quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Anedota muçulmana

Vi um homem prestes a saltar de uma ponte.
– Não salte! – disse eu.
– Ninguém me ama – disse ele.
– Deus ama-o. Acredita em Deus? – perguntei.
– Sim – disse ele.
– É muçulmano ou não muçulmano? – perguntei.
– Muçulmano – disse ele.
– Eu também! – disse eu. – Deobando ou barelvi?
– Barelvi – disse ele.
– Eu também! Tanzeehi azmati ou tanzeehi farhati? – perguntei.
– Tanzeehi farhati – disse ele.
– Eu também! Tanzeehi farhati jamia ul uloom ajmer, ou tanzeehi farhati ul noor mewat? – perguntei. 
– tanzeehi farhati ul noor mewat – disse ele.
– Morre, Kafir! – disse eu, e empurrei-o.

Arundhati Roy, in, O Ministério da Felicidade Suprema.

Eterna fraude

São eternas as mãos do anjo de lata que ao amanhecer nos aponta o rio, ou o céu, consoante a direção que escolhe Eolo. É eterna a inconstância dos deuses e a sua avidez da mortalidade que pertence aos homens. E eterna é ainda esta velha memória das coisas dentro das células: um jardim, um tigre, uma pena, um búzio, certo olhar, uma onda que sempre embala a mesma rocha.

sábado, 5 de agosto de 2017

L-I-S-B-O-A

Deu-me, de presente de boas-vindas, a melhor prata que esconde no rio; três nuvens com o formato das copas das árvores; ruas razoavelmente vazias à hora da sesta. A casa cheirava àquilo que cheiram as nossas casas quando regressamos para as habitarmos: essência de culpa e esperança. Abri as portas devagar. Estive ausente tantos anos que é possível que os fantasmas se tenham cansado de me esperar. 
À noite, bem sei, Lisboa não me embalará o sono. Nunca dormi decentemente nesta cidade. 
Digo-lhe ao ouvido que, desta vez, não a abandonarei. Lisboa volta ao rosto para que não lhe leia o desdém. Mede-me a temperatura dos pés e sabe, como o sabem as mulheres muito velhas e os anjos, que nunca regresso para ficar. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Em quantos caixotes cabe a vida?

E uma vez mais, a minha vida útil dentro de caixas de cartão; a inútil em sacos pretos do lixo. E a sensação de que o que fica é o pouco que importaria conservar.

sábado, 22 de julho de 2017

Tangos

Quiseram os deuses, numa noite sem lua, essa frágil sombra projetada nas ruínas daquilo que foi um palácio. Moveu-se ao ritmo do tango, deslizou pelos restos das paredes e desfez-se na aurora.
Quiseram os homens a morte dos amantes. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Resultados

Maioria A

Seu psicopata! Não há limites para o seu egoísmo. Era capaz de matar a avó por duas bolachas de manteiga; a sua imagem preferida é a que o espelho lhe devolve e o destino de férias que merece é uma ilha deserta. Em suma: um pirata!
Leitura recomendada: o código penal.

Maioria B

Saiba que as pessoas ponderadas e que se pautam sempre por critérios de bom senso são irritantes e incomodam as outras. Aprenda a ser humano. Desenvolva ódios de estimação e parta a baixela da sua avó para saber como soam os pratos de encontro ao soalho. Merece umas férias numa colónia de geriátricos alemães.
Leitura recomendada: O Psicopata Americano.

Maioria C

Se está a ler isto, é improvável que os seus resultados tenham sido maioria C. 
Estas pessoas só fingem existir neste mundo porque, na verdade, vivem noutro lado qualquer. É inútil analisá-los já que jamais alguém os compreenderá. 
Merece umas férias sozinho num hotel com uma cama decente onde, finalmente, consiga dormir.
Leitura recomendada:Heródoto, as Viagens de Marco Polo ou outra bizarria qualquer.

Maioria D

De acordo com um estudo norueguês só dez por cento das pessoas com resultados maioria D responderam com sinceridade às perguntas. Se está incluído nesses, saiba que deve preocupar-se. As boas pessoas morrem antes das más. A sua família e os seus amigos aproveitam-se de si e ainda o convencem que lhe estão a fazer um favor. Merece umas férias para um campo de refugiados.
Leitura recomendada: Lassie Come Home.

Pessoas que responderam com alternativas E

Está na altura de se conformar com as hipóteses apresentadas na ementa e parar de aborrecer os chefes de cozinha com dramas do tipo "quero a salada de gambas mas sem a salada e com molho de gaspacho". O inconformismo é sobrevalorizado e prejudica a hegemonia social. Aproveite as férias para fazer uma daquelas viagens-circuitos organizador das sete da manhã à meia noite que é para se ir habituando a não ter ideias.
Leitura recomendada: manuais de instrução.


Inquérito de verão

1. O cão do vizinho incomoda-te todas as noites, ladrando pela madrugada.
A) desenvolves um plano para assassinar o bicho;
B) vais falar com os donos e ponderas queixar-te à polícia;
C) tomas comprimidos para dormir;
D) aproveitas a oportunidade para leres Proust durante a noite.

2. Pedro Chagas Freitas escreve um novo livro.
A) investigas as livrarias que colocaram o livro nos escaparates e recusas-te a aproximar das mesmas;
B) escreves um email de protesto aos editores e aos livreiros;
C) quem é o Pedro Chagas Freitas?
D) vais a correr comprar o livro.

3. Estás na praia em vias de morrer por inanição. Só vendem bolas de Berlim a €1,20 e dispões de apenas €1.
A) furtas a carteira do banhista mais próximo; 
B) tentas negociar o preço com o vendedor, apelando à tua conjuntura fome versus falta de dinheiro;
C) comes um snack de algas;
D) testas aquela teoria de acordo com a qual é possível alimentar-nos do sol.

4. Como lês os romances.
A) fechados e deitado com a cabeça sobre eles; 
B) do princípio para o fim; 
C) os últimos capítulos antes do princípio;
D) abrindo ao acaso e começando sempre numa página qualquer.

5. As tuas férias de sonho.
A) à aventura num desses sítios cheios de mosquitos e tifo como o Cambodja;
B) um mix quatro dias numa cidade com extensão de cinco a praia exótica; 
C) qualquer sítio onde possas dormir em paz e desligar o cérebro;
D) quando se trabalha naquilo de que se gosta está-se sempre de férias.

6. Estás fechado numa casa com quatro canais nacionais.
A) partes os vidros e saltas do terceiro andar;
B) vês as notícias e fazes zapping na esperança de encontrares um filme que ainda não tenhas visto;
C) vês os desenhos animados e aproveitas para dormir a sesta;
D) encontras uma boa oportunidade para assistires, sem culpa, a telenovelas.

7. Os teus primos afastados telefonam-te a avisar que vêm passar contigo as suas férias.
A) mudas de cidade nesse mesmo dia;
B) a ideia não te agrada por aí além mas é sempre possível convencê-los a fazer atividades que não te incluam e que te permitam descansar deles;
C) ficas de cama com uma gripe histérica e aproveitas a canja de galinha que te farão;
D) metes férias, compras um novo grelhador e t-shirts iguais para todos.

8. As razões pelas quais respondes a inquéritos imbecis.
A) queres ganhar um prémio. Tem de haver um prémio, certo?
B) não estás a fazer nada de jeito e é uma atividade mais interessante do que ler o blogue do Pipoco Mais Salgado; 
C) qualquer coisa que te afaste dos teus pensamentos é coisa boa.
D) tens pena da pessoa que fez o inquérito e achas que se importa. 

9. Uma personagem que te inspire
A) as personagens infra não inspirariam nem uma lesma;
B) zeus;
C) o gato que ri da Alice no País das Maravilhas;
D) o Dalai Lama.

