sábado, 30 de abril de 2016

Gente sem destino

Sentávamo-nos à mesa e estendíamos sobre o mundo  um cruel meridiano que separava os fracos dos fortes. O destino era um berlinde de vidro com muitas cores no centro que fazíamos girar na palma da mão direita. Lá em baixo, a terra esperava-nos imóvel, muda, domesticada. Sabíamos muitas coisas. Nenhuma que nos houvesse sido ensinada pelo coração, esse órgão supérfluo entre deuses banidos.
Só havia um tempo e uma razão e estavam fundidos nas nossas certezas.
Reinávamos sob o sol e tudo colhemos como nosso. 

Depois fez-se o entardecer, com os seus crepúsculos de cansaço. O jardim fechado, o balouço vazio, um brinquedo partido. A sombra baça do prenúncio de nada num canto do pátio, a espraiar-se. Enquanto a terra se desvanecia ao ritmo da vertigem, as certezas arrefeciam.

E foi assim que entrámos na noite, com o destino a deslizar por entre os dedos da mão e a perder-se debaixo dos nossos pés. Uma distância intransponível. O horizonte sem terra. A ignorância do coração a tornar-nos fracos até ao sono. Deuses de coroa de lata ou, pior ainda, apenas gente sem destino. 


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Contos do Lago Tanganica - a vitória

Num início de tarde de domingo, numa medina marroquina, achámo-nos em frente de uma porta prateada com tachas da mais fina porcelana do azul dos olhos berberes. Tagik, o berbere, convidou-nos a entrar e cobrou-nos cinco euros por duas estórias. Juntamente com a túnica branca, despi o pó das ruas e sentei-me descalça na fresca penumbra, a fumar o cachimbo de água que me estendeu, concentrada no tom hipnótico da voz profunda que em francês me jurava, "reza a lenda que, num lago rodeado por um jardim de laranjeiras, mas Alá sabe mais..."
Cinco euros por duas estórias é modesto preço para quem as coleciona ao ponto de, em tempos, delas ter dependido para adormecer e de, agora, as pedir a desconhecidos. Mas quando Tagik, o berbere, me ofereceu uma terceira estória, pedi-lhe que a guardasse para a contar a um desconhecido que a não pudesse pagar. Então Tagik perguntou-me se estaria interessada em comprar-lhe um espelho mágico que, reza a lenda, mas Alá sabe mais, faria parte de nada menos que do espólio da madrasta da branca de neve. O insuspeito espelho viajou muitos quilómetros e acabou de costas voltadas para o mundo - que é a forma como penduram os espelhos os titulares de consciências duvidosas - na parede do meu quarto.
Pôs ontem fim à sua milenar mudez. Atormentada pela incerteza dos caminhos de uma guerra fratricida, rodeada de inocentes reféns e desapossada de um certificado oficial de preferida do sanção de Tanganica, enfrentei o espelho e fiz-lhe a pergunta terrível.
O espelho, que não conhece a mentira, disse-me que sou a preferida da Palmier Encoberto. 
Foi assim que, ganha a guerra, voluntariamente decidi libertar os reféns.
Contar-vos-ão outras estórias. Em cada um dos habitantes do Lago vive Tagik, o berbere. É essa a sua magia.
Porém, só o espelho não conhece a mentira. 
E, diz-se, Alá sabe ainda mais.





quinta-feira, 28 de abril de 2016

O paradoxo Nabokov

Nabokov escreveu os mais bonitos contos de sempre. Talvez nem sequer seja possível suplantar-se a perfeição dos contos de Nabokov. Até hoje, que o saiba, não foi feito. Faltava-me o esgotado segundo volume dos contos de Nabokov. Há lacunas que nos preenchem. São os tesouros que sabemos só ainda não ter encontrado.
Agora que nada me falta, sobra-me a tristeza de pressentir que absorvi o expoente máximo da beleza.

