sábado, 23 de setembro de 2017

Diário de Bordo

No final de agosto, soltámos amarras e navegámos os últimos dias da canícula em direção ao mar das Caraíbas. 
Diz-se que fugimos de um saque mal sucedido, mas, como sempre, há mais poesia na verdade. 
Esta intrépida tripulação pirata e a sua capitã, que suportam os círculos do inferno de Dante desde que nisso alguma vantagem imaginem, são incapazes de sofrer a nostalgia de um início de outono. 
Foi do abrupto anoitecer de setembro, das folhas das árvores na calçada, da chuva mansa que perfura os corações, do vento que corta noites sem lua, do definhamento que preenche o outono, que fugimos. 
Roubámos de manhã, gastámos pela tardinha, navegámos de noite e  chegámos a Tortuga a tempo dos festejos da reentrée.
Ainda as amarras não estavam presas, já polly, o papagaio pirata, guinchava recados da terra: 
Jack está cá.
Passaremos os próximos dias no conforto deste porto que sempre nos recebe com o morno abraço da normalidade. 
E não sei se já tinha dito, mas Jack está cá.

Uma marca no espaço

No universo já não havia um incluente e um incluído, mas apenas uma espessura geral de sinais sobrepostos e aglutinados que ocupava todo o volume do espaço, era um borrifo contínuo, densíssimo, um reticulado de linhas e traços e relevos e incisões, o universo estava rabiscado por todos os lados, ao longo de todas as dimensões. Já não havia maneira de fixar um ponto de referência: a galáxia continuava a dar voltas mas eu já não conseguia contá-las, qualquer ponto poderia ser o de partida, qualquer sinal em cima dos outros poderia ser o meu, mas descobri-lo não serviria de nada, de tal modo era claro que independentemente dos sinais o espaço não existia e se calhar nunca tinha existido. 

Todas as Cosmicómicas, Italo Calvino, Teorema. 

O princípio do fim

A primeira folha que se solta da árvore e é guiada pelo vento à esquina do outono.  Um cabelo branco que uma manhã brilha mais do que o espelho que o revela. O pelotão das aves que se atrasam no caminho do sol sobre uma ceara madura. A má palavra que se formou na boca amarga de um amante. O virar da página que antecede as letras do título do último capítulo. Sessenta segundos para a meia na noite nas vésperas de um solstício. A primeira madrugada de chuva de agosto. A nota inicial do compasso lento na tecla do piano. A nódoa que alastra no pano de puro branco. O roçar das asas da mosca na prata metálica da teia. 
Esse instante de indiferença em que esqueci o teu nome. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Lua Nova

Até o rio, cujo leito não lhe permite perder-se, procura na noite escura a sua lua. 
E é esta a minha frágil alegação de defesa.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Mãos vazias

Entrego as mãos à manicure com o cuidado de quem lhe deposita um Fabergé. Ela estica-me os dedos e olha-me com expressão inquisidora. Não adianta explicar que estas mãos te pertenceram. Que conservam a memória da forma das tuas. Que dentro delas coube o mundo. 
Há-de devolver-mas tal como as vê: vazias. 

Devenire

Não sei que lua existe lá fora. 
As minhas janelas abrem para as árvores e, se quisesse, daqui, poderia tocar-lhes as folhas. 
Não há céu nesta nova vida. 
Nem mar.
Só terra. 
Tanta terra. Tanta terra. Tanta terra.

sábado, 16 de setembro de 2017

Piras

Ardeu durante muitos dias, no centro da terra, a gigantesca pira onde incinerámos o amor. Queimámos em fogo lento o triste património de um inventário comum. Levantámos as mãos e sacudimos grilhetas estelares.  Dançámos sobre o mar e vimos, na alba, um céu cor de liberdade. Abraçámos o esquecimento e eram doces as suas asas. 
Diz-se que ensurdecemos aos nossos próprios nomes.

Mas depois vieram as chuvas e, juntamente com a suja lama de cinzas, sobrou tudo quanto não sabe arder: Os acordes que são a música. As metáforas da poesia. Uma constelação sazonal. O pesadelo que um homem desenhou em Altamira. O granito e o basalto. A fome. O fundo de todos os mares. 

Tanto quanto baste para que nunca nada se perca. 