10. O livro que nunca lerás
A) o livro de S. Cipriano porque suspeitas que não teria nada para te ensinar;
B) qualquer um do Gustavo Santos ou do Chagas Freitas ou daquele brasileiro que agora não recordo o nome mas que todos os meses edita um livro;
C) um livro de culinária porque, no mínimo, provocam queimaduras;
D) não existe livro que não lesses assim estivessem reunidas certas circunstâncias que aqui não temos paciência para enumerar.

(Inquérito inspirado neste aqui do Pipoco Mais Salgado, mas em melhor, é claro)





domingo, 16 de julho de 2017

Fim de ano

Por aqui contamos os dias pelas férias grandes. 
O meu ano chegou ao fim. O balanço, que a cobardia me promete ser inútil, ficará por fazer. Os maus dias não enchem duas mãos e o mar já há muito os levou. Os bons são todos os outros. Na contabilidade dos dias, aqueles em que nada foi são igualmente dias ganhos.
O exílio físico terminou por decreto. Um final de tarde, quando estava na casa de banho, fui informada que Lisboa me aceitou de volta. Assim. Sem o abraço da poesia ou a proteção de um céu azul.
O outro exílio, o da alma, estará muito além de um carimbo no passaporte nas mãos dos burocratas.
Não faço juras de fidelidade a essa puta que é Lisboa. Pago-lhe, como sempre paguei, com a moeda que tenho na mão. 
O coração, ou o que dele resta, deixo-o penhorado ao sul. 
E desta vez não me despeço. Não saberia fazê-lo. 

sábado, 15 de julho de 2017

Vão lá ler, vá

Numa simplificação caricatural, dir-se-á que a nova aproximação ao mundo tem uma fixação afectiva em tudo quanto provenha da Apple e tenta libertar-se do mobiliário IKEA que comprou em jovem. Simpatiza naturalmente bom Barack Obama e vê em Steve Jobs um ícone inspirador ou, melhor dizendo, um modelo de sucesso cool que lhe serve de lenitivo para as frustrações e os desaires do quotidiano. Há muitos anos, excitou-se com o Filofax, mas tudo indicia que estabilizou em definitivo no Moleskine. Desconfia se será aceitável eleger Murakami como um «grande escritor» e, às escondidas, chega a ler Nicholas Sparks, por causa dos «sentimentos». Em matéria de transportes, justifica o recurso à Uber com o argumento da falta de educação e de higiene da comunidade taxista. O uso de relógios Swatch desvaneceu-se há muito, por mais que a marca se tente reinventar. Sobressai uma demanda vertiginosa e sôfrega, quase demencial, de novidades. Sempre que algo se torna demasiado vulgar, sofre uma depreciação abrupta, sendo descartado como banal, popular em excesso.

António Araújo, Da Direita à Esquerda, editado por Saída de Emergência 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A longa noite

Na tão longa noite, além dos gritos das gaivotas, do desconforto do calor, das melgas, de um resto de luz dos faróis de algum carro que passou, veio também o perdão. Às cinco da manhã, último instante da madrugada em que são possíveis ações memoráveis, consegui perdoar-lhe. Creio que se perdoa à velocidade com que se ama e, como diz a canção, quando eu amo é sempre devagar. No dobrar das mil e uma noites, surgiu aquela, maior do que todas as outras, em que veio, finalmente, o perdão.
A manhã ofereceu-me um mundo de aparência igual ao da véspera mas, em tudo, diferente. Como se também a matéria de que são feitas as coisas pudesse depender do peso do coração. 
Saberei um dia aquilo que todos os animais pressentem: que o perdão é a face dourada da moeda do desprezo. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Diário de Bordo

A esta intrépida tripulação Pirata, durante dez meses por cada ano, não falha a coragem para o sabre ou a ambição para o saque. Lava os dentes com rum, usa com bravo orgulho o tapa-olhos, cultiva um sem fim de pequenas bizarrias desrazoáveis e mantém o coração colonizado pela arte da boa velha pirataria. 
Porém, logo que vê o mês de julho aparecer na folha do calendário, nasce-lhe das entranhas a pavloviana compulsão para se enfiar numa marina portuguesa, daquelas com lojas onde se vendem galos de Barcelos dourados, Nossas Senhoras de Fátima que adivinhem o tempo, porta-chaves com golfinhos e doces de amêndoa fossilizados.
Já levo desta vida de capitã anos suficientes para saber que há tormentas às quais é inútil apontar a proa.
Percebi que era altura de mudar a rota quando a idiotia me entrou pela escotilha mascarada de encomendas on line: colchões insufláveis em forma de lagosta, patinhos amarelos que boiam, cestas com folhos ridículos, barbatanas rosa-pastilha-elástica, pareos de toda a sorte de floreado e caixas de sardinhas e entremeada gordurosa.
Temendo que a própria da Quarteira fosse comprada na internet e entregue no meu navio, anunciei que aportaremos durante os próximos dois meses na marina mais próxima da dita.
Estamos neste exato momento a poucas milhas da costa, à espera que a lua se apague para que possamos fazer uma discreta entrada.
Estes dez-meses-por-ano-intrépidos-Piratas, aproveitam os dias de espera para encherem os insufláveis, montarem as fiadas de flores que tencionam usar ao pescoço  e desenharem escorpiões e osgas de hena em todas as partes do corpo.
Eu...bem... leio o Livro da Selva, de Kipling, lamento-me por em vez de ter ido para pirata não ter antes seguido a carreira de exploradora de tribos selvagens e sonho com as doces cores do outono.

domingo, 9 de julho de 2017

No céu de julho

Mas depois anoiteceu e foi o teu nome que apareceu inscrito no céu. Sob as esquinas dos sem abrigo, nas varandas das famílias, nos telhados dos gatos e até nas montanhas desertas. O teu nome desenhado a luz. Graffitti inapagável. Segredo gritado. Mancha insultuosa. 
O teu nome inscrito no céu de julho. 

SG

Subiu toda a avenida, caminhando pelo passeio, sem fazer uso das asas uma única vez. 
Talvez tivesse uma asa ferida, talvez preferisse caminhar, talvez também as gaivotas se esqueçam, por vezes, que as asas existem para voar. 

sábado, 8 de julho de 2017

Inavegável

Pedi um céu apocalítico.
Mas a alta lua 
iluminou,
sem incendiar,
um frágil braço de mar.







quinta-feira, 6 de julho de 2017

Comunicações Intergaláticas

Sobreviver-te é isto:
 A Billie Holiday a espalhar o seu jazz pela sala. O sol a sumir-se devagarinho nas ondas do mar. Uma lua insonsa a erguer-se. Os pratos por lavar na cozinha. O copo meio cheio em cima da mesa. Um locutor a debitar presumíveis desgraças sem som. O cão que comprei para enganar a tua ausência a ladrar na varanda. Livros esquecidos nos sítios onde se esquecem livros. Essa espécie de sobrevida. 
Cinco anos ensinam-nos a morte. Já não me espanto todas as manhãs com a mesma notícia. Não te procuro entre as multidões. Não espero que o telefone toque por ti. Não anseio aparições em sonhos. Não me atormento com a culpa. Não imagino os restos orgânicos daquilo que foste. 
Só a realidade, aquela que só o era depois de te a contar, só a realidade, essa, é que nunca mais regressou.
Sobreviver-te é isto:
Uma interminável sequência de factos banais que não se sucedem realmente porque a tua morte os tornou inconcretizáveis.  

terça-feira, 4 de julho de 2017

Insone

A insónia encontrou a minha cama voltada a sul e ocupou inteiro o espaço do colchão. É uma sombra cinzenta que nasce no chão e vai subindo pelas paredes até submergir o quarto. Não sei durante quantas noites se manterá, assim, colada à pele. É uma febre de ruídos noturno: gritos de zanga, uivos de cães, desespero de gaivotas, rodas de carros, passos alienados. Dói-me o lençol sob a clavícula, sinto crescer as unhas dos pés, ensurdece-me o rumor dos meus cabelos.
Debaixo da mancha cinzenta oprimem-me as pilhas de livros na cabeceira, os cabides no armário fechado, um bilhete dentro do bolso das calças, uma fotografia guardada no telefone e vários emails perdidos no espaço virtual.
À insónia pertence esta culpa sem rosto. A indefinível sensação do crime que julgamos ter cometido mas que não conseguimos recordar. A aceitação do castigo que é a consciência da profunda noite. 
E depois, pousar a cabeça na almofada como quem a oferece ao machado do algoz. 
Essa quase morte. 