Pavese sonhou-nos

E então nós cobardes
que amávamos a noite
rumorosa, as casas,
os caminhos do rio,
as luzes vermelhas e sujas
daqueles lugares, a dor
mansa e calada—
arrancámos as mãos 
da cadeia viva
e calámo-nos, mas o coração 
sobressaltou-se de sangue,
e não houve mais doçura,
não houve mais abandono
ao caminho do rio—
agora livres, soubemos
que estávamos sozinhos e vivos.

Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Livros Cotovia

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Entretanto, muito longe do Lago do Tanganica...

Será que a minha mamã me abandonou?
In, Pequena Cutxi, ex cadela da Palmier Encoberto.

terça-feira, 26 de abril de 2016

24 horas


Diário de Bordo - A traição de Palmier Encoberto

Foi há tantos setenta anos que ainda eu nem sequer era Pirata. Tinha uma profissão quase honesta e vivia desgastada entre os incómodos de uma existência real e um, admito-o agora, desesperado, projeto de fuga para África com vista à corrupção capitalista de uma qualquer tribo selvagem que me abrigasse. Um dia, que recordo de céu azul-sonho e sol dourado-prozac, recebi o meu primeiro tesouro blogosférico. Era uma medalha de metal fundido por ancestrais mãos de fada, adornada a pó de estrelas e cravada de diamantes feitos de lágrimas de riso de sereia. Tinha a seguinte misteriosa inscrição: "A preferida de Pipoco Mais Salgado". Guardei o meu tesouro por muitos setenta anos. Nas frias noites de amargo nevoeiro, logo a seguir a ser abandonada por mais um namorado desistente que me haveria de render centenas de posts melodramáticos, segurava aquela medalha na minha elegante e pequena não (porém de dedos compridíssimos) e sabia instantaneamente que tudo haveria de ficar bem. Diz-se por aí, pouco importa agora se com verdade ou mentira, que do fundo do meu peito chegou a fazer-se ouvir uma voz gollumniana que murmurava em tom pouco saudável as palavras "my precious".
Por muitos setenta anos me acompanhou a minha medalha, ora exibida no decote, ora protegida de olhares dentro de uma das minhas arcas de Pirata.
Até ontem.
Palmier Encoberto, não há porque proteger da infâmia gatunos, aquela que eu considerava uma espécie de Mary Reed no meu universo de Anne Boney, sob pretexto de querer assistir às comemorações de 25 de abril na Bang & Olufsen que neste navio instalámos de propósito para o efeito (usar o verbo comprar já seria manifesto exagero), instalou-se ontem entre nós.
Quando esta noite fui confrontada com isto, corri ao baú onde guardo o de mais valioso que a vida me deu (o cartão de crédito; uma carta já rota de tanto lida em que um louco promete amar-me; um búzio estropiado; uma fotografia de quando era nova; os poemas do Borges e a medalha de preferida do Pipoco Mais Salgado). 
Sem espanto algum verifiquei que essa senhora com nome de bolo de pobre que antes cheguei a considerar uma Mary Reed, apropriou-se da minha medalha e anda por aí a exibi-la.
Não gosto de arrastar esta brava tripulação pirata para empresas de finalidades individuais. Mas quando a honra de uma capitã está em causa, o único caminho possível é a espada. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O que nos salva

Salva-nos uma frase que há muitos anos sublinhámos num livro esquecido; um pedaço da conversa de dois desconhecidos sentados na mesa de trás; um pôr do sol que por nenhuma razão discernível suplanta um outro; uma conta de vidro fosco que deu à costa na praia e a forma perfeita do búzio que lhe serviu de abrigo; a inigualável expressão de sofrimento da viúva do pescador; a imagem congelada daquele céu apocalíptico que é a vitória do sol sobre a chuva torrencial; as boas e as más palavras dos amigos; uma afortunada conjugação de notas que, há muitos séculos, o compositor descobriu no final de uma manhã de tédio; o traço seguro da figura humana desenhada numa gruta do Egipo; o desenho geométrico do pano que o vento balouça num mercado de África; a expressão da mãe que embala a filha; a promessa que reside numa boa manhã de início de verão; um verso de Borges que ficou por decifrar; o parágrafo oculto desse livro que ainda nos falta ler; um diálogo de John Cassavetes; a mais abominável das mentiras, contada debaixo de uma constelação ignota nesta parte do mundo; o poema que um dia conseguiremos escrever e a música que um dia seremos capazes de tocar; esse resto de memória de um amor inútil que nos isenta a ambos do pecado da mediocridade. 

