sexta-feira, 31 de julho de 2015

Graffitis do coração

E escreveram o teu nome em cada um dos telhados de Bizâncio.

Oriente


Simbad, o marinheiro

A entrevista com Simbad poderia ter corrido melhor se alguém me tivesse avisado que lá pela sexta viagem, Simbad foi atacado por corsários, feito prisioneiro e vendido como escravo. 
Infelizmente, ainda não tinha lido esta parte das mil e uma noites quanto me encontrei com o mercador numa loja de tapetes no meio do grand bazar. A ignorância literária é mãe de inúmeros perigos.
O mercador não apenas recusou terminantemente o meu convite para uma join venture com a nossa empresa como ainda me ameaçou com a sua cimitarra, por sinal, muito mais vistosa do que os sabres que temos lá no navio. 
Felizmente, por aqui tudo se resolve esfregando lâmpadas de onde saem génios, sempre enormes e com voz de trovão, que nos concedem desejos, invariavelmente em número de três. 
Em Bizâncio toda a gente tem cimitarras e rancores. Não se pode sair à rua sem uma lanterna mágica. 
Também estou um bocado farta de comer frango...

sábado, 25 de julho de 2015

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Güle güle


E disseram os vizires
- mas Allah sabe mais - 
que se desenhou no cais
o momento de partires.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Almduadem



Se ouviste o apelo do oriente, jamais ouvirás outra coisa.

Kipling 

Bizâncio

Não pretendo contrariar esse insuspeito pedaço de sabedoria popular que nos garante que nunca deveremos voltar aos sítios onde fomos muito felizes.
Estive em Istambul onde fui muito feliz. Partirei para Bizâncio. Uma diferença que não caberia em mil e uma noites. 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Refúgio Exclusivo - Exposição de Fotografia


De 25 de julho a 11 de setembro. 
Se gostarem, os textos que acompanham as fotografias são meus. Se não gostarem, foi alguém a fazer-se passar por mim. 

Espanta-outros-espíritos


Não houve leito, pedra, salgueiro, peixe, ecossistema, que tivesse sido poupado à violência da corrente do rio do esquecimento voluntário. 
Uma insuspeita coletânea de música chill out serviu de cavalo de Tróia à canção e navegou por esse braço de mar morto.
A náusea chegou antes da memória, como sempre acontece na amnésia fabricada. 
Creio ter amado por um minuto a mais. 
Mas antes do final da música, também isso já estava para sempre esquecido.

Ocasos



E morra como um tigre o sol eterno.

Lugones

Espanta-espíritos

Troca-se o sol da tarde pelo alívio da sombra e por essa especial forma de silêncio que é o jazz. Os homens inventaram a brisa portátil que nos devolve junho, a hortelã espalha-se dentro dos copos gelados e não há branco tão puro como o do linho. Até as gaivotas se calam numa sesta preguiçosa que promete arrastar-se pelas horas. Há um espanta-espíritos que estremece, algures, noutra parte do mundo. Quase que desperto. Apenas quase.

domingo, 19 de julho de 2015

Diário de Bordo

Como seria de esperar, a ausência da lua fez-se finalmente sentir no espírito das pessoas mais sensíveis (preferimos ignorar as outras 99%).
Um mecenas que prefere permanecer anónimo, como cumpre às pessoas de bem nesta arte bizarra do altruísmo, adjudicou a lua por uma quantia que, embora não permita financiar a expedição de todos a Bizâncio, satisfaz as despesas de uma modesta mas honrosa representação que será composta por mim própria. 
Vou deixar instruções para que, na minha ausência, a entrega da lua se faça em prestações, na medida exata da calendarização dos pagamentos. 
Pelas minhas contas, lá pelo dia 31 estará de regresso ao seu lugar. 
Entretanto iniciei os preparativos da expedição: já coloquei na mala um fato de odalisca e as mil e uma noites e marquei uma entrevista com Simbad, o Marinheiro. 
Depois de uma aturada reflexão de trinta segundos, decidi que desta vez não designero substituto. Depois da conspiração da semana passada, estes piratas merecem o terrível castigo da anarquia. 


Férias grandes

Depois de uma experiência de quatro dias em atividade mental nos mínimos indispensáveis à conservação da vida, começo a perceber aquela coisa de ser dos pobres de espírito o reino do céu. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Lírio Albino




Inconvencionalmente, adotámos como animal de estimação o lírio albino que nadava livre nas águas fundas do Atlântico. Lá longe. 
Nada direi sobre a irrealidade de mergulhar de mãos dadas como quem caminha sobre a lua e esse resto de alegria que foi a última ilusão de liberdade.
Inconvencionalmente, sem que nos fosse possível suspeitá-lo, esse lento toque de dedos mudaria um dia o curso da vida, do outro lado do mundo. 
Quando parti desfiz-me das mais inoportunas memórias. Mas o lírio albino que víamos nadar em liberdade visitou-me em sonhos, noite após noite.
Esta madrugada abeirou-se da minha almofada para me dizer que era chegada a altura de me restituir à liberdade.
Pela manhã recebi a notícia que, lá longe, um homem que já não conheço avistou um lírio albino. 



domingo, 12 de julho de 2015

A Conspiração

Aqui.
E Aqui.
E Aqui.

Aceitam-se pre-reservas para Pequena Cutxi

Adenda: parece que entretanto aprendeu a pintar.

