domingo, 26 de março de 2017

Borboletas

No mar não há borboletas.

Faz-me falta uma asa colorida,
de patas pousadas no interior do pulso
a medir-me o ritmo da vida.

É assim que as fadas sabem 
se ainda temos coração.

Tilt

Enquanto desabava a matéria da nuvem, sempre a mesma, que até as nuvens são previsivelmente aborrecidas, parei o carro numa estação de serviço e fiquei lá dentro, imóvel e silenciosa, à espera que tudo aquilo acabasse. É uma filosofia de vida tão válida como outra qualquer: ficar dentro de uma redoma de vidro, artificialmente temperada, imóvel e silenciosa, à espera que tudo isto acabe. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

A Prova

Tenho irreversivelmente tatuada na retina a fotografia do homem que chora. Não a vejo há vários anos mas conheço de cor cada detalhe. A ruga funda da testa. Uma única lágrima amparada na lente dos óculos. Os cantos dos olhos vermelhos. A pele do rosto manchada. Os cabelos desalinhados pelo vento. O mar ao fundo. A fotografia do homem que chora está guardada dentro de uma pasta, dentro de outra pasta, dentro de uma terceira pasta. Nenhuma tem nome e foram atiradas ao acaso para o interior de um labirinto de memórias inúteis. Mesmo que quisesse, dificilmente a conseguiria encontrar. É a expressão congelada do sofrimento. Um sofrimento que se devolve, como quem estica o braço, abre a palma da mão e diz "Toma. Aqui tens a essência do mal. Agora pertence-te a ti e não mais a mim."
Às vezes sei que essa única imagem que não posso esquecer é a última  que verei na vida. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Eternidade

Daqui, de onde me quis trazer o mar, de costas unidas ao chão do barco que me serve de leito, embalada pelas ondas e pelo som do vento norte, é mais real a noite e são mais próximas as estrelas. Um homem comum, numa noite igual a esta, inventou deus. Outro homem, na mesma noite do futuro, destruirá o tempo. Talvez então um terceiro homem possa encontrar a eternidade. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Delete

Não é necessário morrer para ver o passado desfilar em passo apressado, diante dos nossos olhos, rumo ao vazio cósmico. Uma alternativa igualmente definitiva mas menos dramática é carregar no botão delete e ficar-se sentado a ver desaparecer coleções inteiras de sorrisos que já ninguém sabe nem quer saber se foram, ou não, felizes. Algures a meio do processo, a exterminadora que há em mim passou pela sala e decidiu apagar também todas as músicas, todos os vídeos e todos os textos. No final, julgo não ter deixado uma única prova digital de que tive mais passado do que as últimas duas horas. 
Paradoxalmente, ou talvez nem tanto, o computador continuou a avisar que o disco rígido está cheio. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Da Noite

Ah, o alívio de uma noite grave e pesada a abater-se sobre a ligeireza da luz:
"Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite", disse Herberto, sem saber, certamente, que é na página do crepúsculo que os deuses esboçam as linhas esquecidas do teu rosto. 

sábado, 11 de março de 2017

Diário de Bordo



Mandei que me aprontassem um escaler, mantimentos para alguns dias e a última edição de bolso da Ilíada, pois, constatei que, entretanto, num dos quatro continentes que lhe dei a conhecer, perdi a minha.
Parto esta noite, sozinha, como deve fazer-se quando se usa com seriedade o verbo partir.
Tal como Ahab, o louco, também eu naveguei os mares à procura da minha baleia branca, decidida a assassiná-la. 
Mas, ao contrário do capitão louco, não apenas não conduzi a minha tripulação à tragédia, como guardo o escrúpulo de travar a solo as batalhas que só a mim estão destinadas.
Encontrei a Moby Dick dos meus pesadelos e é dentro da memória que a aniquilarei. As memórias são o produto do esquartejamento do destino que escolhemos guardar. 
Despedi-me desta intrépida tripulação Pirata com a solenidade daqueles que sabem que nem sempre se regressa a casa. Creio ter visto nos olhos do meu selvagem cozinheiro viking um, tão frágil quanto inusitado, laivo de humanidade. 
Guardo-o. Um resto de humanidade é bússola que sempre nos poderá fazer falta quando se navegam as ondas dos deuses em frágeis botes construídos por homens.




(Fotografia retirada de monoimages.com)

Adivinhação

Perguntei a Homero, 
que tudo sabe, 
mas o oráculo despediu-me,
reencaminhando-me para o mar.

– "Todas as coisa ele sabia:
as que são, 
as que serão 
e as que já foram."