Post sriptum:

E também o que nos condena, pela Flor em A Faca Não Corta o Fogo 

Dia da Liberdade

O homem sem memória, sem filosofia e sem escrita não é nada. Também não é nada sem tristeza, sem fatalismo, sem violência e paixões. Como um sequestro da política pela economia e um sequestro da liberdade pela segurança, há também um sequestro do conhecimento humanistico em nome do utilitário.

Ricardo Menendez Salmón, citado na revista LER, primavera 2016.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Pianology

Aprender piano com o objetivo de melhorar a musicalidade da escrita pode não ser uma excelente solução quando se é obsessivo. 
Tende-se a deixar de escrever. E a deixar de ler. E a deixar de ver televisão. E a deixar de sair de casa. E, em suma, a deixar de fazer qualquer outra coisa que não seja aprender piano. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Inferno são os outros

O mundo estava cheio de crueldade e a infâmia passeava-se pelas avenidas largas de rebordos decorados a tílias. As pessoas destilavam a mesquinhez e a ignorância debaixo dos mais variados outfits éticos. A honra era uma memória bolorenta no olhar vago dos retratos dos bisavós; a verdade, composta por mil nuances em tons de cinza; a coragem, a designação que se dava à frontalidade dos anónimos e à verborreia dos estúpidos. 
A vida era o inferno Sartriano.  
Mas depois vim para Pirata, adquiri competências em crueldade na ótica do utilizador e um lindo sol passou a brilhar sobre as magníficas águas azuis do oceano.  

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Space Dementia

A montanha esqueceu-me.
Havia uma árvore com o meu nome nela inscrito mas o vento derrubou-a e os pássaros já lá não fazem ninho. 

A casa esqueceu-me.
Ninguém sabe quem pintou o quadro pendurado na biblioteca e lavaram do chão da sala a nódoa de vinho. 

O cais esqueceu-me.
Há um barco a mais nas noites de luar que já não dança com as ondas um tango de destino. 

A praia esqueceu-me.
Mil grandes marés desfizeram o palácio de areia, promontório de estrelas onde perdemos o caminho. 

Devolvo-te inocentes as ruas, 
purificados os crepúsculos, 
desinfetados os sonhos, 
esquecidos todos os olhares.

E este meu silêncio 
é o cumprir da música 
na montanha; 
na casa; 
no cais;
na praia.

A paz que se levanta do tempo e que nos torna insignificantes. 
Outra vez.
Uma outra vez
Mais.










domingo, 17 de abril de 2016

Um céu colecionável

Pouso o livro nos joelhos para seguir o rasto das asas da gaivota. Cruza um céu que é de primavera sobre o mar. São os meus céus diurnos favoritos. Contêm a promessa de uma infinidade de redenções. Só existem nesta terra.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