Fábula Antiga

No princípio do mundo o Amor não era cego;
Via mesmo através da escuridão cerrada 
Com pupilas de Lince e olhos de Morcego.

Mas um dia, brincando, a Demência, irritada,
Num ímpeto de fúria os seus olhos vazou; 
Foi a Demência logo às feras condenada.

Mas Júpiter, sorrindo, a pena comutou. 
A Demência ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ela o cegou,

Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde então por invisíveis laços,
Quando o Amor empreende a mais simples jornada, 
Vai a Demência adiante a conduzir-lhe os paços.

António Feijó, in, 366 Poemas que Falam de Amor, Vasco Graça Moura, Quetzal.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

How to build a home

Tal como se diz de alguns mortos, que não sabem que o são, assim sucede com os recentes desexilados. É como ser fantasma ao contrário. Afantasmar. Desfantasmar. Infantasmar. Os dedos, de  súbito, conseguem empurrar as portas; os espelhos passam a ser habitados por uma expressão qualquer; o corpo materializa-se diante dos olhos daqueles que, entretanto, se esqueceram de que existimos. 
Até a casa é preciso aprender a possuir. Esboço nas paredes cada vez menos nuas os traços do meu coração, esperando fazê-la minha depois de impregnar de jazz os tecidos e de deixar a poesia ascender ao nível do pó dos candeeiros.

Reparei que, para os mesmos efeitos mas com aparente maior sucesso, o meu cão esfrega-se nas coisas. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Aniversários

Escondi as mãos dentro dos bolsos para que ele não visse um resto de solidão que ainda trago agarrado às unhas. Ambos fingimos o acaso, silenciando o facto de se terem passado exatamente cinco anos e uma hora. Os sessenta minutos, presumo, que durou a batalha interior. Um dia ganharemos a guerra. Eu terei as unhas limpas. Ele não terá bandeira alguma pela qual lutar. Seremos o que fica depois do esquecimento e a paz, como o previu a canção, abater-se-á sobre ambos. Estaremos mortos. 
Então, num qualquer crepúsculo, haverá um homem e uma mulher que são todos os homens e todas as mulheres e a eles pertencerá esta infinita, inexplicável, saudade. 

domingo, 3 de setembro de 2017

Dilemas

Como é meu hábito, chego depois de toda a gente ao maior dilema da vida adulta: Como arrumar os livros na estante? Depois de duas horas de indecisão cheguei a resultados inaceitáveis. Ponderei separar a não ficção, a poesia e a filosofia. Fiquei sem saber o que fazer com a mitologia e, por razões de justiça, pareceu-me bem juntá-la à filosofia. Quando me apercebi, já zizek dormia encostado à Bíblia. 
As dificuldades não se limitam às subespécies. É evidente que Borges em nenhuma circunstância pode ficar ao lado de Bukovski. Se arrumar todo o último na poesia, incluindo os contos, encosto Borges a Candance Bushnel, a senhora do Sexo e a Cidade. Optei por isolá-lo, acabando por perceber que a obra publicada em português não se adapta ao tamanho de nenhuma das minhas estantes. Não aceito espaços vazios em redor de Borges. Ocorreu-me juntá-lo às suas queridas Mil e Uma Noites ou ao D. Quixote. A primeira solução não serve porque tenho várias edições (todas más). A segunda não enche a prateleira. Outra dificuldade é a classificação de obras de autores como Plutarco, Ovídeo e pequenas bizarrias como as Viagens de Marco Polo. O que fazer com esta gente que não escreve nem ficção, nem não ficção, nem poesia? E os guias de viagem? Podem misturar-se com livros sobre viagens que não são guias? E os sul-americanos? Não seria preferível juntar o realismo mágico todo no mesmo canto? Pode o Asterix viver ao lado do Calvin?
Como é que as pessoas resolvem estes problemas?
Era tão mais fácil ser itinerante exilada.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Butterfly

Antecederam-no duas borboletas brancas. Recordo-me vagamente de as ter visto, numa qualquer despedida, pousadas no seu ombro direito. Deitada em frente ao mar, assisti ao bailado hipnótico que desenrolaram diante dos meus olhos. No final da dança, descansaram por um instante no meu pulso antes de retomarem a travessia do mar. Também elas navegaram muitas milhas para chegarem a esta Ilha. 
Depois, como a bruma; o vento norte; um sonho de sesta ou um deus, ele veio e cobriu-me os ombros.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Paraíso perdido