Vende-se Lua

Diário de Bordo

Com a lua noite e dia pendurada no mastro, ali em regime de contemplação reservada, decidimos reunir no convés para encontrarmos soluções para o problema.
O problema consiste basicamente no facto de eu ter democraticamente decidido, através de um referendo em que participaram pessoas aleatoriamente escolhidas e cuja identidade é sigilosa até para os próprios, que iríamos todos em expedição a Bizâncio em busca de um tesouro escondido. Não seria um verdadeiro problema se não se desse caso de mantermos um faustoso estilo de vida muito acima das nossas possibilidades e de, assim ao perto, na maior parte dos dias, apenas por necessidades de manter a camuflagem, nos parecermos mais com um grupo de felizes excursionistas num cruzeiro de férias do que com um terrível bando de Piratas.
Tentámos financiar a expedição com fundos públicos, mas os indivíduos reacionários que mandam neste país entenderam por bem rejeitar-nos a candidatura a este projeto de interesse nacional, com a desculpa cobarde de uma parte de nós ter registo criminal e outra ser procurada pela justiça.
Conformados com a inevitabilidade de nos desapossarmos de bens para adquirir meios para a conquista de Bizâncio, constatámos que as únicas coisas com algum valor venal que ainda nos sobram são a lua e a pequena cutxi.
Com votos contra dos poetas, da Palmier Encoberto e da própria pequena Cutxi, decidimos por unanimidade democrática que vamos pedir um resgate pela Lua.
Se em cinco dias não a conseguirmos vender, nem sequer em quartos, leiloamos a pequena Cutxi.
Mantenho um semblante carregado em fingida solidariedade com o pesar da tripulação. A verdade é que para mim, é uma win-win situation. 
A pequena Cutxi uiva à lua. 
Uma das duas tem de abandonar este navio. 


terça-feira, 7 de julho de 2015

O erro

Observo-a embevecida. Limpo-lho o pó. Puxo-lhe o lustro. Guardo-a no lugar mais seguro que tenho. Regresso para a contemplar uma vez mais. É perfeita. É minha. É única. É o meu bem mais precioso. 
É a memória do meu erro consciente. O Único. 
Certificado de fraqueza. De desvario. De impotência. De rendição. 
Memória da minha humanidade. 

domingo, 5 de julho de 2015

sábado, 4 de julho de 2015

A noiva

Ali no chão da rua, junto ao lixo, estava a noiva. 
Entre os restos do que foi um contador de água, meia tábua de passar a ferro, um prato de rebordos gastos, um guia de Espanha, um saco com papéis, um cobertor velho e várias caixas de cartão, jazia a moldura de plástico com o vidro estilhaçado. Indiferente à sua condição de residente do lixo, se não mesmo à sua natureza de lixo, aos vidros espalhados sobre os lábios pintados de vermelho, a um carreiro de formigas intruso, a noiva dos anos oitenta sorria. Magnífica, na tiara de plástico, nos cabelos negros armados num penteado a fazer lembrar as Miss Venezuela, no alvíssimo vestido adornado por lantejoulas, magnífica na posse do mais puro sorriso de esperança que consigo recordar. 
Ainda lá deve estar agora, com a noite já espelhada nos cacos de vidro da moldura partida, sozinha, no meio do lixo, a noiva, a sorrir uma esperança que foi pura nos anos oitenta. 


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Intimidade

Lá longe, 
na mansidão da oitava onda, 
os dedos desenharam o acorde que 
navegou o oceano e aportou 
na palma da minha mão. 

E nunca antes se viu tão obscena intimidade.

Diário de bordo




Esta manhã o grupo dos poetas pediu-me autorização para uma operação independente. Apesar de a ideia me ter sido antipática, não tive coragem para os impedir, pois de entre esta brava tripulação pirata são os poetas os menos reivindativos (normalmente tudo corre bem se os deixarmos sozinhos com um papel e um lápis e não contarmos com eles para rigorosamente nada). 
Largaram o navio de manhã num pequeno bote e prometeram regressar a tempo do jantar, avisando que seria prudente criar no convés espaço suficiente para instalar o produto do saque que trariam consigo.
Vi-os partir armados até aos dentes com sabres, cimitarras, tapa-olhos e ganchos. Cuidei que tivessem planeado roubar os livros de um qualquer navio biblioteca que por aí andasse a vaguear e lamentei imediatente que estas pessoas da poesia mantenham uma desconfiança incurável nos livros digitais. 
Enganei-me.
Estes bravos regressaram pela hora de jantar trazendo dentro do bote o produto do seu saque:
Nada menos do que a Lua.
A lua, agora, pendurada sobre a varanda, ali no cimo, a pertencer-nos.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Comunicações intergalácticas

Preciso que voltes. Em forma de pedra, cão, minhoca, brisa marítima ou vento terrível que faz as portas baterem e os pelos do pescoço eriçarem-se. Se a vida fosse a porra de um filme já terias voltado. Prometeste-me que a vida era a porra de um filme. Preciso dos poemas que não chegaste a escrever. Dos teus ouvidos. Infalível máquina de conversão em realidade das alucinações do meu quotidiano. Preciso do teu olhar trocista sobre a minha existência. Da tua filosofia de bula de medicamento. Dos teus silêncios profundos a julgarem a minha consciência. Preciso que voltes para me julgares em silêncio. Preciso de um ser humano a quem não consiga nunca enganar. Preciso saber que existes ainda. Que apesar de também existirem todas as outras coisas, existes tu sobre elas. Preciso de ti para dares nomes próprios aos objetos desta casa. As minhas coisas perderam os nomes. Preciso encontrar-te num céu perfeito. No topo de uma mesa de galo. Nas cordas vocais de um espírita burlão. No olhar de um gato vadio. Nos telhados da cidade. No reflexo de um campo de papoilas. Nos búzios espalhados sobre o chão de mármore. Preciso que faças um intervalo nessa coisa da morte. Preciso que cumpras a promessa de ficares até ao fim. Preciso que voltes. Hoje.