sábado, 1 de julho de 2017

Regressos

Um dia perguntaram-me de que fugia.
Agora, nas vésperas do regresso de um longo exílio, sei finalmente a resposta:
Do que sobrou daquilo que perdi. 


sábado, 24 de junho de 2017

35°,5

A metade de mim que tem o outono instalado por debaixo das costelas, rejubilou com os vinte pingos de  chuva que esta tarde conseguiu amparar com o rosto.
A outra metade, trouxe a areia da praia para o chão da sala e, nele, deitou-se de costas à espera de qualquer coisa.

domingo, 18 de junho de 2017

Fotografia de uma manhã II

Para todos os outros é apenas a fotografia de um pátio, captada de um plano inferior. Para lá da mancha de sombra, vê-se um caminho de terra vermelha e depois dele os canteiros das flores e a seguir as árvores de fruto e, muito ao fundo, a baixa cerca branca por trás da qual se estende o mar infinito.
Há, ainda, no canto superior direito, um rasgo do céu azul da manhã. 
Para um único homem, porém, será  a forma que o abandono lhe deixou tatuada na íris; o registo exato da sua perspetiva do mundo na manhã em que uma espera se tornou vã.
Para mim, é o que não se pode ver: 
O degrau de pedra antiga, por trás da imagem. E sobre ele, pousada, uma mão aberta, a suster o frágil equilíbrio do corpo. 
E, nesse gesto, também do mundo. 


Fotografia de uma manhã I

Qualquer destino, por mais longo e complicado que seja, na realidade consta de um só momento: o momento em que o homem fica a saber para sempre quem é.

Jorge Luis Borges, in Biografia de Tadeo Isidoro Cruz, O Aleph.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Dois loucos

Quando a guerra chegou e as gentes partiram com a triste roupa no corpo, quando os pianos e os lustres e os espelhos foram abandonados ao pó e ao saque, quando os invasores encheram as ruas e acenderam fogueiras no soalho das salas, quando as colunas de fumo afugentaram as últimas aves, quando as bombas destruíram todos os muros e o sol foi oculto por milhões de partículas de caos, sobraram, ainda, uns metros do jardim de laranjeiras no cimo do monte. 
E nós permanecemos deitados, na imobilidade eterna de uma cama de balouço de seda branca, sob a sombra das duas ou três árvores sobejantes, distraídos do ruído dos homens pelas notas do jazz, concentrados na métrica do poema do fim de tarde, alheados da destruição pela beleza das asas de uma borboleta, protegidos do horror pela incapacidade de o representarmos. 
E enquanto a guerra nos lambia os pés, espantava-nos o assombro dessa aurora lilás que sonhávamos ter nascido apenas para nós. 
Foi assim que nos tornámos imortais. 

domingo, 11 de junho de 2017

Mercados

Deu-me meia dúzia de estórias, a música e uma constelação que não se pode ver daqui. 
Com a infâmia, paguei-lhe até ao último cêntimo.
A música que ainda me dá, recebo-a a crédito.
A infâmia não é moeda de troca. É penhor eterno. 


sexta-feira, 9 de junho de 2017

A invenção do amor

Quando o nevoeiro se adensou e o interior da montanha ficou submerso e as nossas mãos deixaram de encontrar as respetivas bocas, 
para nos salvar da banalidade
inventei o amor. 

Na palma da tua mão aberta pousei o engenho de asas sobredimensionadas.
 
Mas vi a sua sombra cruzar a lua 
e não sei se a vertigem  
foi perda 
ou 
foi orgulho.
O amor, dizes-me, não nos salvou.

Pequenas são sempre as mãos para as asas, 
penso, 
quando o amor é ave 
que se inventa 
a lápis azul.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Outras coisas

Os três volumes de Sophia, recusados com desdém pelo meu poeta morto.
O anel de flores-do-lis incrustadas que, talvez sem ilusão, vai atravessando três gerações.
Os sapatos prateados que, numa tarde de chuva, um homem calçou nos meus pés nus.
A algema que durante dez anos trouxe o pulso direito preso ao coração.
O quadro onde pintei a felicidade e que é hoje mera prova de cronologia factual.
Uma boneca de sabão esquecida na estante dessa casa na planície cuja rua tinha um nome que já esqueci. 
O bilhete de um concerto a que fui sem assistir e aquele outro bilhete de uma viagem a que assisti sem ir. 
São os objetos que me sobreviverão. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Decoração de interiores

Respondi-lhe, mentindo, que faz parte dos meus pensamentos. 
Os pensamentos são feitos da matéria do amanhã: infinidade existencial que se renova diariamente e se autojustifica.
Aquilo de que faz parte é das minhas memórias: Presunçoso cemitério de insignificâncias, decorado por anjos graníticos com lodo entre os dedos dos pés. 

Sinerman


Sinerwoman

O anjo negro que me vela a espertina, tenho a certeza, folheia os livros na minha ausência. Pretendo recorrer à insídia que há na literatura para educar esse fantasma. É para que os leia que finjo esquecer na mesa de prata folhada As Mil e Uma Noites, a Ilíada e a Osisseia, um livro de poemas de Borges, outro de Herberto, todos os contos de Nabokov e o Novo Testamento do Lourenço. São as bases da civilização e, tanto quanto me parece, são suficientes para que um anjo, ainda que negro, apreenda as noções básicas de humanidade. Uma vez educado, conto que o anjo que me calhou em má sorte encontre o caminho de regresso à luz, esqueça por inteiro a sua função de me proteger e, finalmente, abrace uma profissão capaz de exercer.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Porteiros do Neverland

Não os amei por razão menos interesseira do que o acesso às chaves do Neverland. 
É um mundo de céus azuis, pássaros coloridos, borboletas sem lagarta, cascatas de água morna que terminam em arco-íris que terminam em potes de ouro guardados por duendes de chapéu verde com uma pena no topo. Um mundo sem estações através do qual se caminha voando e onde a noite nos é leve porque chega e parte enquanto dormimos nas ervas altas da planície. Não existem o ontem e o amanhã. Ninguém nasce e ninguém morre. Falamos todos uma língua única. Desconhecem-se a dor, a fome, o frio, a falta. Não possuímos coisas. Quando nos aborrecemos, mudamos para a outra margem do rio; fazemos de uma árvore a nossa casa ou escavamos um castelo na areia. É-nos indiferente outra música, outra poesia, outra beleza que não aquela que carregamos dentro de nós ou conseguimos aprender nas flores.
Os homens que amei eram porteiros e zeladores do Neverland. Amei-os pelas suas funções e ninguém em sã consciência pode censurar-me por isso.

Selinho Blog em Bom


Discurso de vitória:
Minhas senhoras, meus senhores, indecisos, indefinidos, indiferentes, habitantes do Lago Tanganita, visitantes, observadores sociais e pessoas que vieram ao engano:
Em meu nome e em nome desta intrépida tripulação pirata, agradeço este prémio maravilhoso à Palmier Encoberto, a quem desde já congratulo publicamente pelo seu irrepreensível gosto em matéria de blogues. A ela e ao Pipoco Mais Salgado devo os meus dez leitores. Há mais um, que é a minha irmã, mas até ela só me descobriu através do PMS e só por aqui passa uma vez por mês. 
Poderia dedicar este selinho à memória de Borges, a quem roubei 70% do conteúdo dos posts, ou a alguns bloggers a quem roubei os restantes 30%. Mas dado que isso implicaria um exercício de modéstia que, Ala é grande, nunca experimentei, decidi dedicá-lo à Cláudia Filipa em representação de todas as pessoas que, não sendo suficientemente egomaníacas para alimentarem um blogue, têm a misteriosa paciência de os lerem, assim viabilizando a sua existência. 
Ah... e também agradeço à imprensa estrangeira. 