O que me quis dizer e não soube, ouvi-o, em eco permanente, durante muitas luas, como se houvesse fixado residência no interior de um búzio. O que me quis mostrar e não conseguiu, vim vê-lo e assombra-me agora os olhos. 
Se unir o que não me disse ao que não me mostrou obterei o esboço aproximado da perda. Foi nada menos que o mais próximo da perfeição a que podem aspirar os humanos.
Perder o paraíso - digo a mim própria para que a perda me seja tolerável - é, apesar de tudo, preferível a perder-nos no paraíso. É esse o destino dos que desafiam as limitações humanas.

Ah, o Algarve em agosto...


domingo, 27 de agosto de 2017

Desexilada

O exílio, é claro, não termina por decreto no dia em que regressamos a casa.
Virá a manhã de sábado em que morarei nesta cidade. Hoje, porém, ainda é apenas a cidade onde morei um dia.
Não é fácil ensinar-se geografia ao coração.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Colecionismo

As mudanças de casa são uma excelente ocasião para encontrarem objetos inúteis que foram, um dia, suficientemente  valiosos para justificarem o incómodo de os desejar, guardar e até esconder. 
Entre o pasmo e a nostalgia - creio até ter descoberto a pasmalgia, um estado de espírito ainda não catalogado  - abri um envelope cujo deslembrado conteúdo é uma vasta coleção de fotografias dos pés de um único homem. Entre muitas outras, dois pés assentes no convés de um barco e uma bandeira em plano de fundo. Um pé num horizonte azul com nuvens brancas. Dois pés submersos na água do mar. Dois pés pousados no mapa de um cartaz a anunciar um rally. Dois pés semienterrados na areia escura. Um pé pousado no braço de um sofá de riscas. Dois pés a tornearem o volante de um carro. Dois pés assentes numa mesa de mistura de som. Um pé junto do que me parece ser a janela de um avião. Outro pé ao lado de um copo de bushmills.  Os mesmos pés novamente submersos na água do mar...
Depois de inspeccionar as fotografias como se as visse pela primeira vez e de fechar o envelope, hesitei no destino a dar a tão bizarra coleção, angariada ao longo de vários meses. 
Os pés retratados há muito que sustiveram os passos da distância e os dias lavraram os vastos quilómetros de um esquecimento semeado.
Teria sido demasiado pragmático atirar o envelope para o lixo; dramático, dirigi-lo à morada do modelo; romântico, guardar as fotografias num álbum apropriado. Optei por devolvê-lo ao caos, enfiando-o ao acaso numa de várias caixas cheias de fotografias. 
É quase, espero, tão improvável reencontrar a minha bizarra coleção de pés, como voltar a amar o suficiente para, sequer, compreender a sua existência. 

sábado, 19 de agosto de 2017

Verão

As gotas de água do verão escorrem apressadas pela garganta da clepsidra. É por ela que meço os dias, contando o tempo do fim para o princípio. As cores começaram a esbater-se a partir do meio do mês de agosto. As manchas de suor e sal nos sofás brancos do lounge contam estórias dos que já partiram. Pelo chão das ruas, à noite, há riachos de gelado derretido e sangria derramada que formam pequenas lagoas nos cantos. Deixam nódoas que durarão até às primeiras chuvas de novembro. Já não há, por esta altura, um único corpo virgem de sol. E até o mar parece exausto, fingindo  expulsar, desesperançadamente, aqueles que lhe colonizam os bancos de areia. 
Este não é um verão igual aos outros na minha estância balnear. 
É aquele verão que não verei morrer. 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Pinto as unhas dos pés de azul

