quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O estranho caso de Tagik, o berbere contador de estórias

Reunimos entre nós as moedas disponíveis e entrámos na tenda de Tagik, o berbere. O muezzin tinha chamado os homens para a oração há menos de dez minutos e Tagik, debruçado sobre o seu tapete, na imobilidade milenar de mil e um homens antes de si, permaneceu alheado da nossa presença. Por fim, levantou-se, ainda em silêncio, com um longo gesto, convidou-nos a sentar nas almofadas de veludo espalhadas pelo chão e distribuiu-nos os copos da chá. Tagik não falou até que na tenda se ouvisse o tilintar das nossas moedas de encontro ao pires de prata, pousado junto aos seus pés. Então, mostrou-nos um sorriso de um resto de dentes, ordenou-nos que nos descalçássemos e, com lentidão, foi abrindo a caixa de estórias que mil e um homens  antes de si lhe haviam confiado. 
Naquela ilha, disse Tagik, mas Alá sabe mais, havia um rei que reinava sem nunca ter visto o mundo. Seguro das maravilhas do seu reino - que era belo e próspero e onde não faltavam as montanhas, os vales e as praias e onde os homens eram fortes e corajosos e as mulheres bonitas e espirituosas - recebia os mercadores e diplomatas e ouvia com expressão indiferente os longos relatos de outras ilhas e continentes. Então, quando os mercadores lhe descreviam a linha do curso do Amazonas, perguntava se esse rio não era feito da mesma água em que se mergulhava nos rios da sua ilha. E quando os diplomatas descreviam o deserto do sahara, perguntava se não o faziam os mesmos grãos de areia de cada uma das suas praias. E quando os viajantes ou os diplomatas lhe descreviam pedras preciosas, perguntava se era superior a perfeição da coroa que adornava a bela cabeça da sua rainha. E a tudo, em boa verdade, lhe respondiam que sim. E então o rei decidia que nada nas outras ilhas e continentes, reinos, repúblicas, principados, emirados e protetorados, justificava a real travessia do oceano. 
Até que uma manhã, um diplomata enviado de um pequeno país do continente, depois de admitido à presença do rei que reinava sem nunca ter visto o mundo, falou longamente sobre uma classe de homens que existia no seu país e que eram os contadores de estórias. Soube então este rei racional, governante de um reino racional, que, no mundo, existiam homens que se dedicavam ao estranho ofício de inventar descrições de factos não ocorridos a fim de assim entreter o ócio de outros homens.
O rei, disse Tagik enquanto fumava o seu cachimbo de água, que nunca tinha ouvido falar dessa insólita criação dos homens, o conto, depressa se levantou de seu trono e, disfarçando-se de mercador - velho hábito de todos os regentes das estórias das mil e uma noites e que agora não é oportuno contrariar - nessa mesma noite despediu-se da sua rainha e fez-se ao mar, a caminho do mundo. 
Quando amanheceu... 

Epílogo do primeiro fascículo, por Pipoco Mais Salgado

..já a rainha dormia nos braços do diplomata que vinha do pais dos contadores de histórias, rindo-se da artimanha com que tinham enganado o rei, fazendo contas de cabeça a quantos dias demoraria o rei a chegar ao tal país e quantos dias demoraria o rei a perceber que os contadores de histórias não existem. Entretanto, Jabalamar, o escudeiro do rei, sábio intérprete de patranhas bem urdidas...

Segundo fascículo, por Palmier Encoberto 

Terceiro fascículo, por Impontual

O Estranho caso de Tagik, o berbere contador de estórias: digressão por uma biblioteca, por Xilre

Quinto fascículo, por Luísa 

O estranho caso de Tagik, o berbere contador de estórias: A rainha Alyyah, por Maria Eu

19 comentários:

  1. ...já a rainha dormia nos braços do diplomata que vinha do pais dos contadores de histórias, rindo-se da artimanha com que tinham enganado o rei, fazendo contas de cabeça a quantos dias demoraria o rei a chegar ao tal país e quantos dias demoraria o rei a perceber que os contadores de histórias não existem. Entretanto, Jabalamar, o escudeiro do rei, sábio intérprete de patranhas bem urdidas...

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    1. Essa é uma continuação inteiramente fiel ao espírito das mil e uma noites.
      :)

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    2. E ainda por cima a viagem está a revelar-se deveras complicada...

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    3. Pipoco, faça lá isso em condições e publique como terceiro capítulo. Não de podem desperdiçar posts nos dias que correm.

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  2. Palmier, cá para mim a maldição é a rainha a deitar-se com o diplomata...

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    1. é melhor não, cara Cuca.

      morreriam todos no final. ou estariam no limiar da morte desde o início, num longo sono criogénico.
      e que sonhos partilhariam?
      (demasiada influência de k.dick e gibson na adolescência)

      mas talvez fizesse de Tagik um Monarca de Sonhos no silêncio da sua tenda.
      afinal estamos no Aleph.

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    2. Se a ideia é morrerem todos é melhor ficar com o último capítulo.

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  4. Perde-se o rei e encontra-se a rainha...;)

    Haja imaginação!

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  5. Não sei se já havia fasc.5 em preparação mas pus o rei a ler...

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    1. Já ali está a última aventura do nosso rei.
      :)

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    1. Precisamos todos de mais aladinos e mágicos nas nossas vidas.

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  7. isto é verdadeiramente formidável, li com os dedos, com os olhos, li com a boca, em voz alta e em voz baixa, li até com a pele... muito bom :)
    só nã sei para onde ir... isto tem uma ordem?

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    1. Cigano, a ordem cronológica é a dos links. Como qualquer boa estória das mil e uma noites vai para aí uma matrioskada...
      :))

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