P.S. Tenho de colar isto na lateral direita? 






terça-feira, 30 de maio de 2017

Dos afetos

Os afetos são a motriz invisível, inodora, inaudível, que os pragmáticos gostam de ignorar. Até vinte e quatro horas antes do fim do prazo de escolha. A partir da vigésima  terceira hora somos todos sentimentais. 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ciclo de vida dos jaracandás

Enquanto dormias, as flores dos jaracandás amanheciam mortas e as ruas, ainda ontem tapetes liláses, iam-se cobrindo de um ouro decrépito, resinoso,  agarrado à sola dos pés. 
Colou-se-me a putrefação dos jaracandás e a imagem da boneca, meia despida, abandonada por entre as ervas. Os olhos grandes, azuis, acusadores, erguidos para o primeiro céu da manhã.
Enquanto dormias, desintegrava-se, alheia à tua inocência, a beleza das coisas.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Olá boa noite, sou a Cuca, a Pirata e venho contar-vos coisas da minhavida

Descobri que é muito mais fácil sermos corajosos quando conhecemos o rosto do inimigo.
*
*

*
*

*

*



Teoria do caos

A oscilação das asas da minha borboleta tem exata correspondência com aquele final de manhã em que nos cruzámos numa das ruas mais movimentadas de Lisboa e, contra todas as probabilidades cósmicas, no espaço de tempo que leva a dizer a frase "dou um estalo na cara a quem me disser que é melhor amar e perder do que nunca ter amado" percebemos o que havia para perceber. 
Então, enquanto ainda o julgava para sempre perdido por entre a multidão, tirei do bolso do casaco o rascunho do destino que tão pacientemente havia desenhado, transformei-o numa inocente bola de papel e atirei-o para o primeiro caixote do lixo que encontrei. 
Quinze anos e dois meses mais tarde, no dia em que ele morreu, já aquele encontro casual tinha mudado profundamente a vida de centenas de pessoas que nunca o viram. 
Ontem, ao ser confrontada com um dos efeitos de longínqua distância do furacão que se seguiu a esse bater de asas, não consegui, inutilmente, evitar perguntar-me se valeu a pena.
Tivesse um dos dois optado por outra rua, ou demorado mais um minuto numa das lojas, ou escolhido o lado da sombra, e o ADN da humanidade seria para sempre outro.
Percebi depois, ou sempre o soube, não sei, que, independentemente dos danos colaterais, a dúvida a respeito desse encontro, encerraria o mesmíssimo grau de estupidez de não saber se valeu a pena conhecer-me a mim própria. 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A noite que nunca acaba

E quando o modo aleatório ignorou o facto de os Cat Empire fazerem parte de uma longa lista de memórias censuradas, estes fizeram-se ouvir no convés do navio com a determinação dos revolucionários, dos loucos e dos piratas.
E todas as células do meu corpo aderiram imediatamente à revolução, impulsionando-o num desarmónico conjunto de saltos  e gestos que, segundo me lembro, constituem aquilo que vulgarmente se designa por dança.
Foram os nove minutos e trinta e cinco segundos em que estive mais viva no último ano.
Mas, de seguida, porque também a música reproduz a história, vieram os Muse com o Space Dementia e sobreveio a mesma velha sensação de queda livre.
No horizonte formou-se, de novo, a noite que nunca acaba.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Formiga

Armazenei-as o mais que soube. Mas, ao entardecer, pendurada no telhado pelos dedos dos pés, vi fugir-me da vista a última das metáforas. 
Este inusitado início de tristeza, bem sei, não é se não o espaço vazio que antecede a chegada da realidade. 
Ninguém precisa da realidade.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ganhar a perda

Depois de deixar de contar as luas, passaram tantas que já não saberia convertê-las em anos. Escureceram as noites brancas e aprendi o sono. Profundo. Sem sonhos. Sem a sombra dos jaracandás, o cheiro das camélias junto ao lago ou a sensação da montanha nas costas. 
O sono levou tudo: 
a febre do seu corpo na minha pele; o exato peso da mão dele na minha; o jazz no tom da voz. 
Ordenei às células o esquecimento e elas, implacáveis, obedeceram-me, assassinando-o.
Ganhei a guerra do desamor. 
Instalei-me no amplo território das noites escuras e silenciosas onde nenhuma candeia alumia o caminho, nem a rebelião dos sonhos se faz ouvir. 
O diabo a quem vendi a alma cumpriu integralmente a sua parte. 
Ficou este nada, expurgado do que, afinal, era tudo.

terça-feira, 16 de maio de 2017

A papoila

Quando partir, pensei, se alguma vez conseguir partir, pensei, quem reparará naquela única papoila que todos os anos nasce no mesmo canteiro em frente à minha porta? Quando já não estiver aqui para numa qualquer manhã de março ser surpreendida pelo regresso da mesma e única papoila, pensei, como farás para que me lembre que exististe em mim?

sábado, 13 de maio de 2017

Diz Herberto

– A água tem um som.
Mar inesgotável que desliza no silêncio.

Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo:
ouço-me para dentro. Mal posso
dar no mundo um passo 
sem tremer: sinto-me 
balouçado num sonho imenso, ando
nas pontas dos pés.

E estou só e a noite.

Há palavras que requerem uma pausa e silêncio.
(...)

Herberto Helder, Poemas Completos 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A Senhora dos Papagaios

E então, procurámos Tagik, o berbere contador de estórias, nas portas do deserto. E uma vez mais sentámo-nos no interior de uma tenda feita do azul dos sonhos, por cuja fresta de pano se viam, ao longe, as areias do tempo. E uma vez mais o velho berbere estendeu a mão ressequida para receber as nossas moedas que fez tilintar na mesma taça de prata trabalhada.
E então, Tagik, de voz arrastada, contou-nos da Senhora dos Papagaios:
Existiu no início dos dias, mas Alah é quem mais sabe, uma mulher que desafiou as leis do universo.
Ousou, sob o império do monocromático nude, fazer-se acompanhar por uma mala amarela. E perante o pasmo do povo e a reprovação dos deuses e a revolta dos animais a mulher sentou-se numa praça de pedra branca e abriu a mala e dela retirou mil papagaios, fazendo-os empoleirar-se na palma da mão, primeiro, entre as suas omoplatas, depois, no eixo da lua, por fim. E os papagaios espalharam-se pelo mundo e criaram as florestas e os piratas.
E os velhos deuses, afrontados, castigaram a mulher, tirando-lhe a si a voz que, por vingança, deram aos papagaios; aprisionando-a, muda, no verde imóvel de uma tela; deixando-a para o todo o sempre agarrada à sua mala amarela, fonte de todo o mal.
E ali ficou, para toda a eternidade, o cruel aviso aos homens.
Mas Alah é quem tudo sabe.

N.b. A Senhora dos Papagaios é esta.
E esta.
E esta.
E esta.
E esta.
E esta

terça-feira, 25 de abril de 2017

Adivinhações

Diz-me o facebook, tratando-me pelo primeiro nome e convertido em cartomante de esquina, que aproveite o sol; que as nuvens estão a dissipar-se.