Pinto as unhas dos pés de azul e penduro-me no trapézio. O sol tirou-me as estrelas mas sei que, se souber esperar, ser-me-ão devolvidas, inteiras, depois do anoitecer. As estrelas são corpos mortos. Tudo o que no mundo é amável já se extinguiu. Tudo o que é detestável também. 
Há o pó. Uma espécie de pó. Uma nuvem de pó.
Dormito de cabeça para baixo, pendurada no trapézio. Sonho um pesadelo com uma criança rechonchuda, a quem querem cortar os braços para a salvar da extinção. É um sonho de inspiração Rafaelita. A criança é, na verdade, um anjo que vi pintado num fresco a precisar de restauração. Creio que salvo os braços da criança antes de decidir, dormindo, que é apenas um pesadelo. Acorda-se, todos o sabemos, quando se identifica a origem do mal. No amor também. A racionalização extingue tudo. Até as estrelas. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Anedota muçulmana

Vi um homem prestes a saltar de uma ponte.
– Não salte! – disse eu.
– Ninguém me ama – disse ele.
– Deus ama-o. Acredita em Deus? – perguntei.
– Sim – disse ele.
– É muçulmano ou não muçulmano? – perguntei.
– Muçulmano – disse ele.
– Eu também! – disse eu. – Deobando ou barelvi?
– Barelvi – disse ele.
– Eu também! Tanzeehi azmati ou tanzeehi farhati? – perguntei.
– Tanzeehi farhati – disse ele.
– Eu também! Tanzeehi farhati jamia ul uloom ajmer, ou tanzeehi farhati ul noor mewat? – perguntei. 
– tanzeehi farhati ul noor mewat – disse ele.
– Morre, Kafir! – disse eu, e empurrei-o.

Arundhati Roy, in, O Ministério da Felicidade Suprema.

Eterna fraude

São eternas as mãos do anjo de lata que ao amanhecer nos aponta o rio, ou o céu, consoante a direção que escolhe Eolo. É eterna a inconstância dos deuses e a sua avidez da mortalidade que pertence aos homens. E eterna é ainda esta velha memória das coisas dentro das células: um jardim, um tigre, uma pena, um búzio, certo olhar, uma onda que sempre embala a mesma rocha.

sábado, 5 de agosto de 2017

L-I-S-B-O-A

Deu-me, de presente de boas-vindas, a melhor prata que esconde no rio; três nuvens com o formato das copas das árvores; ruas razoavelmente vazias à hora da sesta. A casa cheirava àquilo que cheiram as nossas casas quando regressamos para as habitarmos: essência de culpa e esperança. Abri as portas devagar. Estive ausente tantos anos que é possível que os fantasmas se tenham cansado de me esperar. 
À noite, bem sei, Lisboa não me embalará o sono. Nunca dormi decentemente nesta cidade. 
Digo-lhe ao ouvido que, desta vez, não a abandonarei. Lisboa volta ao rosto para que não lhe leia o desdém. Mede-me a temperatura dos pés e sabe, como o sabem as mulheres muito velhas e os anjos, que nunca regresso para ficar. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Em quantos caixotes cabe a vida?

E uma vez mais, a minha vida útil dentro de caixas de cartão; a inútil em sacos pretos do lixo. E a sensação de que o que fica é o pouco que importaria conservar.

sábado, 22 de julho de 2017

Tangos

Quiseram os deuses, numa noite sem lua, essa frágil sombra projetada nas ruínas daquilo que foi um palácio. Moveu-se ao ritmo do tango, deslizou pelos restos das paredes e desfez-se na aurora.
Quiseram os homens a morte dos amantes. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Resultados

Maioria A

Seu psicopata! Não há limites para o seu egoísmo. Era capaz de matar a avó por duas bolachas de manteiga; a sua imagem preferida é a que o espelho lhe devolve e o destino de férias que merece é uma ilha deserta. Em suma: um pirata!
Leitura recomendada: o código penal.

Maioria B

Saiba que as pessoas ponderadas e que se pautam sempre por critérios de bom senso são irritantes e incomodam as outras. Aprenda a ser humano. Desenvolva ódios de estimação e parta a baixela da sua avó para saber como soam os pratos de encontro ao soalho. Merece umas férias numa colónia de geriátricos alemães.
Leitura recomendada: O Psicopata Americano.

Maioria C

Se está a ler isto, é improvável que os seus resultados tenham sido maioria C. 
Estas pessoas só fingem existir neste mundo porque, na verdade, vivem noutro lado qualquer. É inútil analisá-los já que jamais alguém os compreenderá. 
Merece umas férias sozinho num hotel com uma cama decente onde, finalmente, consiga dormir.
Leitura recomendada:Heródoto, as Viagens de Marco Polo ou outra bizarria qualquer.