O novo protocolo da morte

Há um novo protocolo da morte na era das redes sociais. A confirmação da notícia veio através de um grupo de chat, cuidadosamente escolhido para o efeito. Alguns dos visados puderam compartilhar a sua incredulidade  em direto, perante um grupo heterogéneo de pessoas que não eram todas conhecidas umas das outras. O grupo de chat, em poucos minutos, transforma-se num grupo de enlutados anónimos, em que uns partilham a sua indignação e desgosto e outros, sofrendo a mesma indignação e desgosto, prontamente disponibilizam o conforto institucional adequado com recurso a variantes letradas da frase “é a vida". Uns manifestam o pesar pelos horrores do quotidiano e falta de tempo para fazer aquilo que verdadeiramente importa e que é passar tempo com os amigos e mostrar-lhes o quanto os amamos. Os mais dinâmicos não perdem tempo e combinam encontros ali mesmo, naquele grupo de chat criado para anunciar a morte de um amigo comum. Não há um tom festivo na promessa do encontro, há um pesar, mas, parece-me, menos pela morte do que pela urgência na obrigação de rever os amigos vivos antes que também estes morram. Nem todos os elementos do grupo vêem as mensagens em simultâneo. Os que só agora chegam, interrompem as combinações dos almoços para manifestar o seu choque e pesar, sendo prontamente apoiados por aqueles que há uma hora atrás foram eles próprios destinatários das mensagens de consolação e que, agora, refeitos do pasmo, retribuem com nova variante da mesma frase "é a vida". As pessoas fornecem ainda detalhadas justificações das razões pelas quais só agora viram as mensagens, relatando os seus afazeres quotidianos e lamentando-se pela falta de tempo para aquilo que verdadeira importa, que é estar com os amigos e mostrar-lhes quanto os amam. E se a notícia da morte é abruta porque não pode ser de outra forma, a causa da morte é anunciada suavemente através do silêncio geral que se segue à pergunta repetida pelos mais desatentos. Ao fim de algum tempo, as pessoas deixam de perguntar qual a causa da morte, interpretando corretamente o silêncio coletivo e manifestando uma nova incredulidade ou redobrando as manifestações de pesar, porque, efetivamente, nem todas as cores da morte colhem o mesmo nível de desgosto. Umas horas depois, é anunciada a hora do funeral. Os retardatários ainda estão a marcar encontros e há novas palavras de consolação para aqueles que só agora chegaram à conversa. A comunicação da hora do funeral desencadeia uma nova dinâmica no grupo. As pessoas aproveitam aquela mesma conversa para organizarem boleias, acordarem locais de recolha, trocarem números de telemóvel. Simultaneamente, há quem considere importante explicar ao grupo que não pode comparecer no funeral, colocando no detalhe da justificação da falta o mesmo cuidado que teria se estivesse perante o próprio morto. Reparo que as pessoas que comunicam a sua futura falta ao funeral, invariavelmente, insistem em manifestar uma vez mais o seu desolo, como se a duplicação do desgosto aliviasse qualquer grão de areia na consciência ou como se quisessem assegurar aos outros elementos do grupo que se não vão é mesmo porque não podem e não porque não estarem tristes com a notícia e não preferirem que o amigo continuasse vivo. Entre o choque, a ausência da pergunta do dia, as manifestações de carinho e apoio, as combinações e as justificações das faltas, ainda há quem chame a atenção para os textos de homenagem escritos naquela mesma rede social, recomendado leituras.
Entre as pessoas daquele grupo de conversação, não estão os amigos mais íntimos do morto. Presumo que a organização estabelecida pelo novo protocolo da morte seja de tal forma perfeita que, paralelamente, exista um outro grupo de conversa, exclusivo aos amigos íntimos, onde todas as perguntas sobre a causa da morte sejam prontamente esclarecidas e onde as histórias felizes que se relembram em homenagem ao morto tenham menos anos.
Não sou ingrata nem cínica. Reconheço as vantagens do novo protocolo. O protocolo, novo ou antigo, qualquer protocolo, serve essencialmente para manter emoções sob controlo, evitando gestos desadequados e contendo danos. A intenção é sempre boa e esta nova forma é prática e eficaz. A informação útil flui, a inútil alivia quem a presta, os cuidados básicos ao nível do apoio psicológico são imediatamente prestados pelos enlutados anónimos. Não se incomoda quem não deve ser incomodado. Os comportamentos que descrevi em cima, também os tive. Estas pessoas, tenho válidas razões para o presumir, estavam a ser sinceras no seu desgosto. O método não chocaria o próprio morto que tantas vezes recorreu às redes sociais gritando pelo socorro que, é evidente, nenhum de nós estava habilitado a prestar-lhe.
O que não consigo deixar de pensar é que na eficiência pragmática deste novo protocolo da morte - sem voz nem olhos - há o sabor amargo do mesmo veneno que está na génese de factos idênticos ao agora protocolado.

