito às palavras que um dia serviram para os exprimir. 
Mais, deveriam desfazer-se em simultâneo. 
É indecorosa esta sobrevivência. Esta interminável reciclagem das palavras que, afinal, apenas nos emprestaram.

Terrorismos

Um piloto jordano arde numa jaula por uma falhada troca de reféns; uma mãe morre num hospital por uma falhada negociação com a farmacêutica.
Os dias estão cheios de terror. 
O terrorismo dos bárbaros e o terrorismo dos civilizados. 
Viverei dentro de um verso onde apenas um inesperado declive métrico me possa incomodar.
A alienação é o panegírico da alma.


Memória de duas mãos unidas

Duas mãos unidas podem ser o objeto, a causa e a consequência de uma memória.
E até o podem ser em simultâneo. 
Nessa altura, deixa de se conseguir perceber o que é verdadeiro: 
As mãos unidas ou a memória.