Maioria D

De acordo com um estudo norueguês só dez por cento das pessoas com resultados maioria D responderam com sinceridade às perguntas. Se está incluído nesses, saiba que deve preocupar-se. As boas pessoas morrem antes das más. A sua família e os seus amigos aproveitam-se de si e ainda o convencem que lhe estão a fazer um favor. Merece umas férias para um campo de refugiados.
Leitura recomendada: Lassie Come Home.

Pessoas que responderam com alternativas E

Está na altura de se conformar com as hipóteses apresentadas na ementa e parar de aborrecer os chefes de cozinha com dramas do tipo "quero a salada de gambas mas sem a salada e com molho de gaspacho". O inconformismo é sobrevalorizado e prejudica a hegemonia social. Aproveite as férias para fazer uma daquelas viagens-circuitos organizador das sete da manhã à meia noite que é para se ir habituando a não ter ideias.
Leitura recomendada: manuais de instrução.


Inquérito de verão

1. O cão do vizinho incomoda-te todas as noites, ladrando pela madrugada.
A) desenvolves um plano para assassinar o bicho;
B) vais falar com os donos e ponderas queixar-te à polícia;
C) tomas comprimidos para dormir;
D) aproveitas a oportunidade para leres Proust durante a noite.

2. Pedro Chagas Freitas escreve um novo livro.
A) investigas as livrarias que colocaram o livro nos escaparates e recusas-te a aproximar das mesmas;
B) escreves um email de protesto aos editores e aos livreiros;
C) quem é o Pedro Chagas Freitas?
D) vais a correr comprar o livro.

3. Estás na praia em vias de morrer por inanição. Só vendem bolas de Berlim a €1,20 e dispões de apenas €1.
A) furtas a carteira do banhista mais próximo; 
B) tentas negociar o preço com o vendedor, apelando à tua conjuntura fome versus falta de dinheiro;
C) comes um snack de algas;
D) testas aquela teoria de acordo com a qual é possível alimentar-nos do sol.

4. Como lês os romances.
A) fechados e deitado com a cabeça sobre eles; 
B) do princípio para o fim; 
C) os últimos capítulos antes do princípio;
D) abrindo ao acaso e começando sempre numa página qualquer.

5. As tuas férias de sonho.
A) à aventura num desses sítios cheios de mosquitos e tifo como o Cambodja;
B) um mix quatro dias numa cidade com extensão de cinco a praia exótica; 
C) qualquer sítio onde possas dormir em paz e desligar o cérebro;
D) quando se trabalha naquilo de que se gosta está-se sempre de férias.

6. Estás fechado numa casa com quatro canais nacionais.
A) partes os vidros e saltas do terceiro andar;
B) vês as notícias e fazes zapping na esperança de encontrares um filme que ainda não tenhas visto;
C) vês os desenhos animados e aproveitas para dormir a sesta;
D) encontras uma boa oportunidade para assistires, sem culpa, a telenovelas.

7. Os teus primos afastados telefonam-te a avisar que vêm passar contigo as suas férias.
A) mudas de cidade nesse mesmo dia;
B) a ideia não te agrada por aí além mas é sempre possível convencê-los a fazer atividades que não te incluam e que te permitam descansar deles;
C) ficas de cama com uma gripe histérica e aproveitas a canja de galinha que te farão;
D) metes férias, compras um novo grelhador e t-shirts iguais para todos.

8. As razões pelas quais respondes a inquéritos imbecis.
A) queres ganhar um prémio. Tem de haver um prémio, certo?
B) não estás a fazer nada de jeito e é uma atividade mais interessante do que ler o blogue do Pipoco Mais Salgado; 
C) qualquer coisa que te afaste dos teus pensamentos é coisa boa.
D) tens pena da pessoa que fez o inquérito e achas que se importa. 

9. Uma personagem que te inspire
A) as personagens infra não inspirariam nem uma lesma;
B) zeus;
C) o gato que ri da Alice no País das Maravilhas;
D) o Dalai Lama.