"É a vida!"

terça-feira, 12 de abril de 2016

A necrologia possível

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

Herberto Helder, A Faca não Corta o Fogo 

Existencialistas

Existencialistas, são as gaivotas que vieram passar a noite na varanda do meu quarto, contando, com os seus gritos insuportáveis, as mais incompreensíveis histórias de aflição. 



domingo, 10 de abril de 2016

Verão indiano

Naquele início de verão partiu para a Índia com uma mochila às costas. 
Em Lisboa, cumpríamos a tradição dos verões lentos e insuportáveis. A ausência escaldava as noites espremidas num apartamento demasiado apertado e a solução vinha da frescura que o rio prometia. Foi um verão vodka limão com noites brancas antecedidas pela imobilidade das tardes nas esplanadas. O postal perdeu-se nas intrincadas linhas do destino. Enquanto nada acontecia, como sempre sucede, abria-se o espaço à vida.
Regressou já depois das primeiras folhas do outono. Trouxe na mochila os sete metros de seda que escondi na última gaveta da cómoda das dezenas de casas que desde então foram minhas. Estendeu-mo no colo, dizendo, desajeitado, que era um vestido de noiva indiano. Comprou-o no seu segundo dia na Índia, carregando-o pela monção fora,   para o fazer meu à chegada. Foi a única vez na vida que o vi comover-se.
Sessenta dias foram demasiadas noites no verão lento de Lisboa. Recebi-o numa casa encaixotada na direção de um outro futuro. O nome e o endereço do destinatário estavam escritos por todas as ruas de Lisboa. 
Nunca chegou a ver-me vestida com o sari. Usei-o uma única vez. Anos depois, à distância de dois aviões, na noite fria que se seguiu ao dia em que foi sepultado.
Hoje vi um sari num estendal, a lutar contra o vento, e lembrei-me desse longínquo verão indiano em que os astros decidiram escrever um conto pulp fiction. 

sábado, 9 de abril de 2016

Diário de Bordo

Duas vezes por semana, Reboredo, o médico ortopedista, personagem ofertada, dá-me aulas de dança no convés do navio. Mandei vir um gira-discos e uns velhos discos em vinil de tangos argentinos, encomendei uns sapatos de dança e meia dúzia daqueles vestidos às flores, de cintura estreita e saia rodada. No início, o médico resistiu às minhas insistências para que enfiasse uma rosa entre os dentes, fazendo os possíveis por me convencer que, na realidade, o tango não se dança assim. Mas os meus problemas com a interiorização do conceito realidade são de tal forma notórios e públicos que o bom doutor acabou por entender aquilo que mais tarde ou mais cedo todos entendem: que contrariar-me é, em igual medida, inútil e perigoso. 
Ultrapassado este obstáculo, passámos, duas vezes por semana, a ser muito felizes na pista de dança improvisada, ao som do tango argentino e sob a vigilância de uma lua estupefacta.
Reboredo, o médico ortopedista, é demasiado existencialista para poder algum dia ser pirata, mas além de se ter revelado um excelente professor de dança é a única pessoa neste navio com quem posso discutir filosofia sem correr o risco de ter um motim a bordo.
Ontem, durante a lição de dança, tivemos a seguinte conversa filosófica:
- Nabokov diz que além da noite exterior, todos conhecemos a noite interior num ou noutro momento do dia.
- Capitã, saiba que todas as noites se iluminam com velas.
- Ora, Reboredo... Mas estou a falar daquela escuridão que nos circula nas veias. Uma escuridão cega à luz dos astros.
- Capitã, saiba que os astros são a solução para qualquer tipo de noite.
- Não estou a perceber a sua metáfora. Terá de ser mais explícito.
- Serei. A capitã precisa de um namorado.
- Não conheço esse livro. Quem é o autor.