Sonos

A estância balnear que habito acordou da sua triste hibernação. Levou uma inteira quinzena no estremecimento do fim do sono, em pestanejos indecisos, no espreguiçar lento dos músculos entorpecidos e, por fim, veio a manhã em que o verão já se instalara cansado. Parece de sempre o cheiro dos bronzeadores na espuma das ondas; são velhas as bolas encarnadas nas mãos das crianças; estão exaustos os vendedores e cestas que arrastam consigo; comidas do sol as ementas dos gelados. De repente, é verão há muito tempo na estância balnear que habito.
Também eu sinto ter sido arrancada ao sono.
Um sono profundo, vazio, antigo, milenar.
Daqueles em que se acorda com rugas nas mãos e cabelos soltos até aos pés.

domingo, 23 de abril de 2017


morrer

Quando a asa do pássaro metálico se inclinou sobre a minha ilha e do alto das nuvens eu vi a praia, esse estalido involuntário da língua, foi o quebrar de uma das juntas do coração.
E eu morri, morri assim devagar e para sempre e pela última vez.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Regressos

Errada, cuidei que não saberia regressar.
Errada, esqueci-me que aquilo que não sei é partir.

domingo, 9 de abril de 2017

Rastas

Dentro de uma das mangas de renda branca, escondo a alma rastafari. Durante o jantar, escorrega pelo pulso uma madeixa de cabelos enrolados que desce até aos dedos. Sacudo a mão com um único gesto firme, da esquerda para a direita, como quem afasta um mosquito imaginário.
Olho disfarçadamente para o pulso reentregue à decência das rendas brancas.
E quando ele me pergunta qual é meu superpoder, não lhe digo, é claro que não lhe digo, que é a minha ilimitada capacidade de desprezo.

Tortuga


sábado, 8 de abril de 2017

As estórias têm de ser bonitas todos os dias

Na penumbra do céu carregado, ao som de um violino ou de um saxofone solitário, com poemas pousados nos joelhos, a estória, no plano do pensamento, até pode parecer bonita. Mas à luz do sol, com o rio ali por trás, a voz mansa dos amigos, o patético esforço da busca de um sinónimo que poupe a palavra cobarde, a mesma estória, não consegue contar-se de uma maneira que não a faça parecer-se terrivelmente feia.
As estórias, percebi-o finalmente, são aquilo que soam à luz do dia e com ruído ambiente.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Promessa

ofereço-te esta tarde de desvento.
as flores agarradas aos ramos das árvores
e os ramos seguros à seiva do tempo.

o pátio lá fora num silêncio de sesta,
o gato que se estende sobre o calor das pedras
e a imobilidade mágica do sol que resta.

a luz que se aninha nos meus pés descalços,
o lençol; cada um dos eivos do seu vasto deserto
e os espelhos onde se desfazem medos falsos.

nuances de sombra azul que me habitam
um ou outro grito arrancado à carne
penas que compõem as asas ou as imitam.

Ofereço-te o que não pode perdurar:
o olhar líquido que inventa a tarde,
a insídia de um veneno que não arde,
a abstrata, vã, promessa de te amar.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Salvação

Hoje salvou o meu dia o poema que um poeta desinteressadamente partilhou.
Os poetas não sabem que, às vezes, salvam os nossos dias.
Devíamos dizer-lhes mais vezes. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Universo paralelo

Num qualquer outro universo paralelo, nas respetivas salas de cortinas arredadas, um homem e uma mulher espiam-se mutuamente.
Poderiam ter sido Adão e Eva antes do paraíso; dois amantes num final de tarde de inusitada chuva; os noivos que trocam votos que desconhecem não saber cumprir; selvagens na densa floresta onde jamais entrou a luz de deus; velhos que esperam a dócil morte de mãos juntas num banco do alpendre.
Conhecem-se as vozes que nunca antes ouviram e sabem que dentro do outro há um compartimento secreto onde se estende o Sahara.
Quando a noite cair, sonharão um corpo que descansa ao seu lado e com ele partilharão a solidão que foi o dia.
Nunca serão nada.

avariada

Esse resto de estórias incompletas é um depósito de brinquedos avariados. Falta a cabeça àquele poema; um guiador a um conto; os braços a um outro texto. Vivo estórias incompletas, sentada num balouço defeituoso, que se move ao ritmo de um coração, também ele, avariado.

domingo, 2 de abril de 2017

Diário de bordo

Com o vento a dançar na tumba fresca da tarde, regressei da guerra, sentada na tábua que sobrou. Apesar de rasgadas e sujas, estas ainda são as vestes de Pirata. Na guerra, perdi quase tudo. Salvei, por ordem de importância, o chapéu, a vida e a dignidade. Enfrentei a a baleia branca que jaz agora no fundo dos tempos e é como se a vida me pertencesse uma vez mais.
A minha ociosa tripulação recebeu-me em festa, de navio engalanado, sunset party e rum à descrição, não por me esperar mas, precisamente, por já não me esperar.
À chegada, comuniquei-lhes a minha irrevogável decisão:
Regressaremos ao nosso porto de origem. Afinal, até os Piratas, mais tarde ou mais cedo, precisam de voltar para casa. 

Voltar


sábado, 1 de abril de 2017

Ontem

Deitada na  nuvem apanhei uma gota de água e montei, na palma da mão, o meu próprio Aleph. Vi uns pés que conheço melhor do que os meus deambularem descalços pela penumbra derramada  no chão frio da cozinha; vi as cordas de uma guitarra esquecida atrás da porta; vi o espaço vazio da estante onde viveu o livro que ocupa o espaço antes vazio numa outra estante; vi uma orquídea que desistiu de florir; vi o búzio partido dentro de uma caixa, dentro de outra caixa, dentro de outra casa de penumbra derramada; vi um quadro em tons de cinzento deixado num cavalete; vi num espelho antigo o reflexo de um rosto triste; vi a estrada que vai da montanha até à lua e estava vazia. E então soprei a gota de água e fiquei a vê-la escorrer através dos dedos até ser apenas a chuva dos homens. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Duas viagens e um destino

A Sata oferece-me "uma viagem e dois destinos".
Ocorre-me que a Sata cumpriu a sua promessa comigo vários anos antes de a campanha ser inventada. A última vez que me ofereceu uma viagem, abriram-se imediatamente, no universo, dois destinos.
Compro duas viagens à Sata.

É isto

Tenho umas flores artificiais vagamente parecidas com camélias. Se baixar as luzes e olhar à distância são iguais às camélias. Houve um tempo em que as camélias eram verdadeiras e chegavam à terça-feira. Era o tempo em que o futuro ficava à distância de dois aviões. Depois o futuro chegou. As  camélias são falsificadas. A jarra, pelo menos, é sólida.

*

Substituí com considerável êxito a obsessão com a confeção de muffins pela aprendizagem do piano. Sou péssima em ambas e os progressos são igualmente miseráveis. Mas, de uma forma algo incompreensível, tocar piano para afastar a infelicidade faz-me parecer menos louca.

*

Abandonei a leitura da Ilíada. Abandonar a leitura da Ilíada é a atividade mais consistente que desempenho nos últimos vinte anos. Já o fiz em dez casas diferentes. Também abandonei a leitura da Ilíada em diversos hotéis e até em casas onde não vivia. Essas não contei. Abandonar a leitura da Ilíada passou a ser um traço de personalidade.

*
Enquanto a senhora da farmácia me entregava o troco, percebi, da forma como se percebem as coisas que são, que nunca conseguirei escolher ir-me embora. O exílio é a oitava costela do Pirata. Esse local mágico onde não esteve o passado, não estará o futuro e o presente está quase a terminar. Até os bêbados, diz-se, sabem sempre o caminho de casa. Mas eu preciso desesperadamente de um GPS.

domingo, 26 de março de 2017

Borboletas

No mar não há borboletas.

Faz-me falta uma asa colorida,
de patas pousadas no interior do pulso
a medir-me o ritmo da vida.

É assim que as fadas sabem 
se ainda temos coração.

