sábado, 25 de fevereiro de 2017

Amarras


As amarras que nos desenlaçam

Nós, os que temos sempre a palavra pronta; os que não acreditamos na dúvida; os que desconhecemos as cambiantes da indecisão; nós, os que não sabemos o que é a indiferença; os que aprendemos a dividir o mundo entre fortes e fracos; os que não suportamos a nossa autolamúria; os que vetamos à mofa as nossas angústias; os que descremos das dores que não se resolvam com analgésicos, podemos, um dia, distraídos com o processo de sobrevivência, sofrer os terrores noturnos de uma escolha e acordar num pântano de indecisão. Nós, os que não contávamos com o golpe de estado das nossas emoções, só daremos por ele diante da falência orgânica do corpo. 
Então, seguiremos as migalhas de angústia deixadas ao longo de um corredor estreito, faremos o percurso inverso e descobriremos, entre o terror, o espanto e a autodeceção, que o que nos está a matar é aquela indecisão que lá atrás ignorámos. Descobriremos, também, que, pura e simplesmente, não sabemos o que escolher.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Pó do deserto

A nostalgia que antecedeu a areia foi, afinal, as primeiras partículas de pó do deserto a instalarem-se na alma. 
O dia amanheceu longínquo e indistinto, com um sol mascarado de lua e o mundo à distância de um véu opaco que não nos deixa ver as próprias mãos. Há areia por todo o lado: debaixo das unhas, dentro das pálperas, imiscuída nas veias. Agora o dia cai sem que sequer dele se possa dizer que se chegou a erguer. Arrumo a corda de funambulista onde dancei durante as últimas horas e dela sacudo o deserto. 
O nosso equilíbrio é tão precário que basta um grão de pó de areia para nos precipitar na queda livre do abismo que nos aprisiona. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Trama

Para que o horror seja perfeito, César, acossado ao pé de uma estátua pelos impacientes punhais dos seus amigos, descobre entre as caras e as lâminas a de Marco Júnio Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e deixa de se defender, exclamando: «Também tu, meu filho!» Shakespeare e Quevedo recolhem o patético grito.
Ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias: dezanove séculos depois, no Sul da província de Buenos Aires, um gaúcho é agredido por outros gaúchos e, ao cair, reconhece um afilhado seu e diz-lhe com mansa reconvenção e lenta surpresa (estás palavras têm de ser ouvidas, não lidas): «Pero, che!» Matam-no e não sabe que morre para que se repita uma cena.

Jorge Luis Borges, Obras Completas, II, O fazedor.

With all my love


Ilimitadamente

Há um verso de Borges que me colonizou a memória,
Há uma praça longínqua que percorro todas as noites,
Há um retrato meu que não voltarei a ver,
Há uma porta que manterei aberta até ao último dos dias,
E entre as músicas que tocaram na minha sala, há uma que não voltarei a ouvir.
Já perdi a conta às madrugadas,
A vida usa-me, inclemente.

Em resposta ao poema de Borges, Limites, O Fazedor, Obras Completas, II, Teorema, pg. 225

Lições da montanha

Tentou, sem nunca suceder, ensinar-me a felicidade. Revi a lição em cada um dos ocasos a que assisti, sozinha, sentada no cume da montanha. E nessa última tarde em que a baía foi encolhendo até se transformar numa noz que me coube na palma da mão fechada. Depois disso, desisti de aprender e, com o tempo, sobreveio o alívio do esquecimento. 
Uma manhã de febre, enquanto contemplava a palma da mão vazia na penumbra do quarto, resolvi a equação:
A felicidade dele era a felicidade dos imbecis e de alguns animais. A que apenas é possível nas criaturas que só têm existência metafísica no instante presente. Desprovidas da agonia do ontem ou da angústia do amanhã. 
É o tipo de felicidade que deliberadamente queremos desaprender.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Flores

Não me lembro, já, de ter a cabeça cheia de flores. Às vezes colho-as, da beira da estrada, das jarras dos outros ou de uma campa bem enfeitada. Trago-as comigo e construo grinaldas, fazendo-as passar pelo fio de prata oferecido pelo velho mago que me aprisionou a esta caixa de música. Dispo-me, coloco as grinaldas de flores sobre os cabelos e danço descalça até que a aurora venha deitar-me. Mas é tudo inútil. Acordarei sem uma única pétala dentro da cabeça e com quilómetros de areia estéril diante do olhar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Siri

- Are you a Robot?
- "Let's just say i'm made of silicon, memory and the courage of my convictions".