Nessa altura reparei que Reboredo, o paciente médico ortopedista, cuspiu a rosa e por muito pouco não me deixou cair.


Uma última vez mais


Praia

A outra ocupante da praia está a vinte metros de distância, deitada, vestida e calçada, sobre uma toalha desfiada por vários verões. Tem uns phones que parecem protege-la do mundo. Desde que cheguei não dirigiu um único olhar na minha direção. Canta alto, na sua esplêndida voz de negra, indiferente à minha presença, canções que desconheço. 
Descalço os ténis e observo os dedos dos pés que parecem ter encolhido. Enterro-os na areia para afastar este pensamento. Ao fundo há um veleiro que desliza lentamente até ficar escondido por uma rocha. Um dia, o mar não terá nenhum nome tatuado e eu poderei descansar a memória junto às ondas. E também este pensamento afugento, agora, com uma página da revista. A mulher move-se. Apoia a cabeça no braço esquerdo e continua a cantar. Devolvo-me à minha revista mas sei que depressa encontrarei outro pensamento que serei obrigada a expulsar. O ócio obriga-me a uma atividade intelectual extenuante. Dói-me a cabeça. Tenho calos nas dedos à força de tanto varrer pensamentos incómodos. Volto a olhar para aquela mulher que canta como se só ela existisse na praia e tenho certeza que não está a pensar em nada. 
E eu invejo-a, com o tipo de inveja mesquinha que é a matriz do ódio e da doença. E esqueço o sol, a areia nos pés, o veleiro que desapareceu atrás da rocha, todos os nomes, a revista. 
Somos só eu, uma mulher que canta e a minha inveja. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Hamsters

De uma forma ou de outra, somos todos pequenos hamsters brancos, de olhos vermelhos, patinhas encolhidas, fechados numa gaiola cuja única fonte de animação consiste na roda estúpida onde nos entretemos a girar com o objetivo de ficarmos tontos. 
Às vezes também gostamos de fingir que estamos a roer as grades. 

domingo, 3 de abril de 2016

As cidades inesquecíveis

Embora fosse eu a viajante e ele o Imperador, naquela noite, deitados no jardim suspenso do palácio, foi sua a descrição da cidade e meu o silêncio. 
Falou-me sobre cada uma daquelas pequenas rochas no mar que eram afinal as ilhas onde, à noite, os miúdos maltrapilhos reinavam, devolvendo aos pescadores, antes do amanhecer, os barcos que roubavam para as suas migrações noturnas. Descreveu-me o fundo do mar forrado de estrelas vermelhas e vigiado pelo deslizar lento das mantas, que, dizia, quando vínhamos por bem, para soltar das redes uma tartaruga aprisionada ou para jogar às escondidas com o lírio albino que se dizia ter cem anos, nos enlaçavam num abraço macio que haveria de fazer com que fosse impossível esquecê-lo. Contou-me sobre as cascatas, em cujas águas quentes, ao crepúsculo, se banhavam sereias, reunidas pelo chamamento do mais triste dos cantos. Revelou-me uma baía assombrada pelo fantasma único de dois amantes separados que, a cada lua cheia, regressavam para se amarem, trazendo espelhados no olhar o branco das nuvens e da espuma do mar de uma tarde longínqua. Contou-me sobre as grutas que os homens esculpiram debaixo da terra e que eram a invisível cidade onde corriam a esconder-se quando os piratas se aproximavam da costa e desembarcavam dos seus grandes navios em busca de alimento e amor. 
E para mim, que antes julgara conhecer a cidade, tornaram-se-me invisíveis as chaminés, as casas de basalto, as ruas circulares de pedra escura, um pelourinho solitário, os moinhos de vento, e passei a circular por entre as lendas, comprando o pão a sereias, fazendo vénias a crianças que eram governadores de ilhas mágicas, recebendo o abraço inesquecível das mantas, amando em baías assombradas e aceitando a inevitabilidade da chegada do navio pirata que haveria de me levar.