Tilt

Enquanto desabava a matéria da nuvem, sempre a mesma, que até as nuvens são previsivelmente aborrecidas, parei o carro numa estação de serviço e fiquei lá dentro, imóvel e silenciosa, à espera que tudo aquilo acabasse. É uma filosofia de vida tão válida como outra qualquer: ficar dentro de uma redoma de vidro, artificialmente temperada, imóvel e silenciosa, à espera que tudo isto acabe. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

A Prova

Tenho irreversivelmente tatuada na retina a fotografia do homem que chora. Não a vejo há vários anos mas conheço de cor cada detalhe. A ruga funda da testa. Uma única lágrima amparada na lente dos óculos. Os cantos dos olhos vermelhos. A pele do rosto manchada. Os cabelos desalinhados pelo vento. O mar ao fundo. A fotografia do homem que chora está guardada dentro de uma pasta, dentro de outra pasta, dentro de uma terceira pasta. Nenhuma tem nome e foram atiradas ao acaso para o interior de um labirinto de memórias inúteis. Mesmo que quisesse, dificilmente a conseguiria encontrar. É a expressão congelada do sofrimento. Um sofrimento que se devolve, como quem estica o braço, abre a palma da mão e diz "Toma. Aqui tens a essência do mal. Agora pertence-te a ti e não mais a mim."
Às vezes sei que essa única imagem que não posso esquecer é a última  que verei na vida. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Eternidade

Daqui, de onde me quis trazer o mar, de costas unidas ao chão do barco que me serve de leito, embalada pelas ondas e pelo som do vento norte, é mais real a noite e são mais próximas as estrelas. Um homem comum, numa noite igual a esta, inventou deus. Outro homem, na mesma noite do futuro, destruirá o tempo. Talvez então um terceiro homem possa encontrar a eternidade. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Delete

Não é necessário morrer para ver o passado desfilar em passo apressado, diante dos nossos olhos, rumo ao vazio cósmico. Uma alternativa igualmente definitiva mas menos dramática é carregar no botão delete e ficar-se sentado a ver desaparecer coleções inteiras de sorrisos que já ninguém sabe nem quer saber se foram, ou não, felizes. Algures a meio do processo, a exterminadora que há em mim passou pela sala e decidiu apagar também todas as músicas, todos os vídeos e todos os textos. No final, julgo não ter deixado uma única prova digital de que tive mais passado do que as últimas duas horas. 
Paradoxalmente, ou talvez nem tanto, o computador continuou a avisar que o disco rígido está cheio. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Da Noite

Ah, o alívio de uma noite grave e pesada a abater-se sobre a ligeireza da luz:
"Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite", disse Herberto, sem saber, certamente, que é na página do crepúsculo que os deuses esboçam as linhas esquecidas do teu rosto. 

sábado, 11 de março de 2017

Diário de Bordo



Mandei que me aprontassem um escaler, mantimentos para alguns dias e a última edição de bolso da Ilíada, pois, constatei que, entretanto, num dos quatro continentes que lhe dei a conhecer, perdi a minha.
Parto esta noite, sozinha, como deve fazer-se quando se usa com seriedade o verbo partir.
Tal como Ahab, o louco, também eu naveguei os mares à procura da minha baleia branca, decidida a assassiná-la. 
Mas, ao contrário do capitão louco, não apenas não conduzi a minha tripulação à tragédia, como guardo o escrúpulo de travar a solo as batalhas que só a mim estão destinadas.
Encontrei a Moby Dick dos meus pesadelos e é dentro da memória que a aniquilarei. As memórias são o produto do esquartejamento do destino que escolhemos guardar. 
Despedi-me desta intrépida tripulação Pirata com a solenidade daqueles que sabem que nem sempre se regressa a casa. Creio ter visto nos olhos do meu selvagem cozinheiro viking um, tão frágil quanto inusitado, laivo de humanidade. 
Guardo-o. Um resto de humanidade é bússola que sempre nos poderá fazer falta quando se navegam as ondas dos deuses em frágeis botes construídos por homens.




(Fotografia retirada de monoimages.com)

Adivinhação

Perguntei a Homero, 
que tudo sabe, 
mas o oráculo despediu-me,
reencaminhando-me para o mar.

– "Todas as coisa ele sabia:
as que são, 
as que serão 
e as que já foram."

Pela manhã, ajoelhei-me 
na areia pura. 
Limpa de viúvas de pescadores, 
gaivotas desorientadas, 
búzios que carregam sons 
de outros mundos, 
mensagens desesperadas 
dentro de garrafas antigas. 
Conheci o conforto dos crentes 
nesse gesto mudo 
de perguntar a direção 
dos próprios passos.
Mas o mar declarou-se incompetente;
inconstante na fúria; 
escravo dos humores da lua. 

Esperei a lua, 
pendurada na noite.
Perguntei-lhe ao ouvido 
a direção dos meus pés.
A lua, iluminou-os 
mas, fazendo jus à fama
nem se dignou responder-me.

Sobram-me os pés descalços
E o esboço de mil caminhos.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Kele


Síntese

Alugo o corpo aos dias entre gestos repetidos e a ligeira nostalgia da liberdade. Nenhuma música embala a pressa. Nenhum poema prenuncia a manhã. Afogo na chávena de café o sono, o cansaço, o tédio. Há um relógio em cima da ampulheta e por baixo desta há uma clepsidra. Medem a escravidão. Das janelas vê-se o azul do céu. Sonho, às vezes, que um dia será meu. 
Ensinaram-me que é do chão que vem o medo. Esta forma de coragem, porém, é de oriente ignoto.

quarta-feira, 8 de março de 2017

domingo, 5 de março de 2017

Labirinto

Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho 
Que obstinado se bifurca noutro, 
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juiz. Não esperes a investida 
Do touro que é um homem, cuja estranha 
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.

Jorge Luis Borges, Elogio da Sombra, Obras Completas, Vol. II, Teorema.

Cinzento

Todas as tardes cinzentas, de chuva miúda, são a mesma tarde em que o vi partir pela primeira vez. Pouco importam os céus de cada regresso, a ave que os cruza ou o avião que os desfaz. Uma promessa, sobretudo quando incumprida, é um grito que ecoa na eternidade. 

Canção da Lua


sábado, 4 de março de 2017

Forgiveness

Não chegou a prometida paz. Ninguém escapou ao tempo mas também ninguém esqueceu. O perdão acenou-nos lá do fundo do seu horizonte sem jamais ser tangido. 
São indispensáveis milhões de anos para limar a aresta de uma rocha. Os homens contam o tempo numa medida menos desesperada: Em crepúsculos, auroras, solstícios, equinócios. É a resiliência das rochas que nos força a encontrar um sentido para tão inútil curta existência. 
Escolhemos o erro e o arrependimento com a displicência com que poderíamos ter escolhido o acerto e a glória. 
Agora a moeda caiu no mar profundo e sobreviver-nos-á. Pertence aos deuses o segredo do rosto da vitória.
Os dias que nos sobram serão de frio ou calor, de nuvens ou de céu, da tristeza que é a nossa pena ou da felicidade que é a nossa evasão à pena. 
Mas não virá nenhuma paz, nenhum perdão. Como o previu o poeta, nenhum outro céu, nenhum outro inferno. 

