terça-feira, 21 de novembro de 2017

O aleph

Sei de um Aleph. Vive numa certa página de um certo exemplar de “As Metamorfoses”, de Ovídio. Encontrei-o num sítio que não revelarei, quando, entre paredes forradas a livros e sussurros, esperava, sentada numa pesada cadeira antiga, por um homem que sabia que viria. 
Quando cheguei à décima primeira linha da página, por baixo do nome de Júpiter, surgiu-me a inusitada janela para o universo. Vi um minúsculo olho desenhado a carvão e, com o livro pousado nos joelhos, foi através dele que espreitei. Então foi-me dado ver o universo. Vi cada uma das cores do arco-íris, por ordem inversa à sua. Vi os olhos vermelhos de uma criança albina e a mão despigmentada com que colheu a rosa branca. Vi uma crisálida estremecer lenta na transformação. Vi Hera, sentada à comprida mesa do Olimpo, exercer o arbítrio e a maldade que são a massa dos deuses. Vi homens iguais de distintas fardas matarem-se por razão ignota do alto dos seus cavalos assustados. Vi a escuridão da gruta onde o primeiro homem, a sangue, desenhou o primeiro animal pelo prazer de o rememorar. Vi o mar imenso, cada uma das suas criaturas, e tive saudade e medo. Vi os canhões apontados à praia e depois os mísseis que um dia alcançarão a lua. Vi Homero guiar Dante pelos círculos do Inferno e Beatriz, que estava irremediavelmente morta. Vi Eurídice maldizer Orfeu que não a libertou e o meu próprio Orfeu, para sempre preso no Hades pela minha resolução de não olhar para trás. Vi um diamante no dedo anelar de uma mulher vestida de vermelho e a sua vaga expressão de felicidade. Vi uma criança que fui eu própria e a sua saia de índia. Vi o Ganges, cada um dos seus mortos e todas as viúvas. Vi num teatro desconhecido dois amantes partilharem o mesmo veneno e tornarem-se imortais. Vi a mão de Borges escrever o seu Aleph, de onde este haveria de nascer. Vi o riso dançar dentro dos olhos do homem que esperei sabendo que viria.
Depois fechei o livro e, ao acaso, devolvi-o a uma imensa estante. 
Nem sempre o universo é moeda para um riso que dança dentro dos olhos.



2 comentários:

  1. Nem sempre os olhos são fonte de um tal universo!

    Beijos, Cuca :)

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    1. ah, mas há tão maior fascínio num riso que dança dentro de alguns olhos.

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