———

Entre KUBLAI KHAN e MARCO POLO, segundo diz Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis, editorial teorema, terá sucedido o seguinte diálogo:


"POLO: – ... Talvez este jardim só exponha os seus terraços para o lago da nossa mente...
kUBLAI: – ... E por mais longe que nos levem as nossas atribuladas empresas de guerreiros e de mercadores, ambos guardamos dentro de nós está sombra silenciosa, esta conversa pausada, está noite sempre igual.
POLO: –A menos que eu se dê a hipótese oposta: de os que se afadigam nos acampamentos e nos portos só existirem porque pensamos neles nós dois, encerrados entre estas sebes de bambu, imóveis desde sempre.
KUBLAI: – De que não existam a fadiga, os bezerros, as pragas, o fedor, mas só esta planta de azálea.
POLO: – E de que os carregadores, os calceteiros, os varredores, as cozinheiras que limpam as vísceras das galinhas, as lavadeiras ajoelhadas sobre a pedra, as mães de família que mexem os arroz aleitando os recém-nascidos, só existam porque nós pensamos neles.
KUBLAI: – Essa conjectura não me parece que nos convenha. Sem eles nunca poderíamos ficar a balançar encasulados nas nossas camas de rede.
POLO: – Então a hipótese é de excluir. Portanto será verdadeira a outra: a de que existam eles e não nós.
KUBLAI: – Assim demonstrámos que se nós existíssemos, não existiríamos.
POLO: – De facto, aqui estamos."

Da coleção de céus


O céu deste instante.

sábado, 2 de abril de 2016

O facto não é horrível

Trezentas e sessenta e cinco tardes, voltei-me para poente e vi o sol morrer no mar. Não esperei por outra coisa se não pelo ocaso. Há uma alegria insólita na verificação empírica do cumprimento das promessas astrais. Em cada um dos dias, o sol nasceu na montanha para mais tarde se afundar no mar. Entre um e outro instante esvairam-se no fio da inutilidade os anseios dos homens. Na trigésima sexagésima sexta tarde, julguei ter compreendido a sabedoria das pedras; dos livros antigos; dos animais e do vento.
"Não espero nada. O facto não é horrível. Desde que o resolvi, ganhei tranquilidade."
A citação é retirada de A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Dia das mentiras

"As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio."
Robert Stevenson 

Arrependo-me de uma infinidade de mentiras. Essas, têm todas em comum o facto de serem mentiras que usei contra mim própria. Aquelas que disse aos outros, só o pecado do defeito as mancha. 

O Espelho que há em Pavese

Vens sempre do mar 
e do mar tens a voz rouca,
e sempre os olhos secretos,
de água viva entre silvas,
A fronte baixa como
um céu de nuvens baixas.
De cada vez renasces 
como uma coisa antiga 
e selvagem, que o coração 
já sabia e cala.

De cada vez é um rasgão, 
de cada vez é a morte.
Combatemo-nos sempre. 
Quem aceita o choque
tomou o gosto à morte 
e leva-o no sangue.
Como bons inimigos 
que não mais se odeiam
somos uma mesma
voz, uma mesma pena 
e vivemos ofendidos 
sob um céu miserável. 
Entre nós não há a insídia, 
não há coisas inúteis - 
combateremos sempre. 

Combateremos ainda, 
combateremos sempre.
Pois perseguimos o sono
da morte lado a lado,
e a nossa voz é rouca
a fronte baixa e selvagem 
e um céu idêntico.
Fomos feitos para isso.
Se um de nós cede ao choque,
segue uma longa noite
que não é paz nem trégua 
e não é morte verdadeira.
Tu já não existes. Os braços 
agitam-se em vão.

Até que o coração nos trema.
Disseram um dos teus nomes.
A morte recomeça.
Coisa ignota e selvagem
renasceste do mar.

Cesare Pavese, in Trabalhar Cansa 

A nêspera que fica deitada