Rico

Rico,
é o que rouba ao esquecimento 
três ou quatro instantes,
e deles faz a sua enxerga
para dormir,
inteiro,
a noite dos animais.


sexta-feira, 3 de março de 2017

Milongas

A milonga continuou a ressoar, cega e incansável, nas ruínas do velho palácio, muito depois de teres partido.  
Às sextas-feiras, quando a noite corria a sua cortina sobre o mundo, se houvesse lua, os lobos podiam sentir a guitarra solitária mover a sombra de uma dança de facas e rosas. 
Deslizávamos por um resto de soalho emoldurado pelas frinchas das paredes onde as gaivotas fizeram ninho. Pele contra o aço, partilhávamos o sangue e o sal, entre passos sincronizados e veias rasgadas. 
E os lobos puderam, muito tempo depois de teres partido, sentir o desespero da milonga que, nas ruínas do velho palácio, dancávamos, eu e essa adaga antiga, que guardaste dentro do meu peito. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sohlepse

Desinteressadamente, vamos coabitando  o mesmo espaço. Por vezes, cruzamo-nos no hall de entrada, à saída do quarto, ou dentro de um elevador. Nada lhe pergunto sobre a expressão de louca que, quando julga que a não a vejo, repousa no fundo do seu olhar. Retribui-me o favor fingindo ignorar a minha existência. Em casa, dividimos os livros, os filmes, o piano, as roupas, o cão. Na rua, existimos à vez. Creio que ambas sabemos que nascerá o dia em que teremos de nos sentar na mesma cadeira e negociar os traços de um futuro comum. Enquanto essa madrugada não vier, somos uma organização empresarial, em contínua gestão administrativa, paralisada pela falta de quórum. 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Amarras


As amarras que nos desenlaçam

Nós, os que temos sempre a palavra pronta; os que não acreditamos na dúvida; os que desconhecemos as cambiantes da indecisão; nós, os que não sabemos o que é a indiferença; os que aprendemos a dividir o mundo entre fortes e fracos; os que não suportamos a nossa autolamúria; os que vetamos à mofa as nossas angústias; os que descremos das dores que não se resolvam com analgésicos, podemos, um dia, distraídos com o processo de sobrevivência, sofrer os terrores noturnos de uma escolha e acordar num pântano de indecisão. Nós, os que não contávamos com o golpe de estado das nossas emoções, só daremos por ele diante da falência orgânica do corpo. 
Então, seguiremos as migalhas de angústia deixadas ao longo de um corredor estreito, faremos o percurso inverso e descobriremos, entre o terror, o espanto e a autodeceção, que o que nos está a matar é aquela indecisão que lá atrás ignorámos. Descobriremos, também, que, pura e simplesmente, não sabemos o que escolher.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Pó do deserto

A nostalgia que antecedeu a areia foi, afinal, as primeiras partículas de pó do deserto a instalarem-se na alma. 
O dia amanheceu longínquo e indistinto, com um sol mascarado de lua e o mundo à distância de um véu opaco que não nos deixa ver as próprias mãos. Há areia por todo o lado: debaixo das unhas, dentro das pálperas, imiscuída nas veias. Agora o dia cai sem que sequer dele se possa dizer que se chegou a erguer. Arrumo a corda de funambulista onde dancei durante as últimas horas e dela sacudo o deserto. 
O nosso equilíbrio é tão precário que basta um grão de pó de areia para nos precipitar na queda livre do abismo que nos aprisiona. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Trama

Para que o horror seja perfeito, César, acossado ao pé de uma estátua pelos impacientes punhais dos seus amigos, descobre entre as caras e as lâminas a de Marco Júnio Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e deixa de se defender, exclamando: «Também tu, meu filho!» Shakespeare e Quevedo recolhem o patético grito.
Ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias: dezanove séculos depois, no Sul da província de Buenos Aires, um gaúcho é agredido por outros gaúchos e, ao cair, reconhece um afilhado seu e diz-lhe com mansa reconvenção e lenta surpresa (estás palavras têm de ser ouvidas, não lidas): «Pero, che!» Matam-no e não sabe que morre para que se repita uma cena.

Jorge Luis Borges, Obras Completas, II, O fazedor.

With all my love


Ilimitadamente

Há um verso de Borges que me colonizou a memória,
Há uma praça longínqua que percorro todas as noites,
Há um retrato meu que não voltarei a ver,
Há uma porta que manterei aberta até ao último dos dias,
E entre as músicas que tocaram na minha sala, há uma que não voltarei a ouvir.
Já perdi a conta às madrugadas,
A vida usa-me, inclemente.

Em resposta ao poema de Borges, Limites, O Fazedor, Obras Completas, II, Teorema, pg. 225

Lições da montanha

Tentou, sem nunca suceder, ensinar-me a felicidade. Revi a lição em cada um dos ocasos a que assisti, sozinha, sentada no cume da montanha. E nessa última tarde em que a baía foi encolhendo até se transformar numa noz que me coube na palma da mão fechada. Depois disso, desisti de aprender e, com o tempo, sobreveio o alívio do esquecimento. 
Uma manhã de febre, enquanto contemplava a palma da mão vazia na penumbra do quarto, resolvi a equação:
A felicidade dele era a felicidade dos imbecis e de alguns animais. A que apenas é possível nas criaturas que só têm existência metafísica no instante presente. Desprovidas da agonia do ontem ou da angústia do amanhã. 
É o tipo de felicidade que deliberadamente queremos desaprender.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Flores

Não me lembro, já, de ter a cabeça cheia de flores. Às vezes colho-as, da beira da estrada, das jarras dos outros ou de uma campa bem enfeitada. Trago-as comigo e construo grinaldas, fazendo-as passar pelo fio de prata oferecido pelo velho mago que me aprisionou a esta caixa de música. Dispo-me, coloco as grinaldas de flores sobre os cabelos e danço descalça até que a aurora venha deitar-me. Mas é tudo inútil. Acordarei sem uma única pétala dentro da cabeça e com quilómetros de areia estéril diante do olhar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Siri

- Are you a Robot?
- "Let's just say i'm made of silicon, memory and the courage of my convictions".

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Casa-na-árvore

Porque haverias de construir essa sólida casa na árvore; limpar a floresta de tragédias e dores; rodeá-la de muros de mármore do chão até às nuvens; ser o afincado porteiro do mal; forçar-me a crescer na assética atmosfera da felicidade fabril; porque haverias de construir essa sólida casa na árvore se estava escrito que, um dia, acabarias por atear fogo à floresta, trancar os portões e partir? 

Naufrágios

Navegámos 
uma noite escura 
de faróis cegos.
A realidade é escarpa 
assassina 
que se esconde
atrás da sétima onda; 
– A maior.
Naufragámos o medo. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O amor tem as unhas dos pés sujas



Eurídice, a quem não salvou a incompetência de Orfeu; Orfeu, que não se salvou nem com a clemência de Hades; Inês, morta pelo amor de Pedro; Layla, assassinada de desgosto às mãos do louco Majnun; Sherazade, vítima de violência doméstica de Shariar; Ofélia, afogada pelo desprezo de Hamlet; Teresa e Mariana, que se perderam por Simão; Romeu, tombado por Julieta e Julieta, vítima do equívoco de Romeu; Anna Karenine, que por Vronsky ofereceu o pescoço ao peso do comboio; Medeia, a quem o abandono de Jasão transformou em assassina; Madame Butterfly, forçada ao haraquiri depois de ter sido atraiçoada por um americano da marinha cuja indignidade é condenada com o constante olvido do seu nome; Páris, duas gerações de guerreiros destruídos por uma rameira chamada Helena.
Em cima: Eros, de Caravaggio, onde se comprova, como se a literatura não nos ensinasse quanto baste, que são sujas as unhas do pés do amor.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Serviço Público

Frederico Lourenço traduziu a Odisseia de Homero para a Cotovia. E traduziu-a de uma forma tão divina que qualquer pessoa que consiga perceber a bula da aspirina poderá compreender e, pasme-se, divertir-se, com a leitura da Odisseia. Nós, plural majestático destinado a acentuar o snobismo intelectual de que nunca seremos demasias vezes injustamente acusadas, suspendemos por escassos segundos o habitual revirar de olhos diante do cheiro que antecede a expressão "democratização da cultura" e recomendamos, sem medos, a leitura. 

P.s. Só nos responsabilizamos até ao primeiro terço.
P.s.1 metade.