Pela manhã, ajoelhei-me 
na areia pura. 
Limpa de viúvas de pescadores, 
gaivotas desorientadas, 
búzios que carregam sons 
de outros mundos, 
mensagens desesperadas 
dentro de garrafas antigas. 
Conheci o conforto dos crentes 
nesse gesto mudo 
de perguntar a direção 
dos próprios passos.
Mas o mar declarou-se incompetente;
inconstante na fúria; 
escravo dos humores da lua. 

Esperei a lua, 
pendurada na noite.
Perguntei-lhe ao ouvido 
a direção dos meus pés.
A lua, iluminou-os 
mas, fazendo jus à fama
nem se dignou responder-me.

Sobram-me os pés descalços
E o esboço de mil caminhos.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Kele


Síntese

Alugo o corpo aos dias entre gestos repetidos e a ligeira nostalgia da liberdade. Nenhuma música embala a pressa. Nenhum poema prenuncia a manhã. Afogo na chávena de café o sono, o cansaço, o tédio. Há um relógio em cima da ampulheta e por baixo desta há uma clepsidra. Medem a escravidão. Das janelas vê-se o azul do céu. Sonho, às vezes, que um dia será meu. 
Ensinaram-me que é do chão que vem o medo. Esta forma de coragem, porém, é de oriente ignoto.

quarta-feira, 8 de março de 2017

domingo, 5 de março de 2017

Labirinto

Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho 
Que obstinado se bifurca noutro, 
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juiz. Não esperes a investida 
Do touro que é um homem, cuja estranha 
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.

Jorge Luis Borges, Elogio da Sombra, Obras Completas, Vol. II, Teorema.

Cinzento

Todas as tardes cinzentas, de chuva miúda, são a mesma tarde em que o vi partir pela primeira vez. Pouco importam os céus de cada regresso, a ave que os cruza ou o avião que os desfaz. Uma promessa, sobretudo quando incumprida, é um grito que ecoa na eternidade. 

Canção da Lua


sábado, 4 de março de 2017

Forgiveness

Não chegou a prometida paz. Ninguém escapou ao tempo mas também ninguém esqueceu. O perdão acenou-nos lá do fundo do seu horizonte sem jamais ser tangido. 
São indispensáveis milhões de anos para limar a aresta de uma rocha. Os homens contam o tempo numa medida menos desesperada: Em crepúsculos, auroras, solstícios, equinócios. É a resiliência das rochas que nos força a encontrar um sentido para tão inútil curta existência. 
Escolhemos o erro e o arrependimento com a displicência com que poderíamos ter escolhido o acerto e a glória. 
Agora a moeda caiu no mar profundo e sobreviver-nos-á. Pertence aos deuses o segredo do rosto da vitória.
Os dias que nos sobram serão de frio ou calor, de nuvens ou de céu, da tristeza que é a nossa pena ou da felicidade que é a nossa evasão à pena. 
Mas não virá nenhuma paz, nenhum perdão. Como o previu o poeta, nenhum outro céu, nenhum outro inferno. 

Rico

Rico,
é o que rouba ao esquecimento 
três ou quatro instantes,
e deles faz a sua enxerga
para dormir,
inteiro,
a noite dos animais.


sexta-feira, 3 de março de 2017

Milongas

A milonga continuou a ressoar, cega e incansável, nas ruínas do velho palácio, muito depois de teres partido.  
Às sextas-feiras, quando a noite corria a sua cortina sobre o mundo, se houvesse lua, os lobos podiam sentir a guitarra solitária mover a sombra de uma dança de facas e rosas. 
Deslizávamos por um resto de soalho emoldurado pelas frinchas das paredes onde as gaivotas fizeram ninho. Pele contra o aço, partilhávamos o sangue e o sal, entre passos sincronizados e veias rasgadas. 
E os lobos puderam, muito tempo depois de teres partido, sentir o desespero da milonga que, nas ruínas do velho palácio, dancávamos, eu e essa adaga antiga, que guardaste dentro do meu peito. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sohlepse

Desinteressadamente, vamos coabitando  o mesmo espaço. Por vezes, cruzamo-nos no hall de entrada, à saída do quarto, ou dentro de um elevador. Nada lhe pergunto sobre a expressão de louca que, quando julga que a não a vejo, repousa no fundo do seu olhar. Retribui-me o favor fingindo ignorar a minha existência. Em casa, dividimos os livros, os filmes, o piano, as roupas, o cão. Na rua, existimos à vez. Creio que ambas sabemos que nascerá o dia em que teremos de nos sentar na mesma cadeira e negociar os traços de um futuro comum. Enquanto essa madrugada não vier, somos uma organização empresarial, em contínua gestão administrativa, paralisada pela falta de quórum.