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Casa-na-árvore

Porque haverias de construir essa sólida casa na árvore; limpar a floresta de tragédias e dores; rodeá-la de muros de mármore do chão até às nuvens; ser o afincado porteiro do mal; forçar-me a crescer na assética atmosfera da felicidade fabril; porque haverias de construir essa sólida casa na árvore se estava escrito que, um dia, acabarias por atear fogo à floresta, trancar os portões e partir? 

Naufrágios

Navegámos 
uma noite escura 
de faróis cegos.
A realidade é escarpa 
assassina 
que se esconde
atrás da sétima onda; 
– A maior.
Naufragámos o medo. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O amor tem as unhas dos pés sujas



Eurídice, a quem não salvou a incompetência de Orfeu; Orfeu, que não se salvou nem com a clemência de Hades; Inês, morta pelo amor de Pedro; Layla, assassinada de desgosto às mãos do louco Majnun; Sherazade, vítima de violência doméstica de Shariar; Ofélia, afogada pelo desprezo de Hamlet; Teresa e Mariana, que se perderam por Simão; Romeu, tombado por Julieta e Julieta, vítima do equívoco de Romeu; Anna Karenine, que por Vronsky ofereceu o pescoço ao peso do comboio; Medeia, a quem o abandono de Jasão transformou em assassina; Madame Butterfly, forçada ao haraquiri depois de ter sido atraiçoada por um americano da marinha cuja indignidade é condenada com o constante olvido do seu nome; Páris, duas gerações de guerreiros destruídos por uma rameira chamada Helena.
Em cima: Eros, de Caravaggio, onde se comprova, como se a literatura não nos ensinasse quanto baste, que são sujas as unhas do pés do amor.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Serviço Público

Frederico Lourenço traduziu a Odisseia de Homero para a Cotovia. E traduziu-a de uma forma tão divina que qualquer pessoa que consiga perceber a bula da aspirina poderá compreender e, pasme-se, divertir-se, com a leitura da Odisseia. Nós, plural majestático destinado a acentuar o snobismo intelectual de que nunca seremos demasias vezes injustamente acusadas, suspendemos por escassos segundos o habitual revirar de olhos diante do cheiro que antecede a expressão "democratização da cultura" e recomendamos, sem medos, a leitura. 

P.s. Só nos responsabilizamos até ao primeiro terço.
P.s.1 metade.

O lamento de Calipso

Estremeceu Calipso, divina entre as deusas.
E falando dirigiu-lhe palavras apetrechadas de asas:
"Sois cruéis, ó deuses, e os mais invejosos de todos!
Vós que às deusas levais a mal que com homens mortais 
partilhem o leito, quando algum a escolhe por amante! (...)
E assim sucede agora comigo: sentis rancor, ó deuses,
porque me deito com um homem mortal.
Mas fui eu que o salvei, quando ele aqui chegou sozinho,
montado numa quilha, pois Zeus estilhaçara a nau
com um relâmpago candente no meio do mar cor de vinho.
Tinham perecido todos os outros valentes companheiros;
mas ele foi para aqui trazido pelas ondas e pelo vento.
Amei e alimentei Ulisses: prometi-lhe que o faria imortal
e que ele viveria todos os seus dias isento de velhice.
Mas não é possível a outro deus ultrapassar ou frustrar 
o pensamento de Zeus, detentor da égide.
Que Ulisses parta —se é isso que Zeus quer e exige — 
pelo mar nunca vindimado. Mas não serei eu a dar-lhe transporte: não tenho naus providas de remos nem tripulação 
que o possa levar sobre o vasto dorso do mar. 
Mas de boa vontade dar-lhe-ei conselhos: nada ocultarei para que inteiramente ileso ele regresse à terra pátria.