10. O livro que nunca lerás
A) o livro de S. Cipriano porque suspeitas que não teria nada para te ensinar;
B) qualquer um do Gustavo Santos ou do Chagas Freitas ou daquele brasileiro que agora não recordo o nome mas que todos os meses edita um livro;
C) um livro de culinária porque, no mínimo, provocam queimaduras;
D) não existe livro que não lesses assim estivessem reunidas certas circunstâncias que aqui não temos paciência para enumerar.

(Inquérito inspirado neste aqui do Pipoco Mais Salgado, mas em melhor, é claro)





domingo, 16 de julho de 2017

Fim de ano

Por aqui contamos os dias pelas férias grandes. 
O meu ano chegou ao fim. O balanço, que a cobardia me promete ser inútil, ficará por fazer. Os maus dias não enchem duas mãos e o mar já há muito os levou. Os bons são todos os outros. Na contabilidade dos dias, aqueles em que nada foi são igualmente dias ganhos.
O exílio físico terminou por decreto. Um final de tarde, quando estava na casa de banho, fui informada que Lisboa me aceitou de volta. Assim. Sem o abraço da poesia ou a proteção de um céu azul.
O outro exílio, o da alma, estará muito além de um carimbo no passaporte nas mãos dos burocratas.
Não faço juras de fidelidade a essa puta que é Lisboa. Pago-lhe, como sempre paguei, com a moeda que tenho na mão. 
O coração, ou o que dele resta, deixo-o penhorado ao sul. 
E desta vez não me despeço. Não saberia fazê-lo. 

sábado, 15 de julho de 2017

Vão lá ler, vá

Numa simplificação caricatural, dir-se-á que a nova aproximação ao mundo tem uma fixação afectiva em tudo quanto provenha da Apple e tenta libertar-se do mobiliário IKEA que comprou em jovem. Simpatiza naturalmente bom Barack Obama e vê em Steve Jobs um ícone inspirador ou, melhor dizendo, um modelo de sucesso cool que lhe serve de lenitivo para as frustrações e os desaires do quotidiano. Há muitos anos, excitou-se com o Filofax, mas tudo indicia que estabilizou em definitivo no Moleskine. Desconfia se será aceitável eleger Murakami como um «grande escritor» e, às escondidas, chega a ler Nicholas Sparks, por causa dos «sentimentos». Em matéria de transportes, justifica o recurso à Uber com o argumento da falta de educação e de higiene da comunidade taxista. O uso de relógios Swatch desvaneceu-se há muito, por mais que a marca se tente reinventar. Sobressai uma demanda vertiginosa e sôfrega, quase demencial, de novidades. Sempre que algo se torna demasiado vulgar, sofre uma depreciação abrupta, sendo descartado como banal, popular em excesso.

António Araújo, Da Direita à Esquerda, editado por Saída de Emergência 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A longa noite

Na tão longa noite, além dos gritos das gaivotas, do desconforto do calor, das melgas, de um resto de luz dos faróis de algum carro que passou, veio também o perdão. Às cinco da manhã, último instante da madrugada em que são possíveis ações memoráveis, consegui perdoar-lhe. Creio que se perdoa à velocidade com que se ama e, como diz a canção, quando eu amo é sempre devagar. No dobrar das mil e uma noites, surgiu aquela, maior do que todas as outras, em que veio, finalmente, o perdão.
A manhã ofereceu-me um mundo de aparência igual ao da véspera mas, em tudo, diferente. Como se também a matéria de que são feitas as coisas pudesse depender do peso do coração. 
Saberei um dia aquilo que todos os animais pressentem: que o perdão é a face dourada da moeda do desprezo. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Diário de Bordo

A esta intrépida tripulação Pirata, durante dez meses por cada ano, não falha a coragem para o sabre ou a ambição para o saque. Lava os dentes com rum, usa com bravo orgulho o tapa-olhos, cultiva um sem fim de pequenas bizarrias desrazoáveis e mantém o coração colonizado pela arte da boa velha pirataria. 
Porém, logo que vê o mês de julho aparecer na folha do calendário, nasce-lhe das entranhas a pavloviana compulsão para se enfiar numa marina portuguesa, daquelas com lojas onde se vendem galos de Barcelos dourados, Nossas Senhoras de Fátima que adivinhem o tempo, porta-chaves com golfinhos e doces de amêndoa fossilizados.
Já levo desta vida de capitã anos suficientes para saber que há tormentas às quais é inútil apontar a proa.
Percebi que era altura de mudar a rota quando a idiotia me entrou pela escotilha mascarada de encomendas on line: colchões insufláveis em forma de lagosta, patinhos amarelos que boiam, cestas com folhos ridículos, barbatanas rosa-pastilha-elástica, pareos de toda a sorte de floreado e caixas de sardinhas e entremeada gordurosa.
Temendo que a própria da Quarteira fosse comprada na internet e entregue no meu navio, anunciei que aportaremos durante os próximos dois meses na marina mais próxima da dita.
Estamos neste exato momento a poucas milhas da costa, à espera que a lua se apague para que possamos fazer uma discreta entrada.
Estes dez-meses-por-ano-intrépidos-Piratas, aproveitam os dias de espera para encherem os insufláveis, montarem as fiadas de flores que tencionam usar ao pescoço  e desenharem escorpiões e osgas de hena em todas as partes do corpo.
Eu...bem... leio o Livro da Selva, de Kipling, lamento-me por em vez de ter ido para pirata não ter antes seguido a carreira de exploradora de tribos selvagens e sonho com as doces cores do outono.

domingo, 9 de julho de 2017

No céu de julho

Mas depois anoiteceu e foi o teu nome que apareceu inscrito no céu. Sob as esquinas dos sem abrigo, nas varandas das famílias, nos telhados dos gatos e até nas montanhas desertas. O teu nome desenhado a luz. Graffitti inapagável. Segredo gritado. Mancha insultuosa. 
O teu nome inscrito no céu de julho. 

SG

Subiu toda a avenida, caminhando pelo passeio, sem fazer uso das asas uma única vez. 
Talvez tivesse uma asa ferida, talvez preferisse caminhar, talvez também as gaivotas se esqueçam, por vezes, que as asas existem para voar. 

sábado, 8 de julho de 2017

Inavegável

Pedi um céu apocalítico.
Mas a alta lua 
iluminou,
sem incendiar,
um frágil braço de mar.







quinta-feira, 6 de julho de 2017

Comunicações Intergaláticas

Sobreviver-te é isto:
 A Billie Holiday a espalhar o seu jazz pela sala. O sol a sumir-se devagarinho nas ondas do mar. Uma lua insonsa a erguer-se. Os pratos por lavar na cozinha. O copo meio cheio em cima da mesa. Um locutor a debitar presumíveis desgraças sem som. O cão que comprei para enganar a tua ausência a ladrar na varanda. Livros esquecidos nos sítios onde se esquecem livros. Essa espécie de sobrevida. 
Cinco anos ensinam-nos a morte. Já não me espanto todas as manhãs com a mesma notícia. Não te procuro entre as multidões. Não espero que o telefone toque por ti. Não anseio aparições em sonhos. Não me atormento com a culpa. Não imagino os restos orgânicos daquilo que foste. 
Só a realidade, aquela que só o era depois de te a contar, só a realidade, essa, é que nunca mais regressou.
Sobreviver-te é isto:
Uma interminável sequência de factos banais que não se sucedem realmente porque a tua morte os tornou inconcretizáveis.  

terça-feira, 4 de julho de 2017

Insone

A insónia encontrou a minha cama voltada a sul e ocupou inteiro o espaço do colchão. É uma sombra cinzenta que nasce no chão e vai subindo pelas paredes até submergir o quarto. Não sei durante quantas noites se manterá, assim, colada à pele. É uma febre de ruídos noturno: gritos de zanga, uivos de cães, desespero de gaivotas, rodas de carros, passos alienados. Dói-me o lençol sob a clavícula, sinto crescer as unhas dos pés, ensurdece-me o rumor dos meus cabelos.
Debaixo da mancha cinzenta oprimem-me as pilhas de livros na cabeceira, os cabides no armário fechado, um bilhete dentro do bolso das calças, uma fotografia guardada no telefone e vários emails perdidos no espaço virtual.
À insónia pertence esta culpa sem rosto. A indefinível sensação do crime que julgamos ter cometido mas que não conseguimos recordar. A aceitação do castigo que é a consciência da profunda noite. 
E depois, pousar a cabeça na almofada como quem a oferece ao machado do algoz. 
Essa quase morte.