O lamento de Calipso

Estremeceu Calipso, divina entre as deusas.
E falando dirigiu-lhe palavras apetrechadas de asas:
"Sois cruéis, ó deuses, e os mais invejosos de todos!
Vós que às deusas levais a mal que com homens mortais 
partilhem o leito, quando algum a escolhe por amante! (...)
E assim sucede agora comigo: sentis rancor, ó deuses,
porque me deito com um homem mortal.
Mas fui eu que o salvei, quando ele aqui chegou sozinho,
montado numa quilha, pois Zeus estilhaçara a nau
com um relâmpago candente no meio do mar cor de vinho.
Tinham perecido todos os outros valentes companheiros;
mas ele foi para aqui trazido pelas ondas e pelo vento.
Amei e alimentei Ulisses: prometi-lhe que o faria imortal
e que ele viveria todos os seus dias isento de velhice.
Mas não é possível a outro deus ultrapassar ou frustrar 
o pensamento de Zeus, detentor da égide.
Que Ulisses parta —se é isso que Zeus quer e exige — 
pelo mar nunca vindimado. Mas não serei eu a dar-lhe transporte: não tenho naus providas de remos nem tripulação 
que o possa levar sobre o vasto dorso do mar. 
Mas de boa vontade dar-lhe-ei conselhos: nada ocultarei para que inteiramente ileso ele regresse à terra pátria.

Canto V, Odisseia, Homero, Cotovia

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A chuva de ontem

Chove e chove e chove. O cão cola-se às vidraças entre o tédio da nova cortina de intermitentes fios prateados que passou a haver do lado exterior e a inveja conformada das gaivotas que se vieram abrigar na varanda. 
A manhã, a tarde e a noite, o dia de hoje e o de ontem, têm todos a mesma indestrinçável cor opaca.
Não vejo um único ser humano há demasiadas horas. Saio para as ruas que estão aguadas e desertas.
Compro um peixe e um livro de Vinicius de Moraes. 
No regresso, o cão continua sentado a ver cair a chuva de ontem. 

Ecos

Não nasci pirata. Antes disso, veio o dia em que estendi os meus bens sobre as pedras do pátio circular e usando todos os livros técnicos como combustível deitei-lhes o fogo para me aquecer nas chamas.
Uma vez por outra, o meu passado burguês cruza-se comigo. Quase sempre nas páginas amarelecidas dos jornais de há muitos meses que as pessoas deixam largados nos portos. É assim, involuntariamente e com significativo atraso, que vou tomando conhecimento  da morte de uns e da vida dos outros. São ecos longínquos das notas de uma gasta canção que se sabe de cor. Ouço-os como se estas pessoas, que conheci por dentro, fossem enjoativas personagens de uma peça de Ibsen.

Não tenho nenhuma saudade do vasto espólio que incinerei. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Morfina

Aqui deitada, enquanto finjo ignorar a dor que se veio instalar no fundo das costas, ocorre-me que o fingimento é, na sua potencialidade aditiva, a morfina das dores da alma. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Breve memorando de inutilidades quotidianas

Acordei trinta segundos antes do despertador. Aluguei o cérebro durante as horas da manhã. Não me lembro o que sucedeu depois do almoço. Ouvi mentiras durante a segunda metade da tarde. Cortei no papel o terço médio do indicador. No regresso a casa Joe Dassin perguntou-me por que existiria se eu não existisse, pá. Comi sem culpa meio pacote de bolinhos de areia. 
Detesto os dias em que a poesia não me encontra. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Como gesto de boa vontade

Aceito partilhar a guarda da Milu...

Profecias

Haveria de se cumprir a Nitzscheana profecia do enlouquecimento do assassino de deus. 
Nasci uma vez mais, numa manhã de inverno, nas areias desertas de uma maré maior do que as outras. Nua e adulta. É a única forma digna de se nascer. Vi as nuvens. Ouvi a música. Conheci o cheiro das rochas. Aprendi as letras e descobri as estórias. Tudo, com o espanto da primeira vez. 
Não tenho memória mais antiga do que esse suave desadormecer por entre limos, conchas vazias de búzios e areia molhada. A linguagem das gaivotas é a minha pátria e do amor sei apenas o que dele se quis contar nos livros.
Porém, aos domingos, instala-se no fundo das costelas o peso de tudo aquilo que não recordo. E ainda esta terrível  compulsão para depositar num altar vazio as flores dos cardos que me enfeitam os cabelos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Onde deixei o Natal

Eu e o meu cão dormimos uma sesta mansa à chegada a casa. Os restos do Natal ainda pelos cantos da sala e as minhas Mil e Uma Noites, que tanta falta me fizeram, a servirem-nos de almofada. 
Lá fora, há a noite precoce e uma triste ameaça de chuva que se cola aos ossos. As vozes cansadas das pessoas que passam por baixo das minhas janelas tomaram o lugar dos gritos das gaivotas.
A casa voltou a acusar-me e às vezes penso que é pelo crime de abandono que me castiga o sono. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Oásis

Das areias vermelhas do deserto longínquo chegou-me a música que precisava para a tarde. Os amigos têm no coração a sabedoria ancestral das pedras, do rumor do vento nas copas das árvores, das penas que os pássaros deixam cair à nossa passagem. Os amigos sempre sentem e sabem aquilo que precisamos que sintam e conheçam.
Mesmo, e creio que sobretudo, quando são vastos e variados os oceanos que nos separam o sangue. 
Retribuo a areia do deserto que faltava, entregando o mar que me sobra. 


Milu

Foi quando me preparava para a mandar enfiar numa caixa de sapatos e remeter à dona que reparei nas semelhanças que existem entre mim e essa aranha que dá pelo nome Milu e veio de um blog chamado o fogo não queima a faca ou qualquer coisa assim com utensílios de cozinha.  Essa alma partilha do meu fascínio por me pendurar em coisas e ficar lá a balouçar-me em silêncio, até que me doam os pés ou o telemóvel toque, o que vier primeiro, com a vantagem que, enquanto eu tenho de procurar um bom telhado ou varanda para o efeito e sujeitar-me à localização e vista disponíveis, Milu constrói o seu próprio balouço onde bem lhe aprouver. 
A pequena aranha, na sua habilidade de ficar imóvel à espera da presa que há de cair na sua teia, manifesta uma inata vocação para a pirataria que, até agora, tem andado a ser desperdiçada em blogues sobre facas de cozinha, onde leva uma vida desgraçada a ouvir versos de poetas que estão para a poesia como, nos anos oitenta do século passado, o Vasco Granja esteve para os desenhos animados. 
Esta simpática criatura, enquanto foi refém no meu navio, entreteve-se a bordar uma laboriosa teia sobre a minha cama que suplanta em maravilha e eficiência qualquer rede mosquiteira. 
Entretanto, conquistou o coração de Andhriminir, o cozinheiro Viking, e tornaram-se de tal forma inseparáveis que Milu passou a viver nas melenas ruivas e compridas do viking, onde está, para todo o sempre, a salvo de qualquer gota de água.
Milu, a aranha Pirata, que recolhi à porta de um blog sobre facas, numa altura em que esteve encerrado sob ameaça de falência, sofreu um upgrade no seu estatuto de refém e é agora o mais recente membro desta intrépida tripulação que, estou certa, tudo fará para a manter entre nós.

(Ao que acresce que ainda este ano não tinha roubado nada às pessoas dos blogs. Assim que me lembre, pelo menos.)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Cuca também escreve sobre isso de morrer de amor

É um inútil dispêndio de energia. 
Mais inteligente seria matar o amor.
Eros, esse inimputável perigoso, merece viver aprisionado numa cave recôndita, na companhia das traças e dos corvos, que são o reverso das borboletas e das pombas (já de si criaturas que me inspiram pouca confiança, lacaios de palhaços pobres e mágicos de província) 

sábado, 28 de janeiro de 2017

Epitáfio

E também aquilo que não vivi, pertence-me inteiramente. 

On repeat

Bastaram três minutos.
É como se o mundo tivesse parado naquela noite de março. Esqueci-me do dia e do ano. Um grão de areia de contornos irregulares parou o mecanismo da ampulheta e é inútil medir o tempo que teria corrido se algum tempo ainda corresse. 
É sempre a mesma mulher negra, no palco, a cantar a mesma música. O mesmo copo de gin esquecido na mesa redonda coberta por uma toalha de pano verde. Cinco dedos. O teu olhar preso nos meus lábios. As pessoas a desvanecerem-se pelos cantos da sala. O som da voz da cantora a diminuir lentamente. Foi assim que soube.
Bastaram três minutos.