Canto V, Odisseia, Homero, Cotovia

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A chuva de ontem

Chove e chove e chove. O cão cola-se às vidraças entre o tédio da nova cortina de intermitentes fios prateados que passou a haver do lado exterior e a inveja conformada das gaivotas que se vieram abrigar na varanda. 
A manhã, a tarde e a noite, o dia de hoje e o de ontem, têm todos a mesma indestrinçável cor opaca.
Não vejo um único ser humano há demasiadas horas. Saio para as ruas que estão aguadas e desertas.
Compro um peixe e um livro de Vinicius de Moraes. 
No regresso, o cão continua sentado a ver cair a chuva de ontem. 

Ecos

Não nasci pirata. Antes disso, veio o dia em que estendi os meus bens sobre as pedras do pátio circular e usando todos os livros técnicos como combustível deitei-lhes o fogo para me aquecer nas chamas.
Uma vez por outra, o meu passado burguês cruza-se comigo. Quase sempre nas páginas amarelecidas dos jornais de há muitos meses que as pessoas deixam largados nos portos. É assim, involuntariamente e com significativo atraso, que vou tomando conhecimento  da morte de uns e da vida dos outros. São ecos longínquos das notas de uma gasta canção que se sabe de cor. Ouço-os como se estas pessoas, que conheci por dentro, fossem enjoativas personagens de uma peça de Ibsen.

Não tenho nenhuma saudade do vasto espólio que incinerei. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Morfina

Aqui deitada, enquanto finjo ignorar a dor que se veio instalar no fundo das costas, ocorre-me que o fingimento é, na sua potencialidade aditiva, a morfina das dores da alma. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Breve memorando de inutilidades quotidianas

Acordei trinta segundos antes do despertador. Aluguei o cérebro durante as horas da manhã. Não me lembro o que sucedeu depois do almoço. Ouvi mentiras durante a segunda metade da tarde. Cortei no papel o terço médio do indicador. No regresso a casa Joe Dassin perguntou-me por que existiria se eu não existisse, pá. Comi sem culpa meio pacote de bolinhos de areia. 
Detesto os dias em que a poesia não me encontra. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Como gesto de boa vontade

Aceito partilhar a guarda da Milu...

Profecias

Haveria de se cumprir a Nitzscheana profecia do enlouquecimento do assassino de deus. 
Nasci uma vez mais, numa manhã de inverno, nas areias desertas de uma maré maior do que as outras. Nua e adulta. É a única forma digna de se nascer. Vi as nuvens. Ouvi a música. Conheci o cheiro das rochas. Aprendi as letras e descobri as estórias. Tudo, com o espanto da primeira vez. 
Não tenho memória mais antiga do que esse suave desadormecer por entre limos, conchas vazias de búzios e areia molhada. A linguagem das gaivotas é a minha pátria e do amor sei apenas o que dele se quis contar nos livros.
Porém, aos domingos, instala-se no fundo das costelas o peso de tudo aquilo que não recordo. E ainda esta terrível  compulsão para depositar num altar vazio as flores dos cardos que me enfeitam os cabelos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Onde deixei o Natal

Eu e o meu cão dormimos uma sesta mansa à chegada a casa. Os restos do Natal ainda pelos cantos da sala e as minhas Mil e Uma Noites, que tanta falta me fizeram, a servirem-nos de almofada. 
Lá fora, há a noite precoce e uma triste ameaça de chuva que se cola aos ossos. As vozes cansadas das pessoas que passam por baixo das minhas janelas tomaram o lugar dos gritos das gaivotas.
A casa voltou a acusar-me e às vezes penso que é pelo crime de abandono que